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    mistério policial

    Sirlene de Freitas Moraes, desaparecida em 2005. (Foto arquivo pessoal)

    O que aconteceu com mulher e filho que moravam em Gravataí, sumidos há 12 anos?

    por Carlos Wagner | Publicada em 04/12/2017 às 14h11| Atualizada em 11/12/2017 às 14h20

    "É possível que alguém envolvido no desaparecimento de Sirlene e seu filho Gabriel, em 2005, esteja esperando ser descoberto para contar a sua história".

    Carlos Wagner - Jornalista

     

     

    O que aconteceu com a comerciante Sirlene de Freitas Moraes, 42 anos, e com o seu filho Gabriel, sete anos? Estão desaparecidos desde junho de 2005, quando ela saiu para encontrar o pai do menino, um médico homeopata, com quem teve um caso extraconjugal. O médico chegou a ser preso preventivamente por 58 dias como principal suspeito do desaparecimento. Mas foi libertado, e o caso, encerrado por falta de provas. Para a Polícia Civil, é mais um caso sem solução. Para a família, a maior tragédia do mundo. E para nós, repórteres?

    Para responder a essa pergunta, o primeiro passo é lembrar o que o nosso leitor espera de nós. Não deixar coisas como esse desaparecimento ser esquecido nos noticiários. Em qualquer parte do mundo, a pressão da mídia faz as coisas acontecerem. Aqui não é diferente. Nos meus 40 anos como repórter investigativo, já vi isso acontecer uma centena de vezes,  principalmente em casos  policiais.  Na época, a investigação foi realizada pela 14ª Delegacia de Polícia Civil (14ª DP) de Porto Alegre, e o caso só voltará à mesa dos investigadores caso aconteça uma novidade. A história dos casos policiais nos mostra que é raro aparecer. em crimes antigos sem solução, novas pistas que justifiquem reabrir a investigação. Todo investigador, seja policial ou repórter, sabe que o caso que não for resolvido nas primeiras 72 horas é um forte candidato a se perfilar entre os sem solução.

    O desaparecimento de Sirlene e seu filho Gabriel parecia que seria resolvido nos primeiros dias. Lembro bem porque trabalhei uns oito meses no caso. Tudo começou quando ela marcou uma consulta com o homeopata, os dois acabaram se envolvendo, e nasceu Gabriel. Sete anos depois do nascimento do menino, ela morava com o marido e outros dois filhos em Gravataí, Região Metropolitana de Porto Alegre, e tinha uma loja de roupas em shopping popular, no Centro Histórico da Capital. Dias antes do seu desaparecimento, ela comunicou ao marido que Gabriel não era filho dele. Mas do seu amante, o homeopata. Ela e Gabriel foram morar na casa de parentes em Porto Alegre, e o marido continuou morando em Gravataí com os dois filhos do casal.

    O que aconteceu na vida da Sirlene e do Gabriel, nos dias que se seguiram à saída da casa do marido para ir morar com os familiares, foi vasculhado dezenas de vezes pelos investigadores da 14ª DP na busca de pistas. De concreto, foi descoberto que o médico admitia a paternidade do garoto, mas ainda não havia reconhecido oficialmente: ele pagava uma pensão de R$ 200 e iria reajustar para R$ 1,5 mil. E havia prometido dar um apartamento para ela e o menino. A comerciante estava pressionando para ele reconhecesse o menino oficialmente como filho. Conversei longamente com os parentes dela. Há duas hipóteses muito fortes que podem ter sido o motivo de ela ter rompido o casamento. A primeira é que o caso com o médico se estendeu pelos sete anos de vida do menino. Os conteúdos das conversas que ela teve com os seus parentes apontam nessa direção: ela estava convencida que o amante iria assumir o relacionamento com ela. A segunda hipótese tem a ver com as dificuldades econômicas dela, devido a problemas com a loja de roupas. Ela teria visto no relacionamento com o médico uma saída.

    Uma das fragilidades dessa investigação é, justamente, o desconhecimento do que realmente levou Sirlene a chutar o balde com o marido e acreditar que seu amante seria a solução dos seus problemas. Conversei longamente com os policiais envolvidos na investigação e li o inquérito policial. Há uma fileira enorme de motivos que justificam esse desconhecimento sobre o que a levou a chutar o balde, um deles é a rapidez como as coisas aconteceram. Vamos à sequência dos fatos: no dia do desaparecimento, ela saiu de casa e avisou os seus parentes que estava indo se encontrar com o homeopata em um posto de combustíveis a umas três quadras de onde estava morando. Estava feliz, porque o amante iria reconhecer a paternidade do menino. A decisão de levar o garotinho ao encontro, ela tomou minutos antes de sair de casa. O motivo que a levou a tomar essa decisão não é conhecido.

    Com o menino pela mão, Sirlene saiu de casa rumo a um posto de combustíveis, na Avenida Baltazar de Oliveira Garcia, para encontrar o seu amante. Era 11 de junho de 2005, véspera do Dia dos Namorados. A investigação policial apurou que ela e o menino foram vistos entrando em um carro Monza. Nunca mais foram vistos. A família comunicou o desaparecimento para a polícia e relatou que ela tinha ido a um encontro com o homeopata. Dias depois, um casal de amigos do médico prestou depoimento aos investigadores, relatando que o suspeito havia pedido que escondessem para ele as suas duas armas: um revólver e uma espingarda. Há dezenas de reportagens disponíveis na internet sobre o caso.

    O que aconteceu no posto é, até hoje, um mistério. Ficaram apenas perguntas sem respostas. Por exemplo: teria acontecido uma briga entre eles, e as coisas fugiram do controle? Aqui lembro um fato aos meus colegas, principalmente aos novatos na reportagem. Em algum lugar na investigação do caso, ficou uma pista perdida que pode ajudar a esclarecer o que aconteceu. Ao examinarmos a conjuntura do desaparecimento: há uma criança envolvida. Os dois principais personagens, a comerciante e o médico, não são bandidos profissionais. Eles são pessoas comuns. Portanto, seja lá o que tenha acontecido, foi resultado de um momento que resultou na perda de controle da situação. Ao contrário dos bandidos profissionais, as pessoas normais costumam se atormentar por muitos anos quando vivem uma situação dessas. Lembro de um caso recente em que trabalhei. Em 2014, em Três Passos, o menino Bernardo, 11 anos, foi assassinado pela sua madrasta, Graciele Ugulini, com a cumplicidade do pai dele, o médico Leandro Boldrini, e de outras duas pessoas – os quatro estão presos, aguardando julgamento. A polícia não teve dificuldades de esclarecer o caso porque os quatro deixaram um enorme rastro de pistas. E o sentimento de culpa dos suspeitos facilitou o trabalho da polícia na hora do interrogatório. Há uma real oportunidade de que alguém envolvido, direta ou indiretamente, no desaparecimento da Sirlene e seu filho Gabriel, esteja esperando ser descoberto para contar a sua história e poder voltar a dormir sem ter pesadelos. Já vi isso acontecer mais de uma vez.

    Leia mais no blog do jornalista Carlos Wagner CLICANDO AQUI.

     

     

     

     

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