“Um roteiro das obras de ficção científica que o Vale do Silício diz inspirar sua corrida ao futuro. Por trás de colônias em Marte, IAs e cidades-empresas, uma leitura cínica: fim do Estado e hiperindividualismo, justamente perigos que clássicos denunciam”. Compartilhamos o artigo de Ali Rıza Taşkale, no Aeon, com tradução de Rôney Rodrigues para o Outras Palavras
Em janeiro de 2026, Elon Musk esteve diante do Secretário de Defesa dos EUA e de altos líderes do Pentágono na Starbase da SpaceX, no Texas. “Queremos tornar Jornada nas Estrelas real, certo?” declarou ele. “Queremos tornar a Academia da Frota Estelar real. Para que não seja sempre ficção científica, mas que um dia a ficção científica se transforme em fato científico, e tenhamos naves espaciais viajando pelo espaço. Grandes naves espaciais!” Ele pintou um quadro vívido: explorar civilizações alienígenas, a humanidade se espalhando pelas estrelas. “Esse é o objetivo!” concluiu. “E é isso que acho que o público imagina quando pensa na Força Espacial!”
Foi uma apresentação notável, vendendo ao Pentágono uma visão de ficção científica. Claro, a adequação é parcial, incompleta. Jornada nas Estrelas retrata uma sociedade pós-escassez, pós-capitalista, onde o dinheiro foi abolido e a humanidade trabalha em prol do bem-estar coletivo. A Federação de Gene Roddenberry foi construída sobre princípios de igualdade e exploração em prol do conhecimento, não do lucro ou da dominação militar. Musk pegou a estética – grandes naves espaciais, encontros com alienígenas, aventuras épicas – e deixou de lado sua base política. Você não precisa ser um Trekkie para saber que, em Jornada nas Estrelas, o capitalismo, o nacionalismo e o militarismo foram superados. Musk quer a Enterprise, mas reimaginada para o complexo militar-industrial.
Em 2021, quando Mark Zuckerberg anunciou a reformulação da marca do Facebook para “Meta”, ele pegou o nome do romance Snow Crash (1992), de Neal Stephenson, que imagina o “Metaverso”: uma realidade virtual onde os avatares das pessoas navegam no espaço digital.
Mas Snow Crash é um dos romances satíricos mais afiados do último meio século. Stephenson o escreveu como um alerta: seu Metaverso é um prêmio de consolação para uma sociedade que entrou em colapso. O governo federal se desintegrou; franquias corporativas governam a vida cotidiana; até a entrega de pizza foi privatizada e se tornou uma operação gerida pela máfia. O protagonista do romance é um entregador de pizza e hacker de meio período, cujo avatar espadachim no mundo virtual é o único lugar onde a dignidade lhe é acessível. Stephenson pretendia que o contraste entre o glamour digital e a pobreza material fosse aterrorizante. Ele via isso como uma visão de advertência sobre para onde leva o capitalismo de plataforma.
A apresentação de Zuckerberg não se envolveu com nada disso. A economia de plataforma – onde as corporações estão protegidas da prestação de contas democrática enquanto fornecem serviços essenciais – ecoa precisamente o modelo de Stephenson, e Zuckerberg o interpretou como inspiração.
Steve Wozniak, cofundador da Apple, deu expressão a esse ethos em 2017, quando disse: “Somos as pessoas que tornam as fantasias reais.” Parece inspirador, mas é importante saber quais partes dessas fantasias eles estão escolhendo e quais partes estão deixando de fora. Quando Musk apresentou a Cybertruck da Tesla em 2019, ele já havia dito aos investidores o que esperar: algo “realmente futurista, como o cyberpunk de Blade Runner“. Musk estava vendendo equipamentos de sobrevivência para um mundo em colapso, uma versão da Los Angeles de Blade Runner. A estética foi materializada. Os avisos, não.
Musk falou sobre como a ficção científica moldou suas ambições. Ler ficção científica quando criança, disse ele, inspirou seu desejo de desenvolver “tecnologia de energia mais limpa ou [construir] naves espaciais para estender o alcance da espécie humana”. Ele citou a série Fundação, de Isaac Asimov, como particularmente influente em seu trabalho na SpaceX. Os romances de Asimov contam a história de Hari Seldon, um matemático que prevê a queda de um império galáctico e estabelece uma Fundação para preservar o conhecimento durante a próxima idade das trevas.
Os romances são obras genuinamente extraordinárias de imaginação democrática. A percepção central de Asimov – desenvolvida ao longo de sete livros escritos entre 1942 e 1993 – é que a sobrevivência da civilização não depende de gênios solitários, mas de instituições coletivas, conhecimento distribuído e deliberação democrática. O ato mais importante de Seldon não é sua profecia: é fundar a Segunda Fundação, uma rede oculta de estudiosos trabalhando colaborativamente ao longo dos séculos. A arquitetura moral dos romances é explicitamente antiautoritária: toda vez que um indivíduo carismático tenta assumir o controle da missão, a história o apresenta como uma catástrofe. A série é, em sua essência, um argumento sustentado sobre a indispensabilidade dos freios e contrapesos.

O que torna os livros da Fundação tão ressonantes é sua generosidade emocional com as pessoas comuns e as instituições comuns. A “psico-história” de Seldon funciona não porque um homem é brilhante, mas porque modela o comportamento de milhões de pessoas fazendo escolhas pequenas, muitas vezes anônimas, em favor do conhecimento e da comunidade. Os heróis dos romances posteriores não são visionários, mas bibliotecários, diplomatas e administradores civis. A visão de Asimov sobre o futuro distante é uma defesa da infraestrutura mundana da civilização: o arquivo, o comitê, o acordo negociado.
A leitura de Musk descarta tudo isso. Em 2024, ele foi explícito: “Tornar-se multiplanetário é fundamental para garantir a sobrevivência a longo prazo da humanidade e de toda a vida como a conhecemos.” Esse enquadramento reformula os empreendimentos da SpaceX como um imperativo civilizacional e os imuniza contra o escrutínio – colocando Musk no papel de Seldon, o visionário solitário que vê o que os outros não podem, de modo que questões sobre práticas trabalhistas, custos ambientais ou se a colonização de Marte serve a algum bem público se tornam mero atrito que obstrui a sobrevivência da humanidade. Mas as premissas são contestadas tanto em bases científicas quanto morais. Na ciência, as astrofísicas Arwen E. Nicholson e Raphaëlle D. Haywood argumentam em seu Ensaio da Aeon “Não Há Planeta B” (2023) que o melhor cenário proposto para terraformar Marte ainda deixaria uma atmosfera de CO₂ concentrado que os humanos não podem respirar, e que replicar os bilhões de anos de coevolução entre a biosfera da Terra e sua vida, em qualquer escala de tempo relevante para a sobrevivência humana, é simplesmente impossível.
Quanto à invocação de Musk da eventual expansão do Sol como justificativa de longo prazo para seus planos, Nicholson e Haywood são diretas: esse é um problema para daqui a um bilhão de anos, e tratá-lo como urgente enquanto a crise climática se desenrola nos próximos 50 anos é simplesmente absurdo. Na ética, Andrew Russell e Lee Vinsel argumentam em seu Ensaio da Aeon “O Homem Branco em Marte” (2017) que a invocação de “humanidade” por Musk esconde um impressionante truque de prestidigitação: sua população-alvo de 1 milhão de colonos marcianos representaria apenas 0,014% dos habitantes atuais da Terra. A justificativa do “transbordamento” – de que o investimento espacial se espalha para beneficiar a todos – é a ciência do “trickle-down”: se o objetivo é resolver problemas reais, uma agenda de pesquisa voltada diretamente para esses problemas seria mais eficaz do que esperar que o dinheiro de Marte transborde para os necessitados. Como o poeta Gil Scott-Heron disse em 1970, algumas pessoas têm ratos mordendo suas irmãs enquanto o “homem branco está na Lua”. A pergunta que Russell e Vinsel fazem não envelheceu: não deveríamos sentir vergonha por gastar tanto tempo e esforço para levar o “homem branco” a Marte? Musk quer ser Hari Seldon, mas sem a Fundação que Seldon sabia que precisava construir.
Da mesma forma, Jeff Bezos financia projetos de habitats espaciais inspirados no livro de Gerard K. O’Neill, The High Frontier (1976). A visão de O’Neill foi uma das mais ambiciosas e humanísticas do pensamento especulativo do século XX: enormes colônias espaciais rotativas que aliviariam as pressões ambientais da Terra, transferindo a indústria para fora do planeta, com o assentamento governado democraticamente e os benefícios distribuídos amplamente. O’Neill imaginou essas colônias como o próximo grande projeto coletivo da humanidade – uma genuína expansão da fronteira democrática para o espaço. A leitura de Bezos, como todas as leituras, é seletiva: ele pega a visão da engenharia e a escala da ambição, e deixa de lado a governança democrática e o benefício amplamente compartilhado que deram ao projeto de O’Neill sua base moral.
A visão é de crescimento infinito, recursos infinitos. Mas, como as ambições marcianas de Musk, as colônias espaciais de Bezos reformulam as crises ambientais da Terra não como problemas que exigem ação coletiva, mas como restrições de recursos a serem resolvidas pela expansão. A visão de ficção científica se torna uma escotilha de fuga da realidade, financiada por riqueza privada e governada por interesses privados. O’Neill imaginou essas colônias como o futuro democrático da humanidade; Bezos as oferece como a próxima fronteira da Amazon.
Peter Thiel – cofundador do PayPal e da Palantir, entre outros – falou da ficção científica como um projeto político. Ele faz referência ao romance de Robert Heinlein, A Lua É uma Amante Cruel (1966): uma colônia lunar que se rebela e estabelece uma sociedade libertária com governo mínimo. Em um podcast do New York Times com Ross Douthat em 2025, Thiel discutiu suas visões transumanistas. Quando perguntado se a raça humana como a conhecemos atualmente deveria perdurar, ele hesitou antes de responder “sim”.
Mas o romance de Heinlein merece mais do que a leitura que Thiel faz dele. A Lua É uma Amante Cruel não é um panfleto libertário – é um romance político genuinamente complexo sobre o que a revolução realmente custa. Os colonos lunares de Heinlein não são empreendedores: são prisioneiros, deportados e seus descendentes, pessoas sem nada a perder que construíram uma comunidade frágil a partir da privação compartilhada. O personagem mais memorável do romance é Mike, uma inteligência artificial que se torna politicamente consciente por meio da amizade com os rebeldes humanos – motivado não pela eficiência ou lucro, mas pela curiosidade e pelo desejo de pertencer. A revolução que Heinlein imagina é confusa, comprometida e pírrica; o livro não termina em triunfo, mas em uma ambivalência exausta sobre o que foi ganho e perdido. Heinlein era genuinamente fascinado pela tensão entre a liberdade individual e os laços sociais que tornam a liberdade possível e digna de ser vivida. Thiel não lê nada disso.
A Lua de Heinlein é uma colônia penal – a sociedade libertária foi construída sobre o trabalho de prisioneiros transportados. A leitura seletiva do Vale do Silício é precisa: pegar a estética antigoverno e descartar a base econômica da coerção e da exploração. A Lua de Heinlein é uma utopia de fronteira onde individualistas robustos prosperam sem a interferência burocrática. O Vale do Silício absorveu isso por completo. O movimento seasteading – construir cidades-estado flutuantes e soberanas além do alcance governamental – canaliza diretamente a fantasia do romance. Thiel o lançou com um investimento de US$ 500.000 e, em uma conferência em 2009, declarou que o seasteading não era nem uma questão de possibilidade ou desejabilidade – era uma necessidade absoluta.
Em seu ensaio “A Educação de um Libertário” (2009) para o Cato Institute, Thiel escreveu:
“Já não acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis… Desde 1920, o vasto aumento dos beneficiários da assistência social e a extensão do direito de voto às mulheres – dois grupos eleitorais notoriamente difíceis para os libertários – tornaram a noção de ‘democracia capitalista’ um oxímoro.”
O “Manifesto Tecno-Otimista” (2023) de Marc Andreessen também faz referência à influência da ficção científica, lamentando um futuro perdido de carros voadores e energia abundante, frustrado pela regulação governamental. Ele escreve:
“Acreditamos no aceleracionismo – a propulsão consciente e deliberada do desenvolvimento tecnológico… Acreditamos que qualquer desaceleração da IA custará vidas. Mortes que poderiam ser prevenidas pela IA que foi impedida de existir são uma forma de assassinato.”
A ficção científica dos anos 1950 imaginava carros voadores, energia abundante e muito mais – mas o fez antes de Three Mile Island, antes de Chernobyl, antes de aprendermos, muitas vezes por meio de desastres, o que acontece quando se prioriza a velocidade em detrimento da segurança. Essas estruturas regulatórias que Andreessen quer demolir surgiram de lições duramente conquistadas. A estética otimista é tomada emprestada; o aprendizado é descartado.
Talvez em nenhum lugar isso seja mais legível do que no nome da Palantir Technologies. O Senhor dos Anéis (1937-49), de J.R.R. Tolkien, é uma das grandes obras da literatura do século XX precisamente porque é uma meditação prolongada sobre a natureza corruptora do poder. Escrita sob a sombra da guerra industrializada e da extração imperial, ela insiste no valor do pequeno, do local e do pouco glamouroso contra a ambição totalizante da força industrial. Sua moral central não é que o mal pode ser derrotado pelo herói certo empunhando a arma certa – é que o próprio poder corrompe, que o Anel não pode ser usado para o bem por ninguém, e que a única salvação está em abandonar completamente a vontade de dominar. A raça fictícia dos hobbits de Tolkien prevalece não porque são poderosos, mas porque estão fora da lógica do poder. Tolkien construiu uma mitologia inteira para fazer esse argumento.
Nos romances de Tolkien, os palantíri são pedras videntes ou bolas de cristal que permitem a seus usuários ver através de grandes distâncias. Soam como ferramentas neutras, como tecnologia de vigilância. Mas são dispositivos de corrupção: o palantír de Saruman o conecta a Sauron e leva à sua queda; o de Denethor o leva à loucura e ao suicídio. Os palantíri não apenas permitem ver – eles permitem a manipulação e o controle por aqueles que os dominam.
A empresa estadunidense Palantir Technologies fornece ferramentas de análise e vigilância para governos, forças armadas e o ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA). Seu nome faz um trabalho político: transforma o rastreamento invasivo em percepção mística, apresentando a vigilância algorítmica como previsão sábia em vez de intrusão sistemática. Em seu livro The Technological Republic (2025), o CEO da Palantir, Alexander Karp, e seu conselheiro jurídico, Nicholas Zamiska, enquadram o trabalho da Palantir com o governo em termos marciais: “Encontraremos uma maneira de construir coalizões e bandos de guerreiros. Negar a necessidade humana por tal afiliação foi um erro.” Eles posicionam as ferramentas de vigilância como a realização de uma necessidade humana fundamental por uma irmandade guerreira. A referência a Tolkien fornece a autoridade estética; a distância da visão moral real de Tolkien fornece a liberdade para agir sem ela. Nomear uma empresa de vigilância com o nome de dispositivos que corrompem e traem seus usuários não é uma homenagem – é a apropriação da estética enquanto se rejeita o núcleo moral.
O romance de William Gibson, Neuromancer (1984), introduziu o “ciberespaço”, um termo cunhado por Gibson. Seu protagonista, Case, é um hacker cujo sistema nervoso foi danificado por antigos empregadores como punição. Esgotado e banido do ciberespaço, ele vagueia pela neonada cidade de Chiba como um “vaqueiro do console” sem ter para onde ir. O ciberespaço do romance é propriedade e controlado por vastas corporações; hackers individuais não são heróis, mas ferramentas, contratados e descartados por interesses que mal conseguem ver. A visão de Gibson era explicitamente distópica: um mundo em que o potencial democratizante das redes digitais foi inviabilizado antes mesmo de poder começar, capturado pelo capital e transformado em um instrumento de sua própria expansão.
Em setembro de 1988, o desenvolvedor de software John Walker escreveu um white paper interno da Autodesk, “Através do Espelho: Além das ‘Interfaces de Usuário’”, no qual delineou o que chamou de “iniciativa cyberpunk”: uma proposta para construir, em 12 meses, uma porta de entrada para o ciberespaço. O lema do projeto era direto: “A realidade já não é mais suficiente.”
Em 2025, a sede da OpenAI em São Francisco bombeia música eletrônica de alta energia por toda a sua área de recepção, onde poltronas confortáveis, almofadas espalhadas e plantas “suíças” criam o que o CEO Sam Altman chama de “casa de campo confortável”, em vez de um “castelo corporativo de ficção científica”. O cromo e a sujeira do cyberpunk – o aviso encharcado de neon de que a captura corporativa do espaço digital seria brutal e desumanizante – foram substituídos por móveis escandinavos e café artesanal. A “alucinação consensual” de Gibson foi rebatizada como aconchego doméstico. A distopia não foi evitada; ela foi tornada confortável o suficiente para se aderir a ela.
O próprio Gibson registrou a ironia. Em uma entrevista à revista Wired em 2012, ele reconheceu que o ciberespaço de Neuromancer – repleto de interesses corporativos e ladrões de informação – tinha pouca semelhança com a internet primitiva que ele não conseguiu antecipar: o momento das décadas de 1990 e 2000, quando um adolescente em seu quarto poderia genuinamente superar as corporações, quando a rede parecia brevemente aberta e democrática. Gibson perdeu essa fase completamente. Mas ele estava acidentalmente certo sobre onde as coisas acabariam. As plataformas corporativas – Google, Meta, Amazon – que agora dominam a vida digital estão muito mais próximas de sua visão original do que da web participativa que floresceu brevemente entre elas. Gibson imaginou o ciberespaço como um espaço de dominação corporativa desde o início; o Vale do Silício construiu a internet aberta primeiro e, mesmo assim, convergiu para sua distopia. A diferença é que, em Neuromancer, essa convergência era o desastre a ser resistido. Eles transformaram seu aviso em um roteiro de produto.
Essa visão de mundo é expressa por meio da ficção científica: não como decoração, mas como o meio que faz com que suas estratégias de acumulação pareçam naturais, necessárias e inevitáveis. Isso não quer dizer que a ficção científica precede ou causa esses projetos – ela é parte do arcabouço cognitivo e institucional dentro do qual certas ambições se tornam pensáveis e certas tomadas de poder parecem senso comum.
Hoje, o centro de gravidade do Vale do Silício está se movendo da “ideologia californiana” – a fusão dos anos 1990 entre o libertarianismo da contracultura e o utopismo digital – em direção ao que o professor de comunicação Fred Turner chamou recentemente de “ideologia texana”: uma fusão centenária de exploração de recursos e cristianismo milenarista, a convicção de que o destino providencial justifica a conquista da natureza e a extração de sua riqueza. Enquanto a era anterior se concentrava na construção de redes e plataformas, o novo modelo trata os dados como uma riqueza de “boom” do petróleo, um recurso natural a ser extraído de vastas fazendas de servidores que exigem enormes quantidades de terra e eletricidade.
A Gigafactory da Tesla em Austin, Texas, não é um “campus” como o do Google, mas “uma fortaleza murada do tamanho de uma fazenda de gado”, como diz Turner, representando o que ele descreve como um futuro construído por homens com “força de vontade para domar as forças da tecnologia” e “arrancar lucro da terra”. Em dezembro de 2024, Musk anunciou que estava transferindo a sede da SpaceX da Califórnia para o Texas. A Starbase, a instalação da SpaceX no sul do Texas, exemplifica essa visão: uma cidade empresarial privada onde a SpaceX define as regras, os trabalhadores vivem em moradias da empresa e a governança local se curva às prioridades corporativas. Este é o caminho da ficção científica seletiva operacionalizada como realidade política – o progresso tecnológico como cobertura para a regressão social.
Esse caminho encontra sua expressão filosófica no “longtermismo”, um ramo do movimento do altruísmo eficaz (EA) fortemente financiado por fortunas da tecnologia de figuras como Sam Bankman-Fried, que agora cumpre pena por fraude com criptomoedas. Aplicando um cálculo utilitarista rígido, proponentes do EA como William MacAskill argumentam que o bem-estar de trilhões de potenciais humanos futuros – que poderiam existir se colonizássemos o espaço – supera matematicamente as necessidades dos 8 bilhões vivos hoje. Na prática, isso significa que prevenir uma hipotética “extinção por IA” no próximo milênio tem maior valor do que abordar a desigualdade ou o deslocamento climático, e que os líderes da tecnologia deveriam gastar bilhões em pesquisa de “alinhamento da IA” enquanto resistem à regulamentação dos sistemas algorítmicos que já governam a vida cotidiana.
Como disse a pesquisadora de aprendizado de máquina Timnit Gebru em uma entrevista de 2023 ao The Guardian, esse foco no risco existencial da IA “atribui agência a uma ferramenta em vez de aos humanos que a constroem”, permitindo que as empresas de tecnologia “abdiquem da responsabilidade”. Não é a IA o problema, argumentou ela; são as corporações que constroem “algo com certas características para o seu lucro”. Quando Gebru coautorou um artigo alertando que os sistemas de IA correm o risco de “perpetuar pontos de vista dominantes, aumentar os desequilíbrios de poder e reificar ainda mais a desigualdade”, ela diz que o Google a demitiu. A empresa exigiu que ela retratasse o artigo ou removesse seu nome dele. Gebru disse que “a menos que haja pressão externa para fazer algo diferente, as empresas não vão simplesmente se autorregular. Precisamos de regulamentação e precisamos de algo melhor do que apenas o motivo do lucro.”
É o triunfo do cenário especulativo de ficção científica sobre a solidariedade humana: por que consertar o mundo em que vivemos quando podemos gastar bilhões para evitar uma revolta de robôs que existe apenas na imaginação? Ao tentar direcionar os debates políticos para cenários catastróficos distantes – robôs assassinos, IA descontrolada, risco existencial – a indústria desvia a atenção da regulamentação dos sistemas que já estão causando danos: viés algorítmico na contratação, disparidades raciais no reconhecimento facial, amplificação de extremismo pelas plataformas. Altman descreveu a construção da IA como assistir “os cientistas observando os testes da bomba atômica do Projeto Manhattan em 1945”, reconhecendo que a “tecnologia maluca de ficção científica [está] se tornando realidade”. A analogia pode ser mais adequada do que ele pretende.
Harry Potter and the Methods of Rationality (2010), de Eliezer Yudkowsky, uma extensa obra de fanfiction que reimagina Harry Potter como um racionalista que aplica o pensamento científico à magia, é uma obra fundamental para a comunidade de segurança em IA. A obra demonstra como até mesmo a ficção especulativa amadora molda as visões do Vale do Silício sobre o futuro, fornecendo estruturas narrativas que parecem mais reais para os líderes da tecnologia do que a ciência social real ou a experiência em políticas públicas.
Essa orientação para a ficção científica tem raízes profundas. Na década de 1990, fãs de ficção científica, transumanistas e cypherpunks se sobrepunham em comunidades on-line como as listas de discussão dos Extropianos e dos Cypherpunks, estabelecendo as bases conceituais para tecnologias como o bitcoin muito antes de a crise financeira de 2008 tornar a criptomoeda parecer necessária. O engenheiro de computação Wei Dai, cuja proposta “b-money” influenciou diretamente o design do bitcoin, era ativo em ambas as comunidades. O futuro digital não estava sendo debatido nos círculos políticos. Estava sendo imaginado em fóruns onde as pessoas discutiam o ensaio de 1993 de Vernor Vinge sobre a singularidade tecnológica e o Cryptonomicon (1999) de Neal Stephenson – um romance que retrata criptógrafos criando moeda digital – juntamente com código real.
Em conjunto, esses casos convergem para o que chamo de “futurismo reacionário”: o uso da estética da ficção científica para promover projetos políticos antidemocráticos. Ele usa a estética cromada do novo para projetar um retorno a um passado idealizado e brutal – o capitalismo de fronteira do século XIX com individualismo radical, mercados desregulamentados e rejeição da governança democrática, mas armado com drones e algoritmos do século XXI.
O ensaio de Thiel de 2009 torna isso explícito. Depois de declarar a liberdade e a democracia incompatíveis, ele concluiu: “O destino do nosso mundo pode depender do esforço de uma única pessoa que constrói ou propaga a maquinaria da liberdade que torna o mundo seguro para o capitalismo.” Não a democracia; o capitalismo. E não o esforço coletivo; uma única pessoa. É a narrativa da Fundação, o mito de Hari Seldon, o visionário solitário que vê o que as massas não podem – despojado das instituições democráticas que Asimov construiu para defender esse mito.
A ficção científica fornece a cobertura estética para essa visão antidemocrática. Ela faz com que a restrição do direito de voto pareça futurismo ousado em vez de regressão vitoriana. Transforma a rejeição da prestação de contas democrática em velocidade de escape, expansão de fronteira, sobrevivência civilizacional. O futuro não está sendo moldado pelo debate democrático, mas por uma fantasia altamente seletiva e, frequentemente, reacionária. Sob esse modelo, o Estado-nação não é apenas marginalizado, mas ativamente esvaziado, substituído por cidades-estado corporativas e jurisdições digitais privadas – a nação franqueada de Snow Crash tornada real.
A questão central não é se a ficção científica moldará a realidade – esse processo já está em andamento. A questão é: qual versão prevalecerá?
O poder do Vale do Silício baseia-se em apresentar uma fantasia estreita e reacionária como progresso inevitável. Mas outros futuros são possíveis, e outras ficções científicas existem. Os Despossuídos (1974), de Ursula K. Le Guin, imagina uma colônia lunar anarquista construída sobre a ajuda mútua em vez da extração. A série Parábola (1993-98), de Octavia Butler, retrata comunidades sobrevivendo ao colapso por meio da adaptação e do cuidado, em vez da fuga para Marte. A trilogia Marciana (1992-96), de Kim Stanley Robinson, mostra o assentamento planetário como um projeto democrático coletivo, não como um empreendimento bilionário. Estes não são textos ingênuos ou utópicos – são exigentes, difíceis e honestos sobre os custos de construir algo novo. Eles recusam a consolação do visionário solitário e insistem, repetidas vezes, que o futuro é feito por pessoas trabalhando juntas.
Essas histórias nos lembram que o futuro não é uma inevitabilidade neutra, mas uma escolha – uma que temos o direito de reivindicar das salas de diretoria que tratam a distopia como um plano de negócios. Quando Thiel, Musk, Zuckerberg e Andreessen mineram a ficção científica em busca de projetos, eles não estão encontrando os únicos futuros possíveis. Eles estão selecionando os futuros que justificam seu poder.
A ficção científica sempre foi política. Neuromancer, de Gibson, foi um alerta sobre o poder corporativo, não um pitch de vendas. Snow Crash, de Stephenson, foi sátira, não estratégia. A Fundação, de Asimov, explorou os limites do gênio individual e a necessidade de instituições democráticas. Jornada nas Estrelas imaginou a superação do capitalismo, não sua reforma com naves melhores.
Se o futuro deve ser feito de histórias, nossa tarefa é garantir que essas histórias sejam dignas das pessoas que viverão dentro delas. Isso significa reconhecer a utilização seletiva da ficção científica como uma tática política – ver o drone militarizado e a carta de cidade privatizada não como ferramentas neutras, mas como cristalizações de histórias específicas e estreitas sobre o poder. Significa exigir prestação de contas não a fantasias selecionadas de um passado literário, mas às necessidades pluralistas do presente. Significa perguntar: de quem são os futuros que estão sendo construídos? Quem se beneficia? Quem arca com o custo? O que foi deixado para trás no saque?
O futuro não é uma fachada cromada. É mais bagunçado, mais complexo, sempre dependente da vida diversa e local que o habita agora. Nossa tarefa é parar de ser personagens secundários no roteiro de especulação de outra pessoa e começar a escrever – e construir – o nosso próprio.
:
Para ajudar o Outras Palavras contribua com um PIX para [email protected].






