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    o giz e o face

    A antítese moderna

    por Teresa Azambuya | Publicada em 20/07/2017 às 14h08| Atualizada em 20/07/2017 às 16h04

    O menino adicionou a professora no Facebook. Faltavam cinco minutos para começar a aula de Língua Portuguesa. Ele mandou a solicitação de amizade e pôs o celular no bolso do uniforme gratuito distribuído pela escola pública que frequentava. Ficou surpreso quando, logo em seguida, o celular vibrou, anunciando que o pedido de add fora aceito.

    A professora entrou sorridente na sala, cumprimentou a todos e sentou-se. Realizou a chamada. Quando disse o nome do menino, sorriu-lhe. Ele, encabulado, escorregou um pouco mais na cadeira.

    Depois do pedido de silêncio, a professora pegou o giz e começou a passar o texto no quadro. Tinha uma grafia linda, como não se via mais na Era digital. Dividiu a lousa em duas, escreveu de um lado, escreveu do outro, perguntou se todos haviam copiado, apagou um lado, escreveu novamente.  Esticou um pouco os dedos, estava com o braço doído. O aluno sentado ao fundo perguntou se podia ouvir música com o fone de ouvido, enquanto copiava. Ela deixou. Tinha lido sobre aprendizagem cinestésica e sabia que ele era produtivo dessa forma.

    Depois das explicações, das atividades e das correções caderno a caderno, o sino tocou, anunciando a troca de período. A professora ia para outra turma. Não sem antes ser parada por uma aluna:

    - Posso fazer uma selfie com a senhora?

    Escolheram o melhor ângulo, tiraram a foto. A professora saiu. Tinha de mandar um e-mail para a Secretaria de Educação, mas a escola não tinha Internet. Mandou de seu próprio celular.

    Na outra turma, mais celulares, mais redes sociais, mais acesso à tecnologia no bolso puído do casaco dos alunos. Na sala, outro quadro, outras peças de giz. E, mais uma vez, a professora começava a passar o texto todo para o quadro, porque já havia utilizado toda sua cota de xerox em outro projeto de literatura com os alunos.

    A sala de aula das escolas públicas é uma grande antítese moderna.

    Toda a tecnologia a que qualquer aluno, de qualquer classe, tem acesso, não chega às escolas, minimamente. Professores ainda tentam ser atrativos com os poucos recursos que têm. Mas como, como manter alunos conectados a estruturas tão precárias, à tanta falta de recursos?

    Há os bravos profissionais, que procuram inventar recursos para suprir as carências diárias da escola.

    Há os que repetem o ensino do tempo da minha avó.

    Há pessoas que dizem que a educação é fundamental e que postam no Facebook a célebre máxima: “quanto mais salas de aula, menos presídios”.

    Há os governantes que também creem nisso, mas, na prática, não aumentam os recursos do orçamento para a educação.

    E, enquanto a professora passa o texto no quadro e o aluno a adiciona no Facebook, lá fora um adolescente é assassinado pelo traficante, a evasão escolar e os índices de violência crescem em proporções geométricas.

    Não que a tecnologia seja a salvação. Mas a desconexão entre a escola e a realidade deve acionar um alarme, deve ser uma situação notada pelos que têm o poder de decisão. O esforço dos que estão diariamente lá, em sala de aula, tentando mudar essa cruel situação, também deve ser notado.

    Muito antes das redes sociais, a escola sempre foi o lugar de compartilhar. Que também possa ser um lugar para o aluno curtir.

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