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    opinião

    Lula, que estava preso, foi autorizado pelos militares, durante a ditadura, a ir ao velório da mãe

    Lula, um presidiário incomum

    por Rafael Martinelli | Publicada em 30/01/2019 às 15h12| Atualizada em 07/02/2019 às 12h49

    Se Beau Willimon escrevesse um argumento para série narrando, antes de acontecer, os assombros da política brasileira desde o golpeachment, seria muito provável algum produtor executivo de Netflix sugerir algo menos ficcional.

    Mas a nossa realidade, povoada de vilões e heróis caídos, supera diariamente, muitas vezes mais de uma vez a cada 24 horas, qualquer licenciosidade artística.

    O capítulo do dia, tão surreal quanto um original do Marquês de Dalí de Púbol, é a liberação do Supremo para o irmão morto visitar Lula. Sim, o leitor não leu errado. O presidente do STF Dias Toffoli autorizou o ex-presidente a participar do enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, quando o esquife já saia da capela para a cova. Aos familiares cabia decidir se queriam levar o caixão para um passeio até uma base militar para encontrar Lula.

    Antes de gastar mais as teclas de seu PC, notebook ou celular metralhando c-o-m-u-n-i-s-t-a, p-e-t-r-a-l-h-a ou m-i-m-i-m-i no Grande Tribunal das Redes Sociais, vamos aos fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos pré-concebidos.

    Leia isso:

     “Os condenados que cumprem pena em regime fechado ou semi-aberto e os presos provisórios poderão obter permissão para sair do estabelecimento, mediante escolta, quando ocorrer falecimento ou doença grave do cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou irmão”.

    Não sou eu, ou algum dos caros advogados de Lula a inventar isso. A saída temporária em casos de morte de parentes próximos está lá, garantida pelo artigo 120 da Lei de Execução Penal.

    – É uma questão humanitária, não é? A gente perder um irmão sempre é uma coisa triste. Eu já perdi o meu e sei como é que é –disse ninguém menos que Hamilton Mourão, general que está no exercício da Presidência da República.

    Bem faz Lula em não sair de sua solitária em Curitiba e ir a São Bernardo do Campo, como se a autorização fosse um favor do Ministério Público Federal e do Judiciário. Não haveria nenhum privilégio na liberação para sua saída – ainda mais que não se trata de nenhum Fernandinho Beira-Mar, para o qual talvez fosse necessária uma megaoperação de segurança.

    Mais uma vez, ao arrepio da lei, mesmo que nos estertores do moralismo lava-jatista, se joga para a torcida, se desvia o foco de um governo que é um Brumadinho de 30 dias, e se alimenta a sanha de fanáticos, que talvez só sosseguem quando o pensamento divergente estiver marcado com a Estrela de Judeu, quem sabe substituindo pelo vermelho o fundo amarelo sobre o qual se aplica a estrela de seis pontas.

    Parênteses: alerto aos que são partidários do ‘Lula bom é Lula morto’, que muitas vezes são mais temíveis os legados e as denúncias de quem morre, e não pode ser morto mais uma vez, do que o definhar dos vivos.

    Para ilustrar o horror de nossos tempos, cada vez mais naturalizado por desinformados, informados do mal e, vá lá, espíritos machucados e ‘contra tudo isso que está aí’, vou contar uma história. Poucos conhecem, mas lance no Google e procure um site confiável, caso desconfie ser fake news.

    Era uma vez um metalúrgico chamado Luiz Inácio Lula da Silva, de primeira alcunha Taturana, e que depois ficou famoso como Lula, que passou 31 dias atrás das grades do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo, preso em abril de 1980 por liderar uma greve que, como hoje, polarizava opiniões no país. Sua mãe, Dona Lindu, faleceu vítima de um câncer. Os militares autorizaram o presidente a acompanhar o velório e o enterro.

    Os militares! Na ditadura!

    Quarenta anos depois, é a ditadura do Judiciário, cuja balança incontestavelmente tem pesado muito mais do meio para o lado esquerdo, que parece debochar dessa família de ex-retirantes nordestinos ao, como descrevi acima, autorizar o irmão morto a visitar o irmão vivo.

    Que se esgotados seus recursos, e condenado, Lula cumpra pena. Como um preso comum, que seja, mas não como um presidiário incomum, privado do acesso a garantias constitucionais elementares.

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