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    3º Neurônio | crônica

    A Corrupção

    por Braulio Tavares | Publicada em 29/11/2017 às 18h56| Atualizada em 30/11/2017 às 18h21

    A corrupção é uma ruptura precedida por uma corrosão. É um avanço gradual onde o cara nem percebe alguma coisa acontecendo. Cada dia, avança-se um fio de cabelo. Ninguém repara. Jorge Luís Borges fala de um palácio onde a cada cem passos havia uma coluna; aos olhos suas cores eram idênticas, mas as colunas eram tão numerosas e as gradações tão sutis que a primeira delas era amarela e a última escarlate. Transições assim passam despercebidas, ocorrem sem sacolejos, sem catabis que chamem a atenção.

    A corrupção não é uma oferta súbita de dinheiro. Dinheiro só aparece lá adiante, porque é o coroamento de um processo, é o carimbo, a rubrica, o Rubicão, o ponto de não-retorno. Antes disso deve ocorrer uma aproximação gradual, uma preparação de terreno. Corruptores não dão ponto sem nó, não arrombam portas, não pulam na piscina sem testar a temperatura da água, não fazem uma pergunta se não já confiarem na resposta. Antes dessa proposta ser insinuada (sugerida, assim como quem não quer nada, num contexto inocente, sem alusão, sem compromisso), há todo um balé de aproximações. Gestos e atenções aparentemente desprovidos de interesse. Gentilezas que plantam no agraciado um vago desejo de retribuir de alguma forma, no futuro.

    A corrosão começa pela aferição meticulosa de como o indivíduo-alvo se comporta em cada tarefa da gincana diária. Avalia-se a distância entre o que ele afirma em público e o que confirma em particular. Avalia-se o modo como ele encara os próprios deveres e os direitos dos outros. Avalia-se sua atitude depois que começa a ter acesso a privilégios, tratamentos vip, atenções diferenciadas. Tudo isso é um enorme filtro onde muitos não se encaixam e ficam retidos, e muitos se esgueiram moralmente e vão passando, vão subindo, vão sendo admitidos à concordância muda sobre tais ou tais critérios.

    Ela não se resume a um ato grosseiro de suborno, em que a pessoa-alvo é encurralada e coagida a vender a alma em troca de um saco plástico cheio de notas empacotadas. É uma lenta deterioração das defesas e dos princípios, possibilitando a impregnação final da medula.  E a vítima, muitas vezes, é quem se antecipa aos pedidos e faz ela mesma o oferecimento, na linha do “Sendo assim, que tal se...?”

    O cara nunca sabe em que ponto desse processo está. Olhando em torno, as pilastras são todas da mesma cor. Ele não tem memória do processo porque nunca teve consciência do que acontecia. Ele pensa que está onde sempre esteve, mas a verdade é que deixou-se levar, e quando os olhos se abrem ele percebe que transpôs um limite que não era um traço nítido no chão, o limite era o próprio trajeto.

     

    Braulio Tavares é escritor, tradutor e cientista. Mantém o blog Mundo Fantasmo.

     

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