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    missão urgente!

    No mundo do trabalho, Araponga saiu da casca

    por Leandro Melo | Publicada em 25/09/2017 às 11h59| Atualizada em 25/09/2017 às 12h

    Já fazia um tempo que o Mateus não encontrava trabalho. Nem um bico, um freela, quanto mais um emprego. Beirando os quarenta, um pouco grisalho, o ar confiável que aparentava transmutava um rosto cansado, amassado de vida.

    Numa tarde de sexta-feira ocupado pela lida em casa, a mensagem de um número desconhecido o deixou bastante intrigado. Um pouco tenso, desligou a cortadora de grama, sentou-se no degrau da varanda e ficou segurando o copo de cerveja sem beber mais.

    Por um instante considerou uma piada, brincadeira de alguém, mas o histórico familiar permitia uma dose de veracidade àqueles 162 caracteres. Quem sabe aqueles tempos estavam voltando mesmo? Era o que ele defendia nas redes sociais, afinal. E sua opinião era conhecida dos amigos, com ávidos opositores e tímidos defensores. Coisas da Democracia.

    Poderia ser o tio auto-exilado no Uruguai desde 1970, ou um dos antigos companheiros dele. Alguns dali, vizinhos praticamente, que tiveram uma oportunidade súbita e souberam aproveitá-la, pensava ele.

    Mateus lembrava cada detalhe das histórias que o pai contava sobre o único irmão e de como ele pode ajudar a família nas horas mais difíceis.

    Ainda que, por aqui, a disputa entre subversivos e patriotas daquela época tenha sido deixada de lado por uma legião de semi-analfabetos e subnutridos que precisavam ganhar a vida e sustentar os filhos, foi um período duro pra todo mundo.

    Aquele instante de recordações tão íntimas formava um álbum com fotos de gente de bem e ele se via assim, também! No silêncio daquele fim de tarde gritava um sentido virtuoso de vida entre seus ouvidos.

    E no pátio tão bem cuidado, com uma frondosa cerejeira perto do portão, veio o som que lhe deu o sinal definitivo. O estridente canto de uma Araponga, ave rara por aqui, mas que apontou seu bico azulado para lhe encher o peito de certeza.

    No rosto de Mateus um sorriso brotou como um soluço e, no dia seguinte, exatamente às 16h15min como determinava a mensagem, estava ele de pé na vaga 108 da área C, no estacionamento do shopping.

    Debaixo da lixeira, um envelope com um número de telefone, indicação de lugares, senhas e um número que descobriria ser de uma conta bancária, na qual haveria uma mesada para despesas operacionais.

    Com o coração acelerado, retornou para casa no seu carro 96 como se estivesse num Mercedez-Benz e, pela janela, o vento tinha um perfume de transformação. De um lado, sentia-se com um valor inestimado e procurava reconhecer dentro de si os possíveis talentos que essas pessoas ainda desconhecidas tinham percebido nele.

    Parado no sinal vermelho, começou a ver uma limpeza em curso. Imaginou a ordem nas esquinas, exposições de arte unicamente com as obras dos grandes gênios da pintura e escultura e os bons costumes retornando ao lar do que acreditava ser a tradicional família brasileira.

    Não tardaria!

    A pressa era tanta que quase atropelou os dois rapazes que atravessaram na sua frente de mãos dadas. Sim, era urgente!

    E por onde Mateus passou desde então, muita coisa mudou. Antigos amigos silenciaram no Facebook, alguns precisaram mudar de residência e outros simplesmente sumiram.

    Mas o ex-desempregado andava de cabeça erguida com sua nova função social. E perambulava sonhando que seu assobio pudesse emitir o som tão incomum daquela Araponga que lhe indicou o caminho.

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