GRAVATAÍ, 24/01/2021
aldeia dos anjos

ESPECIAL | Surge uma aldeia - PARTE 2

por Eduardo Torres | Edição de imagens: Guilherme Klamt | Publicada em 09/04/2019 às 09h| Atualizada em 18/04/2019 às 12h26

Durante quatro dias, para marcar os 256 anos da chegada da última leva de mil índios à Aldeia dos Anjos, o Seguinte: conta a história do embrião de Gravataí. No segundo capítulo, o governo de Marcelino de Figueiredo, que colocou em prática o modelo pombalino. A aldeia prosperou.

 

É a partir de 1769, no governo de José Marcelino de Figueiredo, que a Aldeia dos Anjos evolui. Aquela primeira área, às margens do Rio Gravataí, que críticos esperavam, fosse provisória, mais do que dobrou seu tamanho. Foi comprada em 1770 por 450 mil réis a área que pertencia a Francisco José da Costa, um dos primeiros povoadores desta região. E saiu barato, demonstram levantamentos hoje encontrados nos arquivos do Museu Agostinho Martha. Só a igreja da aldeia, erguida em 1774, custou 500 mil réis. O custo da área foi pouco superior a duas carretas a boi novas, ao preço de 1783.

Não há detalhes sobre a negociação, e quais interesses pesaram nesta aquisição pelo governo. O território da aldeia estendia-se desde a foz do Arroio Barnabé, no Rio Gravataí, seguindo seu curso até a cabeceira, no pé do Morro Itacolomi, costeando o morro até encontrar o Arroio dos Ferreiros e descendo até o Rio Gravataí novamente. Uma área de 13 mil hectares.

 

 

Foi neste local que o projeto de aldeamento idealizado por Pombal foi colocado em prática por Marcelino, seu fiel escudeiro. Entre seus planos estava a urbanização — aos moldes da época — daquela comunidade. A primeira rua da Aldeia dos Anjos era a de entrada da povoação. Ficava onde hoje é a Anápio Gomes, e ligava a aldeia à Estrada de Viamão. Seguia até o “Alto da Luzia”, e dali até o Itacolomi.

Depois, foi criada a segunda rua, onde atualmente é a José Loureiro da Silva, iniciando na praça, onde atualmente é o Colégio Dom Feliciano, estendendo-se até o Beco da Ferraria (atual Coronel Fonseca). E, finalmente, a terceira rua, que iniciava na igreja (atual Matriz), estendendo-se até a Santa Cruz e dali ao Itacolomi.

Eram arruamentos de, no máximo três metros de largura, cobertos por mato rasteiro e barro. No período de inverno, e de chuvas, transitar pelas ruas da aldeia era tarefa complicada.

Ao longo da década de 1770, ergueram-se a escola para meninos, o recolhimento para meninas, igreja, hospital, praça, olaria, açougue, a lavoura do povo, moinho de água, além da estância que passou a fornecer carne e couro para a aldeia, que ficava na atual região de Mostardas.

 

A caixa comum dos índios

 

Mesmo que o projeto da Aldeia dos Anjos fosse tutelado pelas autoridades coloniais, o “governo dos índios” foi uma experiência, como define Fábio Kuhn, ousada e audaciosa para a época. E bem adequada à doutrina liberal que era imposta a partir da Portugal de Pombal. A ideia de José Marcelino de Figueiredo, até como forma de superar as fortes críticas que recebia por proteger os índios, era que a aldeia deveria ser autossustentável. E isto aconteceu.

— Era um empreendimento público, mas com um forte senso comunitário. E foi tão bem sucedido que, em pouco tempo, já chamava a atenção da iniciativa privada — aponta Kuhn.

 

: Não era uma missão jesuítica, mas a Aldeia dos Anjos seguia o mesmo padrão arquitetônico das reduções

 

Em dezembro de 1769, Marcelino publicou instruções “sobre os ajustes e preços por que se deviam, índios e índias a quem os quisesse alugar”. O trabalho dos índios fora da aldeia teria preço, e castigos como açoite estavam proibidos. Um índio domador deveria receber 3,6 mil réis mensais, um índio para conduzir carretas, roçar ou ser peão, receberia 3 mil réis. Era o mesmo valor de uma ama de leite. Uma índia para servir, 1,8 mil réis e um índio para serviços gerais receberia 1,5 mil réis. Somente os oficiais de carpinteiro tinham a liberdade para ajustar seus salários livremente. E mais: os moradores poderiam usar o serviço dos índios por no máximo um ano.

Até então, no governo de Sá e Faria, já era previsto o uso do trabalho dos índios, mas o governador determinava apenas que o preço deveria ser ajustado com o comandante da aldeia, o capitão Antônio Pinto Carneiro.

Não é possível dizer que a regulamentação determinada por Marcelino fosse um primórdio de leis trabalhistas, porque provavelmente o valor pago a eles era bem inferior ao pago para trabalhadores brancos. E não se sabe ao certo quais eram os ganhos de Pinto Carneiro sobre o trabalho dos índios. Também por determinação do governador, qualquer um que quisesse os serviços dos índios deveria ter autorização do capitão, que, obviamente, recebia alguma comissão pelo agenciamento.

— Não eram índios crus no contato com o homem branco. Quem veio para a Aldeia dos Anjos havia passado pelas reduções jesuíticas, então, muitos deles vieram com ofícios como carpinteiros, ferreiros. Em Porto Alegre, criada uma década depois da Aldeia dos Anjos, havia inclusive a Rua dos Guaranis, que era onde os índios trabalhavam em estaleiro, construindo barcos — relata o historiador Fábio Kuhn.

O dinheiro arrecadado pela comunidade, como uma contribuição coletiva, formava o chamado Caixa dos Índios. Valor que servia para custear cirurgiões, leitos em hospital e remédios.

Ao que tudo indica, havia valores de sobra em certo período da Aldeia dos Anjos. Entre 1774 e 1776, a aldeia recebeu mais de 7 contos de réis nas negociações, principalmente, de carne e couro da estância, e de tijolos da olaria. Ao final destes dois anos, conforme levantamento de Kuhn, houve lucro de 2 contos de réis.

— Eram feitos leilões do couro, que era tratado na aldeia, com grande concorrência. Era um produto muito necessário e apreciado — relata o historiador.

Havia 40 índios empregados na estância. Eles tropeavam o gado até o açougue, na aldeia. Dali, forneciam, além da carne, queijo, manteiga, graxa, sebo, velas e couro.

 

A primeira escola do Rio Grande do Sul

 

Entre os seus primeiros atos como governador, em 1769, José Marcelino de Figueiredo ordenou que cada aldeia nesta capitania tivesse a sua escola. Seria um lugar dedicado a ensinar, sobretudo, a língua portuguesa aos índios. E assim, em janeiro de 1770, surgiu a Escola de Ler e Escrever, na Aldeia dos Anjos, tendo Antônio José Abruzelo como primeiro diretor, até 1775, e depois substituído pelo Frei Joaquim de Santa Úrsula – este, acabou morrendo de “bexigas” em 1777. A escola é reconhecida pelos historiadores como a primeira escola do estado. Tendo os padres – boa parte deles, ex-jesuítas – como professores, a escola chegou a ter mais de 50 meninos e, em 1776, foi transformada em internato.

Uma escola para meninos índios criada antes mesmo dos brancos terem escolas neste lugar, gerou ainda mais insatisfação de uma parte da sociedade. Em 1780, o secretário da Fazenda Real, Sebastião Francisco Betâmio, em visita à Aldeia dos Anjos, escreveu uma crônica:

“Para que tanto desvelo para os índios boçais e incapazes. Tudo seria melhor empregado na vila dos brancos, principalmente em Porto Alegre, onde não há escolas”.

Na carta que escreve ao vice-rei, em 1771, o espião Francisco José da Rocha fez questão de separar 16 meninos para a escola e outros cinco para aprenderem ofícios de serralheiro, ferreiro, carpinteiro, alfaiata e sapateiro. O “curso profissionalizante” tinha duração de três anos. “Sendo os mestres obrigados a dar-lhes de comer e vestir durante este tempo”, dizia a carta.

Mas não eram só os índios que precisavam aprender a ler e escrever. Havia poucos padres para a função, então, Rocha também deu conta de que fossem formados os futuros professores da aldeia:

“Pedi a este padre que aqui está comigo quisesse ensinar e juntamente a meninos portugueses, que aqui havia sem meio de poderem saber ler, dos quais um poderá entrar na gramática brevemente pela muita habilidade que tem”.

Para os planos de assimilação que o governo colonial tinha para os índios na capitania, a escola era parte fundamental. Havia ordens para que os meninos fossem, inclusive, afastados de parentes mais velhos, que não falassem o português, justamente para cortar o laço com a língua materna deles. Obviamente, o plano português não funcionou bem assim. Em 1771, por exemplo, Rocha não dispensa o “língua”, como eram chamados os tradutores do guarani para o português.

A resistência da língua é um dos principais símbolos da força do povoo indígena contra o projeto pombalino na Aldeia dos Anjos. Entre os índios, a conversa era sempre em guarani. Durante os 20 primeiros anos da aldeia, relatos dão conta de que, dos três mil índios, não mais do que 20 sabiam falar português.

“Alguns provavelmente já chegaram à Aldeia dos Anjos sabendo ler e escrever, ou tinham um ofício. Porque vinham da educação nas reduções jesuíticas. Mas o fato concreto é que a cultura indígena resistiu ao maior e mais bem sucedido projeto pombalino de assimilação no período colonial”, resume o historiador Fábio Kuhn.

E se, entre os meninos, a intenção do governo era criar súditos do rei aos moldes portugueses, entre as meninas, o projeto pombalino as colocava em um papel de protagonistas da assimilação: elas seriam preparadas para se tornarem esposas, de preferência, de homens luso-brasileiros. Quem casasse com índias, recebia a promessa de terras pelo governo da capitania.

 

: Projetada sobre o território atual de Gravataí, a Aldeia dos Anjos ocuparia esta área

 

Em sua carta de 1771, Francisco José da Rocha narra com alegria que havia participado, como padrinho, de cinco casamentos entre soldados e índias na Aldeia dos Anjos. Para tornar esta uma prática, em 1777 foi criado o recolhimento para meninas, denominado Colégio das Servas de Maria, tendo Gregória Rita Coelho como administradora. Ela era uma viúva, moradora da freguesia, e é considerada a primeira professora de quem se tem registro no Rio Grande do Sul. O método de educação das meninas recolhidas seguia regras estritas, determinadas pelo governador.

O recolhimento teria, no máximo, 50 meninas, todas entre seis e 12 anos. Na chegada, elas deveriam receber uma saia de algodão, duas camisas, dois côvados de baeta – manta de lã ou algodão –, um catre, uma esteira, uma fronha e um rosário.

“Ao toque da alvorada ou romper do dia, se levantarão, se pentearão e lavarão e irão em colégio com sua mestra ao coro a dar graças, ouvir missa e encomendar-se a Deus. Depois irão para o trabalho ou de costura, ou de fiar e tecer. Depois de jantar (atual almoço), terão algum repouso ou recreio e continuarão o trabalho. Depois de cear, rezarão suas devoções e com algum tempo de oração, se recolherão”, dizia a ordem de José Marcelino Figueiredo.

Elas não poderiam aprender a ler e escrever. Era também proibido que falassem o guarani. Se alguma delas fosse procurada para casar, havia todo um trâmite burocrático. Primeiro, o comandante da vila deveria se informar sobre o pretendente e sua capacidade financeira. Depois disso, a autorização para o casamento, assim como o dote e o enxoval da noiva, eram providenciados pelo governador.

Ao todo, eram 17 recomendações enviadas no começo de 1778 pelo governador.

No livro de registros da aldeia, é possível encontrar alguns dos casamentos de índias com luso-brasileiros. Geruy, que se tornou Liberata de Santa Helena, casou com o português Felipe Santiago Villas Boas. Já Arapey, ou Inácia de Sampaio, casou com o soldado Bragão Jacó Ribeira.

 

O primeiro padre índio

 

Mesmo que o projeto de assimilação não tenha se concretizado aos moldes de Pombal, dá para se considerar bem sucedida a missão de catequizar e alfabetizar, ao menos, uma minoria, que se tornou fluente no português e no latim. E estes, eram reconhecidos pelas autoridades.

Foi assim que seis meninos considerados destaques na Escola de Ler e Escrever foram levados a estudar no Rio de Janeiro. José Inácio da Silva Pereira, filho de pais guaranis, voltou de lá padre. Ao longo dos anos, outros também se ordenariam, mas ele é considerado o primeiro padre guarani do Rio Grande do Sul.

De acordo com Fábio Kuhn, eles eram levados ao Rio de Janeiro e, depois de ordenados padres, deveriam voltar à aldeia. Era justamente para que servissem de exemplo na comunidade.

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