RAFAEL MARTINELLI

Indelicadeza é pouco: lançamento precoce de candidatura de Régis em Gravataí expõe pressa política enquanto Dr. Levi luta pela recuperação

Régis, na imagem que ilustra postagem de Chico Pereira

Assunto chato, mas vamos lá. “O segredo de aborrecer é dizer tudo” (Voltaire).

Há momentos na política em que o silêncio é mais eloquente do que o anúncio. E há anúncios que, quando feitos na hora errada, revelam não força, mas descompasso. Foi assim que caiu, nos bastidores de Gravataí, o lançamento informal da candidatura do secretário da Saúde Régis Fonseca, a deputado federal, pelo comunicador Chico Pereira: no mínimo, indelicado.

Para muitos, inoportuno. Para outros, simplesmente um erro político primário.

Enquanto a nota celebrava bastidores, “força” e “naturalidade” de uma possível candidatura, o personagem central da história — Dr. Levi Melo, vice-prefeito, médico, líder político do Podemos e candidato já lançado a deputado federal — segue hospitalizado no Hospital Nora Teixeira, em Porto Alegre.

Sob licença de 60 dias da Prefeitura, Levi está na UTI, em tratamento de uma mielite autoimune, doença rara e grave, com incidência estimada de um caso a cada 1 milhão de pessoas. A recuperação é lenta, exige plasmaférese, fisioterapia e, sobretudo, tempo.

Tempo. Justamente o que parece ter faltado no gesto político que antecipou uma sucessão enquanto o titular ainda luta para se reerguer.

Pelo que o Seguinte: apurou, o movimento pegou mal no meio político. Pegou mal inclusive dentro do próprio governo.

O prefeito Luiz Zaffalon teria sido surpreendido com a exposição pública da “possível candidatura” de Régis — ainda mais em uma reportagem ilustrada por uma foto cuidadosamente composta: Régis à frente, bandeira do Rio Grande do Sul ao fundo, estética clássica de campanha antecipada.

Nada ali parece acidental — ainda mais devido à notória amizade entre o secretário e o comunicador.

O problema não está na ambição — ela é parte do jogo político. O problema está no timing. E na forma. Levi não renunciou, não desistiu, não sinalizou recuo. Ao contrário: em boletim recente, falou em estabilização da doença, evolução inicial positiva e esperança concreta de retorno às atividades. Falou como médico. Falou como vice-prefeito. Falou como candidato que ainda está no jogo.

Régis, por sua vez, sempre foi considerado como ‘filho político’ de Levi. Foi o primeiro nome lembrado para cargos estratégicos, o escudeiro fiel, o homem de confiança.

Daí a comparação inevitável — e pedagógica — com Jair Bolsonaro, de quem tanto Levi quanto Régis são eleitores. Nem quando o pai estava esfaqueado, gravemente doente, hospitalizado, ou agora condenado e preso, os filhos políticos se lançaram candidatos em seu lugar.

Pelo contrário: pregam o impossível — a soltura, a revisão da inelegibilidade, a volta do líder.

Aqui, a pressa fala mais alto do que a lealdade.

Não se trata apenas de respeito pessoal, mas de leitura política básica. Antecipar candidatura enquanto o titular está hospitalizado fragiliza o grupo, cria ruído interno e passa a mensagem errada para fora. Em política, como na medicina, a precipitação costuma agravar quadros que ainda pedem observação.

O gesto não foi interpretado como “movimento natural”, mas como ansiedade. E ansiedade, quando exposta, cobra preço alto.

Ao fim, a história política costuma ser implacável com quem confunde oportunidade com atropelo. E talvez caiba aqui lembrar a lição atribuída a Pinheiro Machado, contada e recontada no Rio Grande do Sul como manual de sobrevivência política:

Avisado pelo cocheiro de que uma emboscada os aguardava na próxima esquina, o velho cacique não hesitou. Ordenou, com calma e autoridade: “Prossiga. Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça medo”.

Régis, ao que tudo indica, apertou o passo demais.

E, na política, quem corre antes da hora costuma tropeçar no próprio caminho. Ou até no cavalo.

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