RAFAEL MARTINELLI

Como uma aliança improvável está ajudando a salvar o HU de Canoas

Prefeito Airton Souza com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o deputado federal Paulo Pimenta, no anúncio de investimentos no Hospital Universitário, sexta / Foto: Bruno Ourique

A visita do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na sexta-feira (8), ao Hospital Universitário, o HU de Canoas, não foi apenas mais uma agenda institucional com fotos, jalecos e discursos otimistas. Foi a consolidação de um movimento que, meses atrás, parecia improvável: tirar da UTI um hospital que chegou a flertar com a interdição parcial em áreas críticas como neonatal e obstetrícia.

O dado central do anúncio ajuda a entender a dimensão disso: o governo federal passará a investir R$ 150 milhões anuais permanentes no custeio do hospital, conforme a abertura dos novos leitos.

O HU, que hoje opera com 309 leitos SUS, projeta alcançar 600 até o fim do ano — praticamente dobrando sua capacidade assistencial. Serão mais 100 leitos inicialmente, outros 100 em julho e mais 100 em agosto.

Na prática, a União está ajudando a financiar a transformação de um dos principais hospitais públicos da Região Metropolitana em uma estrutura muito maior do que a cidade conseguiria sustentar sozinha.

E Canoas sabe disso. Meses atrás, o cenário era outro.

Como esta coluna mostrou em fevereiro, o HU vivia uma crise que envolvia escalas médicas insuficientes, ameaça de interdição ética, risco para UTIs neonatais e possibilidade concreta de redução de atendimentos justamente nas áreas mais sensíveis do SUS.

Naquele momento, fechar portas significaria atingir uma estrutura que atende 153 municípios e sustenta boa parte da alta complexidade pública da região.

Era o tipo de crise que não cabia em disputa ideológica. Porque incubadora não pergunta em quem o prefeito votou. Nem uma gestante em trabalho de parto.

A reação veio em várias frentes: recomposição de equipes, pressão institucional, reorganização administrativa e, principalmente, aproximação com Brasília.

O resultado apareceu agora em escala muito maior. Além do custeio permanente de R$ 150 milhões anuais, o hospital recebeu 34 novos equipamentos do programa federal Agora Tem Especialistas, entre eles aparelhos de anestesia, sistemas para cirurgias minimamente invasivas, ultrassons portáteis, arcos cirúrgicos e equipamentos oftalmológicos. Outros dois microscópios cirúrgicos ainda serão entregues neste mês.

O bloco cirúrgico também passa por transformação radical: o HU terá nove salas cirúrgicas funcionando, incluindo cinco novas salas gerais e duas oftalmológicas.

O salto projetado impressiona: sair de cerca de 200 cirurgias mensais para até 1,3 mil procedimentos por mês. Um crescimento estimado em até 850%.

O hospital também projeta ampliar em 80% sua produção assistencial e reduzir drasticamente filas para exames e procedimentos especializados. Em alguns casos cardiovasculares de alta complexidade, o prazo médio pode cair de 180 para 30 dias.

Mas talvez o aspecto mais interessante dessa história não esteja apenas nos equipamentos, nos leitos ou nos milhões anunciados. Está na política. Ou, mais especificamente, na raridade política que Canoas virou no Brasil polarizado de 2026.

O prefeito Airton Souza é do PL. Publica tbt com Flávio Bolsonaro, reafirma fidelidade ao bolsonarismo e nunca escondeu seu lado político. Mas também chama Paulo Pimenta (PT) de “baita parceiro de Canoas”. Recebe Eduardo Leite (PSD) sem transformar agenda institucional em palanque de guerra.

E busca no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aquilo que Canoas precisa para reconstruir sua infraestrutura e salvar serviços essenciais.

Num país onde até detergente e marca de chinelo fazem calçar a ferradura ideológica, isso se tornou quase exótico. Ou subversivo.

Airton parece ter entendido algo que boa parte da política brasileira desaprendeu: diques não têm partido. UTI neonatal também não.

A enchente de 2024 ajudou a acelerar essa percepção. Canoas foi um dos epicentros da tragédia climática no Rio Grande do Sul. Cerca de 180 mil pessoas ficaram fora de casa, bairros inteiros passaram semanas submersos e o município viu sua capacidade fiscal ser esmagada pela reconstrução.

A ‘ideologia dos números’ virou realidade brutal.

Como o próprio prefeito já explicou, quase toda receita municipal é consumida por funcionalismo, saúde e educação. Sobra margem mínima para investimento pesado.

Sem Estado e União, Canoas simplesmente não reconstrói diques. Não amplia hospitais. Não sustenta um HU regionalizado.

Não existe bravata ideológica capaz de fechar essa conta.

O telefone atendido

A visita de Padilha simboliza exatamente isso. Não foi apenas o governo Lula investindo em Canoas. Foi Canoas aceitando conversar com Brasília sem transformar a relação institucional em guerra cultural permanente.

E isso produziu resultado concreto.

O Ministério da Saúde anunciou mais de R$ 193 milhões em investimentos no Rio Grande do Sul, incluindo ambulâncias, salas cirúrgicas, equipamentos oncológicos, policlínicas e reconstrução da rede afetada pelas enchentes de 2024. Parte importante desse esforço desembarca justamente em Canoas.

O HU virou símbolo dessa reconstrução. Porque o hospital quase virou símbolo oposto: o da desassistência. Agora tenta se transformar em vitrine de recuperação.

Ainda há desafios enormes. Abrir leitos exige equipes multidisciplinares completas. Equipamento sem escala médica vira peça de exposição. A expansão precisará de gestão estável, financiamento contínuo e reorganização administrativa permanente.

Mas há uma diferença importante em relação a meses atrás: antes se discutia fechamento. Agora se discute ampliação.

Ao fim, talvez a grande obra invisível de Airton Souza continue sendo a mesma que já apareceu nos diques, nos túneis e agora no hospital: a capacidade de manter pontes abertas num país que desaprendeu a conversar.

No Brasil da polarização permanente, Canoas descobriu algo simples — e politicamente inusitado. Às vezes, salvar um hospital exige menos guerra ideológica e mais telefone atendido em Brasília.

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