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    no mundo do trabalho...

    Como te chama?

    por Leandro Melo | Publicada em 26/06/2017 às 13h07

    – Fala Branca de Neve!

    Gritou o colega sentado na quarta-fileira da direita, no banco da janela, conseguindo uma gargalhada dos outros 28 colegas. Enquanto isso, o Armando subia no ônibus, que levava todos para a fábrica, meio desconsertado e ainda vestindo o jaleco.

    E não deixou de retrucar:

    – Fica na tua Berinjela! Conheço o teu passado!

    E com essa até o motorista, novo na linha fretada, deu um sorriso que ficou marcado no retrovisor.

    Aquela viagem que iniciava diariamente às 5h30 com a primeira parada, terminava cerca de 68 minutos depois com o desembarque do último passageiro. Mais tarde, na volta pra casa, o mesmo trajeto ganhava mais uma porção de minutos com o engarrafamento do horário.

    E era nesse tempo que se trocava experiências, histórias de vida, lamúrias do dia anterior, reclamações do chefe e muitas, mas muitas piadas. E com todo esse repertório armazenado, naturalmente ocorria um “batismo”, com apelidos que surgiam, às vezes, no meio de uma conversa.

    – Sabe o dia que tu tava dormindo no banheiro? Bem na hora chegou o encarregado novo procurando por ti.

    – Quem? O Alemão baixinho?

    – Não! Aquele bem magrinho, com cabelo compridinho. Vassorito! Ahahaha!

    Era assim. A brincadeira de renomear as pessoas dava uma nova vida para cada um e até poderes especiais. Era como uma identidade especial, que só pertencia ao Mundo do Trabalho e sob a qual se escondia toda a rebeldia, mas também as virtudes profissionais.

    E meio assim surgiram o Zoreia, o Faiado, o Ralado, o Alça de Bica (!), o Priscila, o Mastiga, o Garrafa, o Pai de Dois e o Branca de Neve. Aliás, ninguém conhecia o Seu Armando pelo nome. E até ele mesmo sequer atendia quando o chamavam assim. Até por Branca ele respondia em meio ao barulho das máquinas da linha de produção. A origem do apelido nem ele sabia. Se perguntassem diriam que a inspiração viera do cabelo branco como a neve, mas pouco importava. Até porque, uma semana depois veio a última viagem, pois a aposentadoria saiu.

    E naqueles minutos finais dentro da carroceria Marcopolo, não faltou um parabéns de despedida e uma sobremesa roubada do refeitório pra comemorar a saída do Seu Armando. Teve discurso, abraços calorosos e lágrimas nos olhos. Foi daí em diante que o Daniel ficou conhecido como o Chorão!

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