marcilene forechi

66 anos do Clube Seis de Maio: cultura e identidade na cidade de Gravataí

A nova diretoria do histórico Clube Seis de Maio

A comemoração de 66 anos do Clube Seis de Maio reuniu mais de 100 pessoas na sede da instituição, no bairro Oriçó, em Gravataí, no dia 15 de maio. Glau Barros soltou a voz embalando um grupo animado, que sambou enquanto a feijoada era preparada. Do salão, de onde não era possível ouvir o barulho da chuva que insistia em cair lá fora, o cheiro característico do feijão se misturava ao calor dos afetos e dos encontros.

Samba e feijoada, uma mistura difícil de ser pensada separadamente. O cheiro do alho, do feijão que borbulha ao calor do fogo, das carnes, dos temperos, do arroz soltinho e da couve refogada remetem a uma melodia que lembra ancestralidade e que nos faz pensar nas misturas que somos todos nós. Misturar samba e feijoada é uma forma de lembrar, gentil e animadamente, o quanto nossas identidades se vinculam a práticas culturais.

Uma feijoada em um domingo de chuva me fez, mais uma vez, refletir sobre o quanto a identidade de um povo se constitui historicamente, em meio a diferentes contextos, sob diferentes olhares e a partir dos gestos e ações que interditam ou evidenciam práticas culturais, grupos de pessoas, lugares e acontecimentos. Somos seres humanos que se constituem na imensa e complexa teia das relações e práticas culturais.

Como definiu o antropólogo Clifford Geertz, em 1973, cultura é um sistema simbólico que nos permite atribuir significado às coisas e dar sentido ao mundo. Assim, começamos mal se pretendemos contar “a história” de uma cidade, de um povo, de um evento, de uma tradição. Há sempre algo nessa história, ao se pretender única, que escapa, que não está sob as luzes lançadas por quem, naquele momento, se encarrega de contar, seja por força da vontade ou por deter o poder. Sim, contar histórias é um gesto político, um gesto de poder, um gesto cultural.

A história linear, que encadeia fatos sob a perspectiva de seu desenrolar cronológico, deixa escapar aquilo que ocorre nas dobras, nas margens, nos becos, nas vielas, nos fragmentos não percebidos, nas lacunas, nos silêncios, nas singularidades. Ao fim e ao cabo, contar histórias é uma prática cultural que seleciona – subjetiva e objetivamente – o que deve ser visto. Contamos histórias sobre o que nos é familiar e sobre o que nos é conveniente contar.

Falar, portanto, do aniversário de 66 anos do Clube Seis de Maio é uma decisão muito particular, muito individual e, sobretudo, uma decisão política. É a minha parte que escolhi contar dessa história por um fragmento, um olhar sobre um acontecimento de um único dia, em que houve samba e a melhor feijoada que já comi na vida, não considerando aquela preparada pelo querido amigo Daniel Goldring em tantos domingos passados, muitas vezes, sem nada de especial para celebrar, a não ser a vida.

Olhar para esse fragmento da história de Gravataí implica olhar para o nascimento do Seis de Maio, no ano de 1956, quando seis amigos decidiram criar, no bairro da Várzea, um espaço de encontro e de valorização da cultura negra, já que negros não eram aceitos nas agremiações sociais da cidade. Foi desse encontro germinal que surgiu, alguns anos mais tarde, uma escola de samba, que hoje conhecemos como Acadêmicos de Gravataí.

Sempre gosto de pensar sob uma perspectiva foucaultiana (sim, eu amo o pensamento de Michel Foucault), na qual o que importa é entender as condições que permitem algo acontecer ou simplesmente ser esquecido. E Foucault parece ter me acompanhado em um domingo frio e chuvoso de maio, no qual se celebrou o aniversário do Clube Negro Seis de Maio. Ali, em meio ao cheiro da feijoada, ao som do samba, envolvida em uma energia contagiante só pude pensar nas tantas histórias perdidas no tempo e resgatadas por um capricho da memória ou por critério de escolha do que será lembrado e do que será esquecido.

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