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    3º Neurônio | fábula

    A caipira sonhadora

    por João Carlos Pacheco | Publicada em 05/12/2017 às 13h36

    Aquela era uma franguinha sonhadora: queria porque queria ser a top model das franguinhas caipiras. E fazia tudo pra isso.

    Ginástica para afinar os quadris, corridas para modelar as coxas, dieta para não criar pneus na barriga, tudo. Milho e ração, nem pensar. Só comia folhas verdes e lá de vez em quando um pouquinho de quirela. Botar ovo? Tá maluco. Isso era coisa pras caipiras antiquadas, gordas e horrorosas. 

    As outras galinhas não entendiam as atitudes daquela franguinha metida a besta.

    - Magricela metida - diziam.

    - O que ela está pensando que é?

    Só uma velha poedeira carijó tinha paciência com a caipirinha sonhadora e dizia:

    - Cuidado, minha filha! Isso pode acabar mal!

    Mas a franguinha não ligava.

    - Que nada. Ainda farei muito sucesso nas passarelas do mundo. Quem viver verá!.. -  retrucava ela empinando o peito.

    Aliás, o peito era o que a caipirinha mais cuidava. Pendurava-se horas e horas no poleiro com a cabeça pra baixo pra ficar com o peito grande:

    - Peito duplo! Já ouviram falar? É a última moda nos Estados Unidos - falava ela.

    E assim vivia a magricela: sonhando. Quando surgiu a moda da minissaia foi a primeira a raspar as penas das coxas. Um dia descobriu que na França faziam sucesso umas do pescoço pelado. Não teve dúvida: raspou as penas do pescoço também.

    O dono da granja não ligava pra loucuras da caipirinha metida. Achava até graça:

    - Esta franguinha deve ser louca! - dizia.

    - Não pode ver bacia com água que corre logo pra se olhar. Deve se achar muito linda!...

    E era isso mesmo. A caipirinha passava horas e horas se olhando no espelho da água das bacias que serviam de cochos.

    Um dia apareceu na granja um quitandeiro da cidade a procura de ovos caipiras, botou os olhos na franguinha metida a besta e se encantou:

    – Uma Label Rouge! Que maravilha!  Não vim pra levar galinhas, mas esta  vou levar... Chamou  o dono da granja e mandou pegá-la.

    – Qual? A do pescoço pelado?  Isto não presta pra nada, nem ovo bota. Não me leve a mal, mas o senhor vai levar a pior de todas. Tenho outras muito melhores – alertou o dono da granja.

    – Que nada, amigo. É uma Label  Rouge, raça francesa. Você nem imagina que carne mais macia e  saborosa. Tem gosto de caça. Olha só que peito, que pernas. Imagine assadas! Na Europa é só  o que se come. Vou levá-la. Pode pegá-la e juntar com os ovos que escolhi...

    E assim foi. Num rápido corre-corre, a  caipirinha sonhadora foi pega e lá se foi ela esperneando, não para  o sucesso das passarelas  do mundo, mas para panela do quitandeiro.

    Moral: Quem muito imita o estrangeiro, perde a vaga no poleiro!

     

    João Carlos Pacheco é publicitário e humorista.

     

     

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