Ao se desfiliar do Partido Progressista (PP) o vereador Evandro Coruja — que nas urnas usa alcunha de Policial Evandro Coruja — aplica a estratégia ‘Flávio Bolsonaro’, em Gravataí.
Trata-se de uma decisão pensada para preservar capital político, identidade ideológica e espaço de poder em um momento em que a extrema direita e a direita brasileiras vivem, simultaneamente, uma disputa eleitoral e uma disputa de sucessão interna.
Coruja deixou o PP em comum acordo com o presidente municipal da sigla, também vereador Roger Corrêa, que assinou a anuência da desfiliação.
O gesto é relevante: fora da janela partidária — que só se abre em abril de 2028 para os eleitos em 2024 —, a saída sem risco de perda de mandato só ocorre quando há concordância formal do partido. Houve.
A tendência mais forte é que Coruja se filie ao Podemos, convite já feito pelo vereador Dilamar Soares, presidente da Câmara, com aval do presidente estadual da legenda, Everton Braz. Acompanharia o deputado estadual Gustavo Vitorino (Republicanos), de quem é próximo, que também pode migrar para o partido.
Outra possibilidade ainda no horizonte é o PL, partido que concentra hoje o núcleo duro do bolsonarismo institucional.
Seja qual for o destino, há uma certeza: não restará em partido que participe do governo Lula (PT) ou apoie o candidato de Eduardo Leite (PSD) à sucessão — mesmo pertença ele, Coruja, à base do governo do prefeito Luiz Zaffalon (PSD).
Em Gravataí, Coruja ocupa um espaço singular. É o ‘bolsonarista-raiz’ do Legislativo municipal.
Nunca flertou com o governador Eduardo Leite, nunca usou de obras federais omitindo Lula, nunca apareceu em selfies oportunistas, nunca modulou discurso conforme a conveniência do momento.
Em tempos de direita líquida — em que políticos posam com Leite pela manhã, compartilham vídeos de Nikolas Ferreira à tarde e, à noite, ressuscitam o ‘mito’ presidiário conforme a métrica das redes — Coruja manteve coerência.
É exatamente essa coerência ideológica (nacional) que está em jogo agora.
Com a aproximação do ciclo eleitoral, cresce o número de políticos que tentam se apropriar do bolsonarismo como ativo eleitoral, mesmo sem jamais ter pago o custo político dessa identidade.
Coruja se antecipa.
Sai de um partido que se tornou ambíguo ideologicamente para se reposicionar em uma legenda que lhe permita continuar sendo o que sempre foi — e ser reconhecido por isso.
A estratégia Flávio Bolsonaro
A movimentação lembra, em escala local, a lógica adotada por Flávio Bolsonaro no plano nacional.
Não se trata, necessariamente, de vencer a eleição a qualquer custo. Trata-se de manter viva a herança política, garantir representação fiel de um campo ideológico e ocupar um espaço que também é recompensador da política: a oposição.
Como já se observou no debate nacional, a oposição não é um lugar menor. Ao contrário. Ao analisar a estratégia de Flávio, desde sempre defendida pelo irmão Eduardo, o jornalista Reinaldo Azevedo lembrou frase atribuída a Julio Cesar e relatada por Plutarco: “é melhor ser o primeiro de uma aldeia da Gália do que mais um em Roma”.
Ser o “primeiro numa aldeia” pode render mais poder simbólico, político e eleitoral do que ser coadjuvante em um campo hegemônico e distante de seu lado na ferradura ideológica.
Mesmo derrotado eleitoralmente, quem lidera a oposição mantém capital, narrativa e musculatura para o ciclo seguinte.
Coruja entende isso. E age como quem enxerga a natureza do jogo.
Nos bastidores, a troca de partido é vista como parte de um projeto mais amplo, que pode incluir uma candidatura a deputado estadual em 2026.
O vereador mantém diálogo com nomes centrais da direita gaúcha, como os deputados federais Luciano Zucco, pré-candidato ao governo do Estado, e Ubiratan Sanderson, pré-candidato ao Senado — este último, além de aliado político, amigo pessoal e colega de Polícia Federal.
Assim como no plano nacional, a extrema direita e a direita vivem hoje dois processos simultâneos: a disputa contra o campo governista e a disputa interna pelo comando do próprio campo ideológico.
Em contextos assim, a diluição de identidade costuma ser fatal para quem aposta apenas no oportunismo.
Coruja faz o caminho inverso. Sai de um partido que já não comporta sua posição e busca uma legenda que não o obrigue a negociar discurso, silenciar pautas ou posar para fotos contraditórias.
Em Gravataí, pode ocupar o papel que Flávio Bolsonaro ocupa no plano nacional: o guardião do ‘bolsonarismo-raiz’, mesmo que isso não signifique vitória imediata nas urnas.
Porque, como ensina a política — e a história recente confirma — ganhar mesmo perdendo pode ser a forma mais eficiente de continuar no jogo.
“Ganhar perdendo” é, inclusive, frase usada por Eduardo Bolsonaro para defender ele mesmo, ou Flávio, e não o submisso Tarcísio de Freitas (Republicanos), como candidato à Presidência da República.
Ao fim, enquanto muitos tentam vestir o bolsonarismo como fantasia eleitoral, Coruja segue tratando-o como identidade política. Isso, em tempos de sucessão e oportunismo, faz toda a diferença.
Como o segredo de aborrecer é dizer tudo, alerto que faço neste artigo uma análise sobre o movimento político — independentemente de ser bom ou ruim representar o ‘bolsonarismo-raiz’. Eu acho horrível.






