CARLOS WAGNER

Truculência dos agentes da imigração pode custar a Trump a maioria do Congresso?

Por conta da confusão criada nos Estados Unidos pela truculência dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) e a humilhação contra os imigrantes ilegais. E porque dois americanos, Renee Nicole Good, 37 anos, e o enfermeiro Alex Pretti, 37 anos, foram abatidos a tiros pelo ICE em janeiro nas ruas de Mineápolis, Minnesota, por apoiarem a luta dos imigrantes, eu recebi uma ligação de um repórter que conheci em 1991 na região do Pontal do Paranapanema, interior de São Paulo. O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) José Rainha Júnior havia comandado a invasão de várias fazendas na região. Fiquei mais de um mês por lá escrevendo reportagens e, apesar de sermos concorrentes, acabamos ficando amigos. Eu o apelidei de “Lide”, porque, por mais banal que fosse a conversa, ele sempre começava pelo que tinha de mais importante sobre um assunto. Para quem não é jornalista, “lide” é o texto inicial de uma matéria, que sintetiza todo o acontecimento, geralmente respondendo às famosas perguntas: quem fez o que, como, quando, onde e por quê. Foi inventado pelos jornais americanos durante a cobertura da Guerra Civil (1861 – 1865). A ideia era que, caso o repórter fosse atingido por um tiro ou a linha do telégrafo fosse cortada, a informação principal da notícia já tinha chegado à redação. Saber fazer um bom lide é um dom de poucos. Vamos a nossa conversa.

Era noite, saboreava um conhaque e vasculhava os noticiários em busca de novidades quando recebi a ligação do amigo, que disse: “Virou um pesadelo a solução encontrada pelo Trump para evitar o fracasso do primeiro mandato”. Respondi que já tinha escrito sobre o assunto e repito sempre que surge uma oportunidade. No seu primeiro mandato (2017 – 2021), Donald Trump (republicano), 79 anos, foi boicotado por uma aliança entre pessoas do seu partido com funcionários de carreira do governo, que não cumpriam muitas das suas ordens por considerá-las exóticas. No atual mandato, que se iniciou em 20 de janeiro de 2025, Trump teve o cuidado de só colocar em cargos-chave pessoas da sua confiança. Graças a isso, no seu primeiro ano de governo conseguiu semear confusão nos quatro cantos do mundo. No mês passado fiz o post Modo Trump na política internacional é o “novo normal” ou será passageiro? O meu amigo ouviu atento ao que falei e disse: “É justamente esse o problema. Trump não tem nos seus cargos de confiança ninguém que discorde dele. Os que discordaram foram demitidos. Estava na cara que as ações do ICL iam virar um tumulto pelas avenidas americanas. Ele se deu conta do problema tarde demais”. Trump retirou de Mineápolis Gregory Bovino, 55 anos, chefe da Patrulha de Fronteira, uma figura que lembra os comandantes nazistas da Alemanha de Adolf Hitler (1889 – 1945). E também os agentes envolvidos nas mortes. Fui lembrado que a história ensina que a maioria daqueles que governam sem alguém ao seu redor para contrariá-lo acabam se complicando. Recordei o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que governou o país de 2019 a 2022. Em 2020 e 2021, aconteceu a pandemia de Covid, doença com alto poder de letalidade e contágio. Durante um ano e alguns meses a população ficou trancada dentro de casa porque não existiam remédios e vacinas.

Bolsonaro assumiu a posição de negacionista em relação à letalidade da pandemia. Demitiu ministros, altos funcionários, generais e quem ao seu redor que não concordasse com o seu negacionismo. Defendeu que a cloroquina, um medicamento usado no combate à malária, era eficaz também contra a Covid, contrariando estudos científicos apontando que a droga não tem efeito contra a Covid. A confusão armada pelo negacionismo de Bolsonaro durante a pandemia levou o Senado a instalar a CPI da Covid, que no seu relatório final de mais de 600 páginas colocou as digitais do governo federal nas mais de 700 mil mortes de brasileiros causadas pelo vírus. O relatório atualmente está com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, 57 anos, que no ano passado mandou a Polícia Federal (PF) investigar as denúncias que constam no documento. Enquanto isso, o ex-presidente cumpre pena de 27 anos de cadeia por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Hoje, a maioria dos bolsonaristas concorda que o destino de Bolsonaro poderia ter sido diferente se ele tivesse alguém que discordasse dele na época da pandemia e tivesse sobrevivido no emprego. No caso de Trump, em 2024 a pauta dos imigrantes ilegais tinha amplo apoio dos eleitores americanos e ajudou a elegê-lo para o seu segundo governo. Nos dias atuais, mais da metade da população americana, segundo pesquisas, é contra a ação dos agentes da ICE, alertou o meu amigo. Terminamos a nossa conversa com a promessa de um novo contato. Eu fiquei refletindo sobre o que havíamos falado. Quem escrever que sabe como vão acabar os protestos nas ruas dos Estados Unidos contra a ação do ICE está chutando, porque existem muitas coisas ainda em andamento. Uma delas, a mais importante na opinião de muita gente, é a eleição de 3 de novembro, quando serão disputadas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 do Senado. Atualmente, o presidente tem maioria na Câmara e no Senado. Se perder a maioria sua situação vai se complicar.

Termino a nossa conversa fazendo uma observação. Há duas pessoas no governo Trump que “tem farinha no saco”, como diz o dito popular, para contrariar o presidente dos Estados Unidos e sobreviver nos seus cargos. São elas o vice-presidente J. D. Vance, 41 anos, e o secretário de Estado Marco Rubio, 58 anos. Ambos são mais radicais que o presidente. Mas são mais qualificados e articulados. São jovens, ambiciosos e bem-sucedidos em suas carreiras políticas. Ao contrário de Trump, que está no fim da sua – além dos seus 79 anos de idade, a lei não permite que o presidente concorra a um terceiro mandato. Se Vance e Rubio sentirem os seus futuros políticos ameaçados pela truculência do ICE eles desafiarão Trump. Resumo a nossa conversa usando outro dito popular. No caso dos imigrantes ilegais, Trump “semeou vento e está colhendo tempestade”.

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