RAFAEL MARTINELLI

De Leon confirma candidatura a deputado: o ‘Google AdSense’ do voto e a Gravataí que o algoritmo mostra

Thiago De Leon (PDT) confirmou em vídeo postado que é candidato a deputado estadual por Gravataí. Tudo bem instagramável, como é a sua característica. O anúncio veio na segunda-feira, e não no dia da convenção do partido. Movido pela lógica das redes antissociais, talvez temesse apresentar a candidatura enquanto a água do Rio Gravataí subia.

No que chamou de “pronunciamento”, captado sob um fundo preto (sem vermelho) ao estilo dos vídeos de políticos influencers como Nikolas Ferreira, Tabata Amaral e Erika Hilton, fazendo cara de gravidade, lembrou que, como vereador, fiscalizou o poder público “como ninguém”, doou metade do salário para escolas e, sem mandato, mostrou “a Gravataí que ninguém te mostra”.

Estrategicamente alinhado à candidatura de Juliana Brizola (PDT) ao Palácio Piratini, De Leon preferiu não citar sua passagem recente como secretário-adjunto do governo Eduardo Leite (PSD). Sem outras candidaturas locais de esquerda à Assembleia Legislativa, ele preserva esse campo para o voto — mesmo sem demonstrar muito entusiasmo para postar eventos ao lado da chapa majoritária completa, que inclui o PT de Lula. Para a Assembleia, De Leon divide o campo de oposição na aldeia com Marco Alba (MDB), de quem foi candidato a vice-prefeito na eleição de 2024. A chapa ficou em segundo lugar com 42.445 votos; Luiz Zaffalon (PSD) foi reeleito com 64.125.

Eleito para o primeiro e único mandato em 2020 com 1.603 votos, já concorreu à AL: em 2022, recebeu na aldeia 12.365 dos 16.733 votos que fez no Rio Grande do Sul..

O ‘extremo-centrismo’ e o rastro dos símbolos

Reputo, como já escrevi em artigo anterior, que resta a dúvida para quem acompanha a trajetória do ex-vereador e presidente municipal do PDT: afinal, qual é o seu real lugar no espectro político? É a esquerda tradicional, o centro, ou o que costumo chamar de ‘extremo-centrismo’?

Sabe bem o sociólogo que gesto também é linguagem e a ausência de gesto vira discurso. Na política, os ausentes são mortos temporários, como dizia Millôr. Vimos isso recentemente quando De Leon apareceu em fotos da frente ampla em apoio a Lula e Juliana Brizola sem reproduzir o tradicional gesto do “L”. Vimos também quando o print da sua esposa — criticando a proposta do fim da escala 6×1 com um “preparem os bolsos e façam o…” — circulou nos grupos de WhatsApp. Por mais que De Leon guarde razão ao defender que a esposa não é figura pública e tem opiniões próprias, a política não opera por critérios de justiça; opera por símbolos. E a maldade política logo construiu o enquadramento: trabalhismo de um lado, empresariado de outro. O algoritmo agradece.

O “L” não feito, somado ao print da esposa e à memória de sua chapa ‘MarxDonalds’ com Marco Alba em 2024, alimenta justamente a percepção de cálculo excessivamente visível. De Leon já transitou da puberdade simpatizante do PSOL para o PDT, virou secretário-adjunto no governo Leite — a quem antes criticava — e agora volta ao tom de oposição firme contra o prefeito Zaffa.

Quem aparece mais, apanha mais. É uma das poucas leis universais da política. A questão é que o eleitor costuma tolerar reposicionamentos, mas costuma punir a sensação de oportunismo ideológico. Nesse aspecto, a política tem algo de I-Juca-Pirama: ao tentar agradar a muitos campos simultaneamente, corre-se o risco de restar, como no verso de Gonçalves Dias, “rejeitado da Morte na guerra e dos Homens na paz”.

Ainda há uma anedota russa que resume bem o perigo de tentar dizer a cada eleitor exatamente o que ele quer ouvir. Conta-se que um camarada saiu do gabinete de Stalin murmurando: “Que canalha bigodudo…”. Beria ouviu e relatou. Chamado de volta por Stalin para explicar a quem se referia, o camarada respondeu: “A Hitler, é claro”. Stalin então olhou para Beria: “E a quem você se referia, camarada Beria?”.

De Leon parece querer ser o camarada da anedota. O risco é terminar como Beria. Porque chega um momento em que o eleitor exige nitidez. E tem eleitor que é como Stalin: mata. Na urna, claro.

Ao fim, mostrando a Gravataí que quer mostrar, De Leon apresenta sua candidatura como uma espécie de Google AdSense do voto. Suas propostas, para além do ‘atirei o pau no Zaffa’, veremos nos próximos Instas.

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade