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GRAVATAÍ, 13/11/2019

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    Presidente Jair Bolsonaro, em Tóquio

    A facada que Bolsonaro pode dar em Gravataí

    por Rafael Martinelli | Publicada em 25/10/2019 às 13h57| Atualizada em 11/11/2019 às 14h19

    Como costumo dizer, não é torcida ou secação: são os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos. Inegável que ruim é para Gravataí as declarações do presidente Jair Bolsonaro em Tóquio dizendo que uma eventual vitória na Argentina da chapa de oposição formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner pode colocar o Mercosul em risco.

    – Digamos que a volta da turma do Foro de São Paulo e da Cristina Kirchner pode colocar em risco todo o Mercosul. Em se possivelmente colocando em risco todo o Mercosul, você tem que ter uma alternativa no bolso – disse, em mais um desastre diplomático tão ‘napoleão de hospício’ quanto a roupa que vestia.

    Antes de assumir, Paulo Guedes, ainda o ‘posto ipiranga’ da economia, já tinha dito que o Mercosul não é uma prioridade para o futuro governo. À época, no artigo Onde a Gravataí da GM encontra a mulher do Bolsonaro e a filha de Moro, publicado pelo Seguinte:, alertei que representaria outra facada em Gravataí – desta vez na GM, a grande paixão de Gravataí, responsável por quase metade da receita.

    Dias antes, em uma entrevista ao UOL, Carlos Zarlenga, presidente da GM Mercosul, mostrava otimismo com o crescimento da economia brasileira. Mas as entrelinhas das respostas do dono de Camaro e piloto de corridas escondiam um alerta.

    – Não precisamos de incentivos fiscais, mas de competitividade – disse, num momento em que o setor automobilístico ganhava do governo Michel Temer R$ 2 bilhões em isenções de impostos.

    O comandante da GM Gravataí projetava que Brasil e Argentina poderim produzir, fora da crise, 5 milhões de carros por ano. A prioridade? O mercado da América do Sul, onde a montadora, que não consegue exportar para o resto do mundo, pretende ficar, diferente do que ocorreu na Europa:

    – Lá a GM tinha um market share pequeno, número 6 ou 7 no mercado. E esse é um mercado no qual se você não é número 1, ou número 2, é difícil criar escala e ganhar. A América do Sul é uma área de absoluta importância, estratégica, quase fundamental para a GM.

    Vamos à ‘ideologia dos números’, porque para raciocinar melhor é preciso mais do que memes de WhatsApp: entre 2017 e 2020, o investimento da GM no Mercosul foi de R$ 4,5 bi, parte do ‘show do bilhão’ em Gravataí. Desde 2014, já são R$ 13 bi. Entre os planos da montadora está liderar no bloco econômico o mercado de carros elétricos, com o lançamento de 20 produtos nos próximos cinco anos.

    O Mercosul, criado em 1991 pelo Tratado de Assunção, é hoje o terceiro maior bloco do mundo, depois do Nafta (México e Estados Unidos) e da União Europeia. Seu PIB total é de US$ 2,8 trilhões (R$ 10,4 trilhões). O integram oficialmente Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A Venezuela foi suspensa em 2016. Se fosse um país, seria a quinta maior economia do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China, Japão e Alemanha.

    Explicando grosseiramente, é uma zona de livre comércio que, ao taxar e encarecer produtos de fora, incentiva que os países-membros comprem e vendam entre si. É o caso dos automóveis, principal item exportado pelo Brasil ao restante do Mercosul.

    Funciona assim: se a Argentina quiser comprar carros do Brasil, por exemplo, não precisa pagar nenhum imposto de importação (ou vice-versa). Mas se quiser comprar de fora do bloco, a alíquota será de 35%. No ano passado, os automóveis de passageiros responderam por 22% de tudo o que vendemos dentro do bloco – US$ 22,6 bilhões (R$ 84 bilhões).

    Como apontaram especialistas ouvidos pela BBC Brasil, “o resultado desse 'protecionismo' é óbvio: incapaz de fazer frente a outros países do mundo, a indústria nacional brasileira, menos competitiva, sai favorecida”.

    No ano passado, nove em cada dez produtos exportados pelo Brasil ao Mercosul foram manufaturados (89%). O bloco ainda é destino de 25% de todas as exportações brasileiras. Além disso, no mesmo período, exportamos para nossos vizinhos muito mais do que importamos deles.

    Conclusão: “nosso saldo foi de US$ 10,7 bilhões (R$ 39,7 bilhões) em 2017, o que contribuiu para fecharmos nossa balança comercial no azul”.

    O Mercosul é também o maior mercado para cerca de 7.000 micro, pequenas e médias empresas exportadoras brasileiras: 20% das exportações têm como destino países-membros do bloco.

    Lembram da canelada que Paulo Guedes deu, ainda antes da posse, ao responder a jornalista sobre a relação do futuro governo com o bloco econômico:

     – O Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar.

    Disse mais:

    – O Mercosul é muito restritivo, o Brasil ficou prisioneiro de alianças ideológicas e isso é ruim para a economia. O bloco só negociava com quem tinha inclinações bolivarianas.

    Certamente declarações como essa, e agora o amalucado discurso de Bolsonaro sobre um comunismo inexistente, se chegarem à prática, agradarão mais às montadoras chinesas, de olho no Mercosul, do que à GM da Gravataí onde sete em cada dez eleitores votaram no, à época, ‘mito’.

    Concluo da mesma forma que em 26 de dezembro: como ninguém sabe ainda o que é propaganda, ou realidade, resta esperança de que o pragmatismo da vida real de um governo que pensa o país se imponha à insensatez de nossa Grande Guerra Ideológica Nacional.

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