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GRAVATAÍ, 24/10/2019

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    Fábrica da GM em Gravataí | Foto ARQUIVO/GM

    O blefe da GM; quem paga esse almoço?

    por Rafael Martinelli | Publicada em 21/01/2019 às 20h01| Atualizada em 30/01/2019 às 20h11

    Menos pânico, mais realidade, nas especulações sobre um pinote da General Motors da América do Sul. O que, sem dúvida, seria mais do que um desastre para Gravataí. Calcule: sediamos hoje a fábrica mais lucrativa da montadora no mundo, aqui é produzido o carro mais vendido no país e em 2018 a prefeitura teve a GM como responsável por 40% do ICMS, ou R$ 70 milhões anuais da arrecadação, sem contar os R$ 3 bilhões produzidos e a empregabilidade que influenciam no PIB, o dinheiro que circula na economia local.

    Depois explico um pouco dessa equação, que faz da GM nossa heroína, e de Gravataí uma invejada vilã entre os municípios do Rio Grande do Sul.

    "Mude-se!" "Feche seu negócio e procure outro lugar!", talvez seja a recomendação num daqueles cursos do Sebrae, caso a GM feche as portas – lembremos: parta mais de um bilhão em incentivos e obras públicas do Estado, ou uma fábrica de graça, depois (meia dúzia de reais concedidos por Gravataí, vibremos). Alguém duvida que viraríamos uma Detroit piorada? Para quem hoje sente medo na cidade que, em 2018, ficou entre as cinco maiores em redução de crimes no RS, apavore-se porque não seria difícil voltarmos à ‘zona de atentado’, identificada pelo Facebook em 2017 após a guerra de gangues que matou o dobro de pessoas que no ano passado. Nos EUA foi assim: a cidade que perdeu metade de seus empregos com a quebra da indústria automobilística, tem uma taxa de homicídios 11 vezes maior que Nova Iorque e seis em cada dez crianças vivem em estado de pobreza.

    Mas contextualizemos o caso ao chiste de sexta, para não alimentar o que talvez possamos suspeitar estar incluso em classificação nos bytes das ‘fakenews oficiais’ – apesar do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí, Valcir Ascari, em declaração publicada nesta segunda pela insuspeita colunista de GaúchaZH Giane Guerra, ter narrado alerta da direção da empresa de que o comunicado de Zarlenga “não é blefe”. Os metalúrgicos da aldeia tem reunião com a montadora semana que vem. Os paulistas, conforme o jornal Estadão, tem encontro com diretores nesta terça. A GM, por nota, informou ao colunista Silvestre Silva Santos, do Seguinte:, um dos primeiros a revelar a possibilidade do ‘tchau GM’, que não se manifestaria sobre a polêmica.

    Vamos aos elementos que gravitam entre o factual e o conspiratório. Acho deplorável especular sobre fatos que mexem com milhares de milhares de pessoas, porque representam o emprego e o sustento de famílias e negócios que tem sua renda ligada a esse conjunto de pessoas, mas quando uma empresa do tamanho da GM permite isso, é porque ela quer, convenhamos.

    A começar pelo dia do Zarlengaço. Uma sexta-feira. Janeiro. Em uma tarde de país tropical. Nenhum site da imprensa especializada nacional ou mundial tinha tratado do assunto, em detalhes, antes. Nos murais das fábricas, inclusive em Gravataí, como comprovava foto enviada para o colunista, surge um comunicado do presidente da General Motors Mercosul Carlos Zarlenga, reproduzindo reportagem publicada nos Estados Unidos que menciona que a presidente mundial da montadora, Mary Barra, deu sinais de que está considerando sair da América do Sul, onde mantém fábricas no Brasil e na Argentina. No comunicado aos funcionários, Zarlenga disse que “investimentos e o futuro” do grupo na região dependem da volta da lucratividade das operações ainda em 2019.

    Um executivo do porte de Zarlenga, de uma empresa com ações na Bolsa (apesar de reportagem do ExtraClasse, menção honrosa no Ari 2016, o maior prêmio de jornalismo do RS, ter mostrado que a sucursal brasileira da multinacional é de capital limitado, enquanto outras gigantes que negociam papéis oferecem uma maior visibilidade aos acionistas), não detona, e sim arma uma bomba às vésperas de um fim de semana. É previsível – e calculada – a explosão de terror. Ou não é perfeitamente imaginável o pocker face do dono de Camaro e piloto de corridas que comanda a GM brasileira e argentina, testando um blefe? Isso para ser educado com estrangeiros, não atropelar e descrever o manifesto como chantagem.

    No artigo Onde a Gravataí da GM encontra a mulher do Bolsonaro e a filha de Moro, publicado em dezembro pelo Seguinte:, tratei dos riscos que trazia para Gravataí o futuro ministro da Economia Paulo Guedes dizer que o Mercosul não seria uma prioridade do novo governo.

    – Não precisamos de incentivos fiscais, mas de competitividade – dizia Zarlenga à época, no momento em que o setor automobilístico ganhava do governo Michel Temer R$ 2 bilhões em isenções de impostos, com a justificativa de investir em novas tecnologias, o que servia perfeitamente para a produção do carro elétrico na fábrica de Gravataí.

    Zarlenga claramente olhava para fora. Não adianta produzir e não ter preços competitivos para vender em um mercado em crise. Brasil e Argentina, desenhando.

    Escrevi:

    "(...)

    Explicando grosseiramente, o Mercosul é importante por representar uma zona de livre comércio que, ao taxar e encarecer produtos de fora, incentiva que os países-membros comprem e vendam entre si. É o caso dos automóveis, principal item exportado pelo Brasil ao restante do bloco.

    Funciona assim: se a Argentina quiser comprar carros do Brasil, por exemplo, não precisa pagar nenhum imposto de importação (ou vice-versa). Mas se quiser comprar de fora do bloco, a alíquota será de 35%. No ano passado, os automóveis de passageiros responderam por 22% de tudo o que vendemos dentro do bloco – US$ 22,6 bilhões (R$ 84 bilhões).

    Como apontaram especialistas ouvidos pela BBC Brasil, “o resultado desse 'protecionismo' é óbvio: incapaz de fazer frente a outros países do mundo, a indústria nacional brasileira, menos competitiva, sai favorecida”.

    (...)"

    Não seria o caso de debitar esse e-mail-bomba de Zarlenga num 'Posto Ipiranga'? Paulo Guedes, a quem Bolsonaro terceirizou a condução da economia (pelo menos na conversa para agradar o mercado), tem falado não só em rever protecionismos como os do Mercosul, mas em acabar com incentivos setoriais em todo Brasil – como são os concedidos pelo Regime Automotivo inaugurado em 95 por FHC, estendido por Lula, Dilma e Temer. Em outras palavras, o Regime dá autorização, e dinheiro do BNDES, do BRDE e de bancos estaduais, como o Banrisul, para guerra fiscal que, desde os anos 90 turbinou a instalação da GM no RS, a Renault no Paraná e a Ford na Bahia e concentra na indústria automobilística a maior parte dos recursos internacionais que chegam ao Brasil – rentismo à parte!

    Importante observar que o comunicado de Zarlenga acontece três dias depois de Bolsonaro receber Maurício Macri, presidente da Argentina, onde as GMs irmanadas tem capacidade para produzir até 5 milhões de carros por ano, mas para consumo quase que restrito ao Mercosul.

    – Lá fora a GM tinha um market share pequeno, número 6 ou 7 no mercado. E esse é um mercado no qual se você não é número 1, ou número 2, é difícil criar escala e ganhar. A América do Sul é uma área de absoluta importância, estratégica, quase fundamental para a GM – dizia Zarlenga, em declaração que reproduzi no artigo de dezembro.

    Para quem não sabe, o mercado automotivo é altamente subsidiado e os empregos custam caro. Na cadeia produtiva gaúcha e, principalmente em Gravataí, apesar de todo impacto, em população (do tamanho de uma Alegrete), nas consequentes demandas por serviços públicos e no orçamento municipal, que passou de R$ 37 milhões em 96, quando a fábrica foi anunciada, para R$ 700 milhões neste ano, os empregos diretos e indiretos não chegaram à metade dos 100 mil projetados nas manchetes do fim dos anos 90 – menos de 8 mil, aqui. É outra história se foi bom ou ruim, uma análise que confronta leituras de que se atraiu um dinheiro que não existia. Ou que se dividiu um recurso que não apareceu. Para Gravataí foi o paraíso, como aprofundo a seguir.

    Mas, por óbvio, o recado de Zarlenga também mira os funcionários das – cada vez mais robotizadas – fábricas brasileiras, em São Caetano do Sul, São José dos Campos e Gravataí, para que não tencionem por aumentos de salários e mais participações nos lucros e resultados.

    O que segura o pânico em Gravataí é que já está sendo feito o investimento de R$ 4,5 bilhões projetado pela GM no Mercosul, parte do ‘show do bilhão’ já aplicado na fábrica da aldeia. Desde 2014, já são R$ 13 bi na América do Sul. Entre os planos da montadora está liderar no bloco econômico o mercado de carros elétricos, com o lançamento de 20 produtos nos próximos cinco anos. Não há confirmação da montadora, mas o Seguinte: apurou que fevereiro deve ser o mês de um lay off, uma parada na produção, para adequar a fábrica à produção do novo carro, em cuja plataforma já teriam sido investidos pelo menos meio bilhão de reais. Assim, é lógico interpretar que, mesmo que o fechamento de fábricas não seja um blefe que mira pra fora (nos políticos) e para dentro (nos sindicatos) da fábrica, Gravataí será a última da lista a desligar os motores.

    Para Gravataí, a GM sempre foi um bom negócio. Inegável é que a aldeia é vilã dos demais municípios, já que pelo menos os tributos diretos da GM só entrarão no orçamento gaúcho em 2033 – descontadas antecipações que os governos tem feito para pagar salários e fazer sumir no caixa único do RS. O retorno cada vez maior que a cidade tem é bancado pelo rateio entre os impostos arrecadados pelos outros 496 municípios.

    Escrevi no artigo de dezembro:

    "(...)

    Nesse Show de Truman – sim, parece cada vez mais real o filme que chegou aos cinemas há 20 anos como uma ficção científica quase distópica (e a personagem de Jim Carrey somos nós) – pouco se sabe sobre as primeiras medidas que o futuro presidente vai tomar. Para Gravataí, algumas diatribes da transição, tuitadas ou ditas em improvisadas lives e entrevistas coletivas, ou em convescotes a embasbacados empresários, não parecem nada boas.

    Mas tem outra coisa que preocupa, para além da “facada” que o superministro Paulo Guedes projeta no Sistema S, que pode fechar vagas de ensino técnico e profissionalizante na Gravataí da Escola do Sesi, e Silvestre Silva Santos tratou no Seguinte:, em artigo na semana passada. É que o ‘posto ipiranga’ da economia já disse que o Mercosul não é uma prioridade para o futuro governo. Isso pode representar outra facada – desta vez na GM, a grande paixão de Gravataí, responsável por quase metade da receita.

    (...)"

    E concluí:

    "(...)

    Certamente declarações dessas, se chegarem à prática, agradarão mais às montadoras chinesas, de olho no Mercosul, do que à GM da Gravataí onde sete em cada dez eleitores votaram no chefe do ‘posto ipiranga’.

    (...)"

    Muitos fanáticos trataram o artigo por alarmismo, principalmente pela mídia nacional pouco repercutir os reflexos em Gravataí – nos veículos da imprensa estadual, então, não lembro de jornalistas alertando para a relação direta entre a lucratividade da GM e o mercado do Mercosul. Enfim, não deu na Globo ou na RBS, não existe! Mas até um googleada rápida mostra que esse negócio do século 20, que são as montadoras, sobrevive de incentivos fiscais e socorros públicos, tanto aqui quanto nos Estados Unidos. Qualquer sinal contrário, eles passam por cima.

    De graça o comunicado de Zarlenga não foi. Se funcionários, ou contribuintes, alguém ainda vai pagar esse almoço.

    There is no free lunch.

     

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