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GRAVATAÍ, 16/04/2021

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    crise do coronavírus

    Rio Grande do Sul recepcionou 14 homens e três mulheres, com idades entre 33 e 70 anos, vindos de Manaus | Foto ITAMAR AGUIAR | Palácio Piratini

    Pandemia piorou em janeiro em Gravataí; O tsunami chegando

    por Rafael Martinelli | Publicada em 02/02/2021 às 13h36| Atualizada em 17/02/2021 às 13h17

    Às vésperas da volta às aulas na próxima segunda-feira os indicadores da pandemia do novo coronavírus em Gravataí mostram um platô de estabilidade da altura do Morro Itacolomi. Janeiro foi pior que dezembro, apesar do modelo de cogestão rebaixar por decreto as regras da bandeira vermelha para laranja, no Distanciamento Controlado. E, além de hoje ser 64 de dezembro de 2020, um tsunami pode estar chegando.

    Dezembro fechou com média de 1 infectado identificado a cada 3 horas e uma vida perdida a cada dois dias (0.75). Janeiro fechou com um caso a cada duas horas e meia e mais de uma morte por dia (1.3).

    Em 31 dias os indicadores passaram de 10.022 infectados e 235 óbitos para 12.102 casos e 276 mortes. Foram 2.080 infectados e 41 vidas perdidas em janeiro.

    No geral da Região 10, que no mapa definitivo da 39ª rodada do Distanciamento Controlado segue com a bandeira vermelha, e, como referi acima, laranja por decreto na cogestão, os índices melhoraram: a taxa de ocupação de UTIs era de 83.8 no primeiro dia de janeiro e hoje está em 76.3.

    A ocupação de leitos em unidades de tratamento intensivo no Hospital de Campanha e no Dom João Becker segue alta em Gravataí – próximo a 90%. Em 1º de janeiro e no dia 31 o número de UTIs ocupadas é de 17 em 19; 17 de 25 respiradores eram ocupados e hoje são 16.

    A boa notícia é que o mês acaba com 2 leitos disponíveis na UTI não covid do HDJB/Santa Casa. No início do mês, o que é uma rotina desde antes da pandemia, as 10 unidades estavam lotadas.

    Nos leitos de emergência, piorou. Em 1º de janeiro havia 14 pacientes para 40 leitos; o mês terminou com 51 pacientes para 14 leitos, o que significa pessoas aguardando em macas, cadeiras de rodas, sentados no chão ou escorados na parede.

    Ao fim, é o cenário, ainda trágico e consequência óbvia das festas de Natal, Ano Novo e da casa na praia. Ao menos uma família perde alguém todos os dias para o coronavírus em Gravataí. E, com uma projeção de 19 meses para vacinar a todos, o que alertei em Sem doses, Gravataí e Cachoeirinha vão demorar mais de um ano para vacinar; Hoje é 56 de dezembro de 2020, vai ficar pior.

    Não é ser Cassandra, ou urubu da aldeia.

    Siga o que escreveu dia 30, em O Estado de S.Paulo, no artigo O Tsunami se aproxima, o biólogo, PHd em biologia celular e molecular pela Cornell University e autor de “A chegada do novo coronavírus no Brasil”.

     

    “...

    Tudo indica que um tsunami vai atingir o Brasil. A Europa e Manaus já estão sofrendo com novas cepas do SarsCoV-2 que se espalham rapidamente. Elas são difíceis de controlar, aumentam o número de mortes por 100 mil habitantes, e conseguem ludibriar parcialmente o sistema imune dos já infectados e vacinados. A solução na Europa tem sido trancar a população em casa e vacinar em questão de semanas todo o grupo de risco com as vacinas da Pfizer e Moderna. E na falta destas, com a vacina da AstraZeneca. A questão não é se esse tsunami vai se espalhar pelo Brasil, é quando isso vai acontecer, qual a intensidade, e se vamos estar preparados.

    Para sentir o perigo basta entender um dos trabalhos publicados esta semana sobre as novas cepas. Escolhi o estudo feito pelo grupo de David Ho. Ele é um cientista que você pode descrever em uma frase: Ho transformou a AIDS de uma sentença de morte em uma doença crônica controlável por um coquetel de antirretrovirais. Foi dele a ideia de evitar o aparecimento de novas cepas de HIV usando combinações de drogas. São os coquetéis que usamos até hoje.  O trabalho possui uma quantidade enorme da dados coletados usando uma versão da metodologia que descrevi semana passada. Utilizando técnicas de engenharia genética o grupo de Ho é capaz de construir e testar as propriedades das mais diferentes cepas do SARS-CoV-2. Cada cepa contém uma ou mais das mutações da Inglaterra (B.1.1.7) e da África do Sul (B.1.351). Para a cepa inglesa, além da original que já circula, os cientistas construíram cepas contendo cada uma das 8 mutações mais importantes. Para a cepa da África do Sul, além da própria, foram construídas cepas com cada uma das 9 mutações. De posse dessa coleção, os cientistas mediram sua capacidade de invadir células humanas. Essa medida foi feita na presença e na ausência de anticorpos gerados contra o SARS-CoV-2 original. Esse experimento permite determinar a capacidade de cada anticorpo de bloquear a entrada de cada cepa em células humanas. Anticorpos que evitam a entrada (chamados de neutralizantes) devem proteger a pessoa. Os que não evitam a entrada não devem proteger. Num primeiro estudo foi averiguada a capacidade de 18 anticorpos monoclonais (como os utilizados para tratar Donald Trump) de neutralizar cada uma das cepas. São 324 experimentos distintos. Em seguida os cientistas repetiram o experimento usando os anticorpos presentes no soro de 20 pacientes que se recuperaram de casos graves e leves de covid-19 causado pelo SARS-CoV-2 original. Isso gerou outra tabela com 360 resultados. Finalmente repetiram os experimentos usando os anticorpos presentes no soro de 22 pessoas que haviam sido cepas conseguiam escapar dos anticorpos gerados por essas duas vacinas. São mais 396 resultados. Os cientistas conseguiram determinar quais anticorpos neutralizam qual cepa. A primeira conclusão é que a inglesa, B.1.1.7, não é neutralizada por nenhum dos anticorpos dirigidos para a região N-terminal da proteína Spike do SARS-CoV-2 original. Entretanto ela é parcialmente bloqueada pelos anticorpos que se ligam na região que o vírus usa para entrar na célula. Mais importante, a cepa B.1.1.7 é três vezes mais resistente aos anticorpos presentes nas pessoas que tiveram covid-19 causada pelo SARS-CoV-2 original e duas vezes mais resistente aos anticorpos presentes nas pessoas vacinadas. Ou seja, não somente ela se espalha rapidamente, mas parece possuir características que a ajudam a despistar a resposta do sistema imune.

    Já a cepa da África do Sul, B.1.351, é muito mais preocupante. Ela não é bloqueada pelos anticorpos monoclonais, é de 11 a 33 vezes mais resistente aos anticorpos presentes no soro de pessoas previamente infectadas e de 6,5 a 8,6 vezes mais resistente que o vírus original aos anticorpos gerados pelas vacinas da Pfizer e Moderna. A conclusão é de que essas duas cepas, que estão se espalhando pelo mundo, podem tornar inúteis os anticorpos monoclonais que estão sendo desenvolvidos como tratamento e devem ameaçar de forma significativa a eficácia das vacinas. É por esse motivo que a Pfizer e a Moderna já anunciaram que estão desenvolvendo novas versões de suas vacinas. Esse estudo não analisou a nova cepa de Manaus (semelhante à cepa sul-africana), e não analisou a capacidade das três cepas (Inglaterra, África do Sul e Manaus) de burlar as defesas criadas pelas vacinas Cononavac e AstraZeneca. Ou seja, não sabemos ainda as propriedades da cepa de Manaus nem como as vacinas que dispomos vão se comportar diante dessas novas cepas.  É uma questão de tempo a disseminação dessas cepas pelo Brasil, mas muito provavelmente elas vão chegar antes de vacinarmos uma fração significativa da população. Nos EUA se acredita que elas serão dominantes nas próximas semanas. Desculpem o pessimismo, mas é melhor apertar os cintos e nos prepararmos para o pior. E lembrem: no início de 2020, quando o coronavírus demorou um pouco mais para chegar ao Brasil, muitos acreditavam que ele não chegaria por aqui.

    ...”

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