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GRAVATAÍ, 02/06/2020

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    opinião

    Prefeito recebeu representantes de carreata que pedia abertura imediata do comércio em Gravataí

    Parem Gravataí que eu quero descer!; declaro-me Inimigo do Povo, amigo da vida

    por Rafael Martinelli | Edição de imagens: Guilherme Klamt | Publicada em 27/03/2020 às 22h22| Atualizada em 16/04/2020 às 12h38

    "Um Inimigo do Povo" trata sobre as contradições humanas e a falência do indivíduo frente à unanimidade.

    Testemunhei a obra-prima de Henrik Ibsen acontecendo em Gravataí ao assistir, confinado pela pior pandemia dos últimos 100 anos, ao lamentável buzinaço e marcha da insensatez pela reabertura do comércio e indústria.

    A apoteose foi a inimaginável cena do prefeito cercado por quase 50 pessoas, em frente à Prefeitura, na tarde desta sexta-feira.

    O enredo do livro se passa numa pequena cidade balneário da Noruega. Um pacato médico denuncia a poluição das águas causada por um curtume. Ganha o apoio de todos. Após estudos técnicos, sugere o fechamento da empresa contaminadora, o que faliria a economia local. É assim que o Dr. Thomas Stockmann, passa de mocinho a vilão, ou seja, torna-se o inimigo do povo.

    Não sei se Marco Alba será o inimigo do povo. Teimoso o suficiente ele é, para seguir os protocolos sanitários que recomendam o isolamento social, e não embarcar, ao menos imediatamente, no populista e perigoso #VoltaBrasil.

    Fato é que aquilo que o prefeito já decidiu – e ainda vai decidir – sobre o futuro dos 281.519 habitantes de Gravataí carregará por toda a História (com agá maiúsculo) sua assinatura. É a mais alta responsabilidade que uma pessoa pode ter, reconheçamos, no balanço entre ‘cancelamentos’ de CPFs e CNPJs.

    Hoje, ao fim do cerco e do falatório que emularam saliva praça central afora, entre o clima de festa, e um e outro tapinha nas costas, e celulares bastante digitados no ícone da câmeras, Vilmar Mattos, empresário bolsonarista que apresentei em artigos como “Ajudar Bolsonaro é um chamado de Deus”, diz líder de atos em Gravataí, comemorou sua peripécia em live no Facebook:

    – O prefeito prometeu uma solução para segunda-feira!

    Novo normal: no Grande Tribunal das Redes Sociais, milícias digitais, desinformados e informados do mal já metralharam teclados anunciando que o comércio vai reabrir segunda.

    Liguei para Marco Alba. Estava em videoconferência com prefeitos da Granpal, a associação dos prefeitos da Grande Porto Alegre. Por WhatApp, disse que retornaria.

    Fico com a percepção da entrevista desta manhã para o Giro de Gravataí, na qual o prefeito pareceu vacinado ao comentar as pressões de rede social e observou que “há sete dias clamavam pelo fecha tudo e hoje abre tudo”.

    Novo prazo não deu para além dos decretos que paralisam comércio até dia 13 e aulas até dia 21 de abril.

    Ao contrário de tantos messias da aldeia, eu não queria ser Marco Alba neste momento. ‘Inimigo do povo’, serei, se esse for o preço de informar. É minha responsabilidade como jornalista, perdendo ou ganhando leitores; e quem me acompanha sabe que não sou ‘caça-cliques’.

    Começo pelo dia.

    Entendo que o prefeito errou ao receber Vilmar e manifestantes na praça, com vereadores & tudo. É um exemplo questionável para a comunidade ordeira que está em isolamento social. Vilmar age como ‘napoleão de hospício’. Se Bolsonaro disser para bater a cabeça na parede de sua Vip Veículos, baterá. Como o ‘mito’, ao tratar a covid-19 como ‘gripezinha ou resfriadinho’, lhe deu a saída para voltar a vender carros usados, uniu o útil ao agradável.

    A Prefeitura de Gravataí, quarta economia do Rio Grande do Sul, é maior que essa loucura; Marco Alba também.

    Justas manifestações, de quem não sabe como sobreviver ou manter negócios, poderiam ter sido feitas pelas redes sociais da Prefeitura ou do prefeito. Porém, respeitando a estratégia de isolamento social que deu certo no mundo, e parece dar certo na aldeia também, como um caso confirmado, 35 em análise (20 a mais em 24h), apesar da certeza da subnotificação, já que não são feitos exames para além de pacientes hospitalizados e em estado grave.

    Mas a pressão sobre Marco Alba não vem só do pelotão de verde amarelo que cruzou Gravataí quebrando a quarentena, e, observe nos vídeos que circulam por aí, quase todos pobres ou no máximo remediados.

    Nem Jipe Renegade vi.

    No Facebook, ululam postagens de gente ‘famosa’ de Gravataí, empresários locais, sócios de clínicas médicas inclusive. No WhatsApp, grupos foram criados, como o ‘Volta Gravataí’. No grupo do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Codes), alguns integrantes compartilham incessantemente mensagens minimizando a pandemia e colocando a questão econômica acima da sanitária – parte deles a ‘Política Acima de Tudo’.

    Por simbólico do apelo pela ‘retomada econômica’, cito José Rosa, presidente do Sindilojas, o sindicato dos lojistas cujas festas estão suspensas. É apenas um dos tantos a dar aval a vídeos pró-Bolsonaro (de gente da qualidade de um Bibo Nunes), ou à campanha institucional do governo apelando pela volta às atividades.

    Oportunistas ou ‘chico bentos’ da mídia aldeana, deixo os prints construírem seus legados.

    Prefiro seguir a ciência.

    – Nós estamos imaginando que nós vamos trabalhar com números ascendentes, espirais em abril, maio, junho. Nós vamos passar aí 60 a 90 dias de muito estresse para que quando chegarmos ao fim de junho, julho, a gente imagina que entra no platô. Agosto, setembro a gente deve estar voltando desde que a gente construa a chamada imunidade de mais de 50% das pessoas – alertou o médico Luiz Henrique Mandetta, dia 20, antes de, dias depois, se travestir no ex-deputado federal agarrado ao cargo de Ministro da Saúde e avalista do terraplanismo sanitário como seu chefe.

    Poucos lerão, mas insisto – não sem lembrar que a quarentena não é para sempre, e o mundo precisa girar, porém não no ápice do contágio! Arredondo, para melhor ilustrar, associando-me ao economista Eduardo Moreira, cujas lives diárias recomendo como fonte primária.

    Temos no mundo 500 mil casos e 20 mil mortes registradas. Angela Merkel, chanceler da Alemanha, país com a melhor estrutura para enfrentar o coronavírus, disse há dois dias que “estamos no início da pandemia”.

    Conforme a Science, ao lado da Nature uma das revistas acadêmicas mais prestigiadas do mundo, seis a cada 10 terráqueos podem ter contraído covid-19 ao fim da pandemia deste ano; 86% dos portadores não terão sintomas relevantes, mas serão responsáveis por 79% das transmissões; dos infectados, 15% poderão precisar de tratamento e 5% de internação em uma unidade de tratamento intensivo.

    São dois bilhões de pessoas confinadas, um a cada 3 terráqueos. Com 10% de letalidade, a Itália ainda não atingiu o pico, e hoje, após ‘pequena’ queda de ‘100 mortes’ por dia, registrou 900 em 24 horas. São quase 10 mil mortos. Soldados também estão morrendo nessa guerra: 30 médicos só na Itália. Já são 4.824 profissionais de saúde contaminados.

    Num cálculo comparando as populações italianas e brasileira é como se tivéssemos 320 mil mortes no Brasil. Para efeitos de comparação, restamos chocados com 50 mil mortos por homicídio a cada ano.

    Os Estados Unidos registram 200 mortes por dia e uma curva exponencial. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), já é novo epicentro da infecção por covid-19, com 60 mil casos. Preocupante é que somos um país parecido com os EUA, em hábitos, desigualdades e fake news governamentais.

    Relatório da Abin, a agência de inteligência do governo brasileiro, alertou dia 23 que, em um cenário catastrófico, com índices de Itália, poderemos chegar a 5.571 mortes ao fim de abril. Em estimativa mais otimista, com percentuais franceses, 2.062. Com mais de 200 mil casos.

    Conforme o documento, em duas semanas o Brasil não terá mais leitos de UTI disponíveis. Em Gravataí, antes da crise do coronavírus, só escapávamos do 100% de ocupação por 0,3%. Mais: a UTI do Dom João Becker sempre esteve lotada nos últimos 10 anos!

    Conforme a Abin, em abril 10.385 leitos – ou 17,4% dos quase 60 mil disponíveis no país – poderão estar ocupados por doentes com casos graves de covid-19.

    A análise, diz a agência, é imprecisa, porque “o Ministério da Saúde divulga os dados dos casos confirmados e dos óbitos por covid-19, o que não permite fazer projeções mais precisas sobre o crescimento dos casos no país”.

    Registre-se que o anúncio dos 10 milhões de testes comprados pelo governo federal ainda não saiu do Twitter para a entrega palpável nos estados e, consequentemente, municípios. Gravataí não recebeu nenhum teste novo. A ideia é comprar por meio de doações ao Comitê de Solidariedade ao Enfrentamento do Coronavírus, instalado segunda.

    Se dois a cada 10 leitos precisariam ser ocupados por paciente da covid-19 na média do Brasil continental, em Santa Catarina, onde aconteceram ontem e hoje as mais fervorosas manifestações pelo #VoltaBrasil, o índice chegaria a 40%. Como lá a ocupação dos leitos de UTI é de 95%, o colapso no sistema é questão de dias, horas.

    Acredito que o relatório da Abin tenha embasado os apelos de empresários, como o ‘novo rico’ do Madero, o Véio da Havan, ou o playboy tardio Roberto Justus, a calcular ‘só’ 5 mil mortes.

    Grito eu: mas, e as mortes ‘rotineiras’?!?

    Sim, porque com UTIs ocupadas, para onde vai o bebê com asma, a criança atropelada, o adolescente baleado, a mãe com câncer, o pai infartado ou os avós com insuficiência respiratória?

    É a Escolha de Sofia dos médicos da Itália: quem respira, quem não; quem vive ou quem morre. O meme provoca: quem da sua família pode morrer para salvar a economia?

    Chorei ao assistir reportagem de TV italiana em que médicos transmitem por lives no Facebook as últimas palavras de moribundos para seus entes queridos, que não podem chegar perto, somente das cinzas após a cremação. Crianças numa ‘bolha’ de UTI, com as mães ao longe, incomunicáveis.

    Não vou me repetir pela enésima vez, acesse o Seguinte: clicando aqui e leia nossa cobertura monotemática sobre a crise do coronavírus, em artigos como Quarentena em Gravataí e Cachoeirinha; o que abre ou fecha, Médico de Gravataí com leucemia faz apelo sobre crise do coronavírus; entre a vida e a morteSão urgentes decretos ’fecha tudo’ em Gravataí e Cachoeirinha; sem ’quarentena’, pior cenário precisaria 8 mil leitos de UTI, Hospital suspende cirurgias e Prefeitura tele e especialidades; estamos em guerra em Gravataí e Cachoeirinha e Gravataí prepara ’estratégia de guerra’ contra coronavírus; crise não é um meme.

    Não importa se a cloroquina ajudou no tratamento do Nelson Sirotsky, o problema é não poder tratar todos os doentes ao mesmo tempo. Pobres principalmente, mas também os ricos: 80% é a taxa de ocupação das UTIs privadas.

    No pior cenário, se a doença seguisse uma lógica linear, no pico daqui a três meses teríamos 553 casos confirmados entre Gravataí e Cachoeirinha, com uma necessidade de 28 leitos em UTIs, quando entre os hospitais Dom João Becker e Padre Jeremias há 233 leitos públicos e particulares e apenas 12 em UTI, todos em Gravataí.

    Respiradores? 26, como tratei em Gravataí tem só 25 respiradores e 12 leitos de UTI; o serial killer de velhos pobres e Glorinha cede respirador para Gravataí; agora é 1 para cada 11 mil pessoas.

    Detalhe: em Gravataí apenas se estabiliza o paciente, ou, para leigos, a pessoa infectada é mantida respirando, até encaminhá-la aos hospitais referenciados pelo Ministério da Saúde para tratar covid-19, que são o Clínicas e a Santa Casa, em Porto Alegre, e o Nossa Senhora das Graças, em Canoas.

    O Rio Grande do Sul dispõe de 12,8 mil leitos clínicos públicos e privados. Em UTIs são 1,6 mil e outros 200 foram abertos após a crise do coronavírus.

    No pior cenário possível, no auge da infecção no país, até 40% da população pode ser contagiada pelo coronavírus, destes oito a cada 10 sem sintomas, ou com leves sinais. Em uma projeção da população local, seriam 112,6 mil pessoas em Gravataí e outras 52,1 mil em Cachoeirinha.

    O problema é que a média mundial demonstra que, se as práticas mais rigorosas de controle do contágio não forem tomadas, 15% dos infectados precisarão de internação. Significaria uma demanda impossível de cobrir pela rede hospitalar local ou de qualquer país, com 16,8 mil pacientes em Gravataí e 7,8 mil em Cachoeirinha.

    Seria uma catástrofe italiana, nas duas cidades onde quase duas a cada 10 pessoas são idosos e grupo de risco, já que em até 5% dos infectados, as complicações respiratórias determinam internação em unidades de tratamento intensivo, com respiradores. Aí, o quadro piora. Seriam inimagináveis 8,2 mil leitos.

    Preste atenção.

    97% dos leitos do SUS já estavam ocupados antes da covid-19. Dos privados, dos planos de saúde mais caros, 8 em cada 10.

    A Nova Zelândia, que não registra mortes, foi o país mais rápido impor quarentena severa. Será o primeiro a sair da crise. Na Itália, que liberou geral há um mês, com campanha como a nossa #VoltaBrasil, hoje condena a cinco anos de prisão que for pego na rua e testar positivo.

    Enquanto o governo chamava turistas, a Itália registrava 17 mortes por coronavírus. Desde então, o país mudou drasticamente a política para endurecer o isolamento e tentar estancar milhares de mortes que colapsam o sistema de saúde.

    Nesta terça o Brasil registrava 59 mortes quando Bolsonaro apareceu em TV e rádio para todo país demonstrando pensar mais em 2022 do que nos enterros sem velório destes dias, ao debochar da “gripezinha ou resfriadinho” e culpar prefeitos e governadores pelo ‘contágio econômico’ da crise do coronavírus.

    A taxa de transmissão de uma gripe comum é de 21%, enquanto a taxa de transmissão do coronavírus é de 80%. Coronavírus não é Influenza, Covid-19 não é H1N1.

    São os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos e teorias conspiratórias.

    “Erramos”, admitiu ontem o prefeito Giuseppe Sala, um mês após a campanha #MilãoNãoPara. QUATRO MIL E QUATROCENTAS MORTES estão na conta dele, como gestor.

    Como se jogasse num caça-níqueis, Bolsonaro dobra a aposta com vidas. “Morramos juntos”, parece dizer o Jim Jones brazuca. Em Gravataí, que deu 7 a cada 10 votos para o ‘mito’, o relinche parece ter sido ouvido. A pressão sobre o prefeito pela reabertura do comércio e da indústria é tão virulenta quanto a ciência mostra ser o covid-19. Em Cachoeirinha, Miki Breier sofre o mesmo.

    Ao fim, este é o único texto que consegui escrever nesta sexta, de casa, porque estudei bastante, e por sintomático da praga moderna: dores de cabeça e no corpo, um vai e vem de 37 graus, suadores repentinos de escorrer pelas costas, garganta queimando, tosse. Se nem as luvinhas e os assessores para abrir tramela de porta livraram o Príncipe Charles da contaminação, no Reino Unido, por que seria diferente comigo, ou com moradores da Paragem, paradas ou Breno Garcia?

    Ainda não sinto falta de ar, mas se acontecer, vou para o raio-x da Santa Casa e, se com indícios de pneumonia detectada, jogarei a loteria dos leitos. Se você chegar depois, em isolamento social ou não, aguarde na fila do respirador.

    Esse herói, Bolsonaro, que espertamente capitalizou o sentimento de quem precisa trabalhar para pagar as contas e/ou os funcionários, é de quem devemos cobrar pela inação de duas semanas.

    Enquanto o mundo (os EUA, o Trump também!) coloca raidamente dinheiro nas mãos das pessoas para girar a economia, o ‘mito’ anuncia alta burrocracia para liberar 600 reais para os pobres, enquanto garante aos bancos lucros futuros nunca antes alcançados. Só para ficar em um exemplo: a redução do cheque especial para 2% ao mês, cujo cálculo é de juro sobre juro a cada 30 dias, nos fará a República Federativa do Brasil Endividado.

    Torço para que aqueles que contestam fatos e argumentos que trago estejam certos. Jamais torceria por cenários catastróficos ou mortes, que definissem meus algozes como cúmplices de homicídio. Se rezar fosse uma rotina minha, o faria para ser tomado logo ali pelo ‘Louco da Aldeia’.

     Infelizmente, acho que os loucos são vocês.

     

    O Seguinte: fez vídeo com com imagens do WhatsApp 'Volta Gravataí'

     

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