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GRAVATAÍ, 02/06/2020

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    crise do coronavírus

    Conselheira tutelar Cristiane Moreira com o neto Matias | Foto ARQUIVO PESSOAL

    Gravataiense ainda luta contra COVID 19; ’é uma doença de solidão’

    por Rafael Martinelli | Publicada em 18/05/2020 às 20h46| Atualizada em 31/05/2020 às 18h30

    Cristiane Moreira é conselheira tutelar de Gravataí. Ela foi um dos primeiros casos confirmados da COVID-19 no Rio Grande do Sul. No 30 de março em que a comunicação oficial foi feita, o Brasil tinha 4.661 casos e 165 mortes, hoje tem mais de 240 mil casos e 16.118 óbitos. Gravataí, que registrava o segundo caso, hoje tem 36 infectados e uma morte. Com apenas 44 anos, a mãe de três filhos e avó de um neto, sem comorbidades e, como a descrevem, ‘ligada no 220’, já precisou nova hospitalização e ainda luta contra as sequelas do vírus.

    – Não é nenhuma gripezinha, não. As dores são terríveis. E é uma doença de solidão. Em dois meses de isolamento, só vi meu netinho uma vez. Eu tossia de trás da janela e, do outro lado do muro, ele me imitava.

    Na tarde desta segunda, após uma consulta médica, ainda com episódios de tosse, Cristiane atendeu ao Seguinte: por telefone.

    Siga trechos.

     

    Seguinte:  Como você está, recuperada?

    Cristiane – Vivendo um dia após o outro. Ansiosa para retornar ao trabalho, mas ainda não sei quando será possível. Ainda tenho sintomas, uma tosse que vai e volta. Há dias em que estou bem, outros não. Não tenho nenhuma comorbidade, como hipertensão, problemas respiratórios. Mas mesmo assim ainda me sinto cansada. Sou 220, mas estou 110. Se fazia de tudo em 12 horas, hoje não tenho pique para 6h. Não está sendo fácil.

     

    Seguinte: Quais foram os primeiros sintomas?

    Cristiane – Tosse seca e dores no corpo. Achei que era gripe, mas chegou um momento em que a dor era tamanha que, se passava o dedo na pele, parecia que estava com queimaduras, que ia rasgar.

     

    Seguinte: Como foi detectado a COVID-19?

    Cristiane – Sexta 20 de março, fui ao posto de saúde (Granville, parada 93) com tosse e dores no corpo, mas sem febre ou falta de ar. Fui medicada para gripe. Passei a semana tossindo e, sábado para domingo, sem apetite e com dores horríveis, principalmente nas articulações, procurei a UPA. Fizeram o teste PCR e raio-x, mas não foi detectado coronavírus e o pulmão estava limpo. Segui com a medicação para gripe. Com medo, naquela semana fiquei em casa, só atendendo casos pelo telefone, e as colegas faziam os atendimentos para mim. Sábado, dia 28, já não parava de tossir um segundo sequer, e por isso não conseguia dormir ou comer. Fui tomar um banho e faltou ar. Liguei para médico amigo, Samir Habibe, e ele disse para ir o mais rápido possível para o hospital Dom João Becker. Ele estava de plantão e o resultado da tomografia o apavorou. “Propício de corona”, dizia a mensagem que recebi quando aguardava, já isolada e no oxigênio. O pulmão estava horrível, como um vidro fosco, quebrado. Precisei ser transferida para o Conceição, que era o hospital de referência. Lá fiquei na chamada ‘ala vermelha’, de isolamento, onde estavam 12 pacientes com suspeita da COVID-19. Eu já tinha a confirmação, e logo fui transferida para outro quarto, sempre no oxigênio.

     

    Seguinte: Precisaste usar respirador mecânico?

    Cristiane – Suportei com o oxigênio, mesmo às vezes parecendo não sentir o ar. Tinha muito medo de precisar ser intubada, já que deixa sequelas (reduz em média 30% a capacidade dos pulmões para o resto da vida).

     

    Seguinte: Foi necessário quanto tempo de internação?

    Cristiane – Fiquei até 2 de abril no Conceição, completamente isolada, longe da família e dos amigos. O problema é que não melhorei 100%. Já em casa, comecei a sentir sintomas novamente, como tosse, dores de cabeça, perdi o olfato e o paladar. Fui para o Becker e novamente me internaram. A tomografia mostrou o pulmão ainda bastante debilitado, além de alterações nos rins e fígado. O coronavírus ataca múltiplos órgãos, não só o sistema respiratório. Em meu caso, afetou até o sistema neurológico. Estou fazendo uma série de exames porque tenho sofrido com perda de memória. Esqueço coisas simples, deixei a chave dentro do carro, a carteira em casa, saio para fazer algo e não lembro o que é... Só em medicação estou gastando mais de mil reais.

     

    Seguinte: Foste tratada com cloroquina?

    Cristiane – Não me medicaram com cloroquina. Agora faço tratamento nos serviços de saúde de Gravataí com o médico infectologista Eduardo Lutz.

     

    Seguinte: Você foi um dos primeiros casos confirmados no Brasil de uma doença nova até para especialistas em infectologia e epidemiologia. Como foi receber o diagnóstico positivo?

    Cristiane – Um choque. Eu estava desconfiada, sabia que havia algo errado comigo, mas a gente não quer acreditar. A única viagem que eu tinha feito tinha sido em carro particular para Arroio do Silva, onde fiquei apenas entre familiares, e nenhum com sintomas até hoje. Minha contaminação com certeza é o primeiro caso comunitário de Gravataí.

     

    Seguinte: Como acreditas que aconteceu o contágio?

    Cristiane – No Conselho Tutelar. O vírus já estava aí desde o Carnaval, período em que eu estava de plantão. Nossa rotina é atender muita gente que vem de outros estados, que está chegando a Gravataí, ainda mais no início do ano, procurando escola para os filhos. São 20, 30 pessoas por dia. Colegas tiveram sintomas, foram para casa, mas ninguém foi testado. Poderiam até estar infectados, mas assintomáticos. Outra paciente com COVID, de 28 anos, foi internada no mesmo dia que eu no Conceição e ficou intubada três dias na UTI. Tivemos contato no Conselho. Peguei dela, ela pegou de mim, pegamos juntas, outros pegaram? Não sei.

     

    Seguinte: Quando vês alguém sem máscara, desrespeitando o distanciamento interpessoal, ou se referindo à COVID-19 como “uma gripezinha, um resfriadinho”, como reages?

    Cristiane – Fico indignada, principalmente quando acontece com pessoas com acesso à informação. Infelizmente, é a realidade do mundo, precisamos nos acostumar com o coronavírus. Entendo que pareça distante para muitos ao ver na TV, mas quando acontece contigo, você cai na real. Hoje testemunhei uma guria descer de um bom carro, num posto de gasolina do Parque dos Anjos, e entrar sem máscara na loja de conveniência. Eu estava sem celular, ou denunciaria. Vejo pessoas com a máscara errada, como se fosse somente um acessório de moda, ou uma coisa desnecessária. É preciso empatia, um cuidar do outro. Uns dizem: “todo mundo vai pegar”. Sim, mas se todos são contaminados juntos, não há leitos hospitalares. Vi reportagem em a pessoa era vendada e precisava escolher, entre três outras, quem seria internada no único leito disponível. Após a escolha, a venda era tirada e lá estavam pai, mãe e filho de quem tomou a decisão. Trágico, né? Mas porque quando acontece com o outro pode? São mais de 16 mil mortes no Brasil. Se essa pandemia não nos mudar, nada muda.

     

    Seguinte: Governos tem agido bem na crise?

    Cristiane – A situação econômica, a desigualdade social, faz com que os brasileiros, principalmente os mais vulneráveis, tenham que voltar às atividades quase que normalmente, o que pode causar uma tragédia ainda maior. Acredito que, se lá no início, em fevereiro, os governantes tivessem sido mais rígidos, desde o uso de máscaras, menos gente teria morrido e talvez agora estivéssemos saindo da crise. Enfim, demoramos todos a entender a gravidade da pandemia.

     

    Seguinte: No Conselho Tutelar trabalhas com os mais pobres. Temes que a chegada do vírus nas periferias ganhe contornos de catástrofe, já que, além da desinformação, mais pessoas moram em menos metros quadrados, e, para garantir o sustento, precisam sair às ruas, usar transporte coletivo e etc?

    Cristiane – Muitos veem o Conselho Tutelar como um bicho papão, mas estamos ali como um órgão de proteção, para auxiliar quando tudo deu errado, quando a sociedade falhou. Tirar um filho de uma mãe é uma última instância. Assim, somos um termômetro dessas comunidades. Não tenho dúvida em dizer que se o vírus chegar com força aos lugares mais pobres será uma catástrofe. Há muita falta de informação sim, mas, bem ou mal, todo mundo vê TV. O que falta mesmo são coisas básicas. Como falar em álcool gel para quem muitas vezes não tem sabão e falta água em casa? Como cobrar máscara de quem não tem 2 reais para o leite? O mais triste é ver aqueles que tem tudo, e que poderiam ficar em casa, andando por aí e apostando: “comigo não acontece”. Mas, e com os outros?

     

    Seguinte: Lutar contra o coronavírus é uma experiência que mudou tua vida?

    Cristiane – Mudou bastante. Projetava muita coisa para 2020, queria fazer tudo ao mesmo tempo, no Conselho Tutelar, em meu grupo voluntário ‘Criança Feliz, Amigas do Bem’, mas agora curto mais o dia, as coisas simples da vida. Sempre fui, mas estou ainda mais próxima da família. Todos sofrem na doença, mesmo que apenas eu tenha desenvolvido sintomas da COVID-19. Há coisas que marcam a gente. Minha irmã, Luciana, me ligando chorando porque não poderia me ver depois do resultado positivo do teste; meu filho Jonatan, de 27, tentando me ver de longe no hospital; minha filha Gabriela, 17, cuidando de tudo em casa e ainda lidando com mentiras em redes sociais, quando postaram foto antiga dizendo que eu, em plena pandemia estava na frente de uma igreja; meu filho, Eduardo, de 11, cuidando meu sono, para ver seu estava respirando bem, quando pudemos conviver novamente... Mas talvez um episódio ilustre bem a solidão dessa doença: tenho um neto de apenas 11 meses, o Matias, que em 60 dias vi apenas um, de longe, pela janela. Eu tossia em casa e ele imitava, na rua.

     

    Seguinte: Deixe um recado para a comunidade.

    Cristiane – Faço um apelo para que todos ajam como família, uns cuidando dos outros. Ou dias, e talvez pandemias piores virão.

     

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