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    Cena da madrugada dos horrores no Senado brasileiro

    Congresso não é puteiro; puteiro tem regras

    por Rafael Martinelli | Publicada em 03/02/2019 às 00h23| Atualizada em 11/02/2019 às 12h04

    As instituições brasileiras estão brumadinhos. Vergonhosa eleição para Presidência do Senado, a casa que deveria zelar pelo equilíbrio e fiscalizar o cumprimento da Constituição, mas mudou o verbo para velar.

    Não só por comportamentos, sopapos ou discursos – já que talvez seja insuperável aquela pantomima de congressistas da pior espécie votando contra a corrupção, pela família e em nome de Deus, como registra nossa história recente.

    Muito menos pelo eleito ser Davi Alcolumbre (DEM-AP), um senador do baixo clero, como era Severino Cavalcantti ao presidir a Câmara Federal até renunciar, flagrado num ‘mensalinho’.

    A lama vem é da burla promovida no Legislativo a uma decisão do Supremo, para, ao que tudo indica, agradar ao Executivo.

    Goste-se ou não do candidato com nome de entidade de conto de H. P. Lovecraft, que para testar a 'nova política' você puxa ficha fácil no Google, ou odeie-se ou não os que representam a ‘velha política’ dos Renans, Collors & Cia, o voto é secreto, conforme o regimento da câmara alta. Nem deveria ser necessária uma manifestação do STF, como fez Dias Toffoli na madrugada de um país que distorce suas leis inclusive nos domingos, em meio a férias ou em telefonemas de código 00.

    Com ou sem continência, não é uma espécie de fraude mostrar a cédula?

    Aos defensores da transparência – mas tem que ser aquela de Coaf! – é preciso registrar que nenhum político estava proibido de ir ao microfone e anunciar em quem votou.

    E já que falamos em fraude, impossível não ter assustado aos defensores do voto em papel o fato de, em colégio eleitoral de 81 senadores, terem aparecido 82 cédulas!

    É como postou a jornalista Luciane Ferreira:

    – Nesta eleição do Senado só falta aparecer um cara rasgando os votos como no Carnaval de SP.

    Mesmo com tanta gente feliz, mais uma vez sinto a obrigação profissional de jornalista de atuar como um advocatus diaboli e não como um caça-cliques. É que esse esgarçamento de regimentos internos, do código penal, do código de processo civil, enfim, da Constituição, sob a justificativa de um bem maior, faz mal para a democracia.

    São palmas que, além de invariavelmente servirem aos donos da bola (joguem eles com a direita, canhota ou batam com as duas), seduzem e tranquilizam políticos e magistrados cada vez mais temerosos com metralhas disparadas por teclados no Grande Tribunal das Redes Sociais – aquele lugar onde todo brasileiro é impoluto e, se você encontrar um corrupto, pequeno ou grande, não pergunte em português, tente um “Who are you?”, já que o inglês é língua universal.

    Mesmo que muitos acreditem em Deus acima de todos, a medida do certo ou errado é feita pela régua dos homens, suas circunstâncias e interesses, na hora de escolher entre fumantes e não-fumantes.

    Errado estava Cazuza e seu “transformam o país inteiro num puteiro”. A canção precisaria de adaptação neste Brasil da posse de deputado com chapéu e uma jovem sentada no colo.

    Puteiro tem regras.

     

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