Assunto chato, mas vamos lá. “O segredo de aborrecer é dizer tudo” (Voltaire).
Há momentos na política em que o silêncio é mais eloquente do que o anúncio. E há anúncios que, quando feitos na hora errada, revelam não força, mas descompasso. Foi assim que caiu, nos bastidores de Gravataí, o lançamento informal da candidatura do secretário da Saúde Régis Fonseca, a deputado federal, pelo comunicador Chico Pereira: no mínimo, indelicado.
Para muitos, inoportuno. Para outros, simplesmente um erro político primário.
Enquanto a nota celebrava bastidores, “força” e “naturalidade” de uma possível candidatura, o personagem central da história — Dr. Levi Melo, vice-prefeito, médico, líder político do Podemos e candidato já lançado a deputado federal — segue hospitalizado no Hospital Nora Teixeira, em Porto Alegre.
Sob licença de 60 dias da Prefeitura, Levi está na UTI, em tratamento de uma mielite autoimune, doença rara e grave, com incidência estimada de um caso a cada 1 milhão de pessoas. A recuperação é lenta, exige plasmaférese, fisioterapia e, sobretudo, tempo.
Tempo. Justamente o que parece ter faltado no gesto político que antecipou uma sucessão enquanto o titular ainda luta para se reerguer.
Pelo que o Seguinte: apurou, o movimento pegou mal no meio político. Pegou mal inclusive dentro do próprio governo.
O prefeito Luiz Zaffalon teria sido surpreendido com a exposição pública da “possível candidatura” de Régis — ainda mais em uma reportagem ilustrada por uma foto cuidadosamente composta: Régis à frente, bandeira do Rio Grande do Sul ao fundo, estética clássica de campanha antecipada.
Nada ali parece acidental — ainda mais devido à notória amizade entre o secretário e o comunicador.
O problema não está na ambição — ela é parte do jogo político. O problema está no timing. E na forma. Levi não renunciou, não desistiu, não sinalizou recuo. Ao contrário: em boletim recente, falou em estabilização da doença, evolução inicial positiva e esperança concreta de retorno às atividades. Falou como médico. Falou como vice-prefeito. Falou como candidato que ainda está no jogo.
Régis, por sua vez, sempre foi considerado como ‘filho político’ de Levi. Foi o primeiro nome lembrado para cargos estratégicos, o escudeiro fiel, o homem de confiança.
Daí a comparação inevitável — e pedagógica — com Jair Bolsonaro, de quem tanto Levi quanto Régis são eleitores. Nem quando o pai estava esfaqueado, gravemente doente, hospitalizado, ou agora condenado e preso, os filhos políticos se lançaram candidatos em seu lugar.
Pelo contrário: pregam o impossível — a soltura, a revisão da inelegibilidade, a volta do líder.
Aqui, a pressa fala mais alto do que a lealdade.
Não se trata apenas de respeito pessoal, mas de leitura política básica. Antecipar candidatura enquanto o titular está hospitalizado fragiliza o grupo, cria ruído interno e passa a mensagem errada para fora. Em política, como na medicina, a precipitação costuma agravar quadros que ainda pedem observação.
O gesto não foi interpretado como “movimento natural”, mas como ansiedade. E ansiedade, quando exposta, cobra preço alto.
Ao fim, a história política costuma ser implacável com quem confunde oportunidade com atropelo. E talvez caiba aqui lembrar a lição atribuída a Pinheiro Machado, contada e recontada no Rio Grande do Sul como manual de sobrevivência política:
Avisado pelo cocheiro de que uma emboscada os aguardava na próxima esquina, o velho cacique não hesitou. Ordenou, com calma e autoridade: “Prossiga. Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça medo”.
Régis, ao que tudo indica, apertou o passo demais.
E, na política, quem corre antes da hora costuma tropeçar no próprio caminho. Ou até no cavalo.






