A ameaça de fechamento da fábrica da Prometeon em Gravataí desencadeou uma mobilização entre Prefeitura, governo do Rio Grande do Sul, sindicato dos trabalhadores e representantes do setor para tentar preservar a operação e os empregos na unidade. A fábrica, que tem mais de cinco décadas de história no município e emprega cerca de 1.360 trabalhadores, enfrenta perda de competitividade e redução do ritmo de produção. A possibilidade de encerramento da operação foi comunicada ao prefeito Luiz Zaffalon.
Na tarde desta sexta-feira (4), o secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Leandro Evaldt, esteve em Gravataí para detalhar ao prefeito e ao assessor jurídico do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Artefatos de Borracha de Gravataí (Stiab), Moacir Bitencourt, as negociações conduzidas pelo governo gaúcho com a empresa. A reunião foi intermediada pelo ex-deputado estadual Dimas Costa, o “embaixador” do governador Eduardo Leite na região.
Segundo Evaldt, o governo estadual deverá divulgar ainda nesta sexta-feira uma nota com detalhes das negociações.
Pelo que o Seguinte: apurou, uma das frentes de atuação do governo estadual envolve compensações tributárias para reduzir os efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, que elevou a pressão sobre as exportações brasileiras. Segundo as informações apresentadas na reunião, o governo gaúcho estuda medidas seguindo modelo adotado pelo governo de São Paulo, de Tarcísio de Freitas, em negociações com fabricantes de pneus instalados naquele estado.
Outra frente envolve uma articulação com o governo federal para buscar mecanismos de proteção da indústria nacional diante do avanço das importações de pneus.
O prefeito Luiz Zaffalon também informou ao Seguinte: que o município pretende conceder incentivos de IPTU como parte do esforço para manter a operação da empresa em Gravataí. “Se não agirmos em conjunto, pode fechar”, alertou o prefeito.
Além dos incentivos municipais, Zaffa pretende atuar politicamente para tentar acelerar a aprovação de medidas contra o chamado dumping, prática de comércio internacional que ocorre quando um produto é exportado por preço inferior ao seu valor normal de referência no mercado de origem.
O prefeito afirmou que já busca contato com o deputado federal Afonso Hamm, coordenador da bancada gaúcha no Congresso, para reunir parlamentares, representantes da Prometeon e o sindicato. A intenção é discutir um projeto de lei que tramita no Congresso desde 2023 e prevê medidas contra a entrada de produtos no país abaixo do preço de custo.
Segundo Zaffa, pneus provenientes de países como China, Índia e Vietnã estariam chegando ao mercado brasileiro por valores inferiores ao custo da matéria-prima utilizada pela indústria nacional.
O tema ganhou força diante da situação enfrentada pelo setor. Fabricantes nacionais afirmam que a entrada de pneus asiáticos tem pressionado o mercado brasileiro e levantam suspeitas de dumping, apesar de representantes dos importadores contestarem as acusações e afirmarem que não há práticas desleais de comércio.
A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) também já apresentou ao governo federal um conjunto de propostas para tentar conter o avanço das importações.
Sindicato tenta tranquilizar trabalhadores
A mobilização também chegou ao chão de fábrica. O assessor jurídico do Stiab, Moacir Bitencourt, afirmou ao Seguinte: que não há, neste momento, risco de fechamento da unidade no curto prazo e que as medidas possíveis estão sendo tomadas. “A notícia saiu um pouco truncada”, afirmou.
Após a reunião com o governo estadual, Bitencourt informou o presidente do sindicato, Flávio de Quadros, que deverá organizar uma campanha de informação destinada aos trabalhadores. A preocupação é evitar que a circulação de informações sobre um eventual fechamento provoque tensão entre os funcionários. “A gente busca tranquilizar. Teme até acidentes, com as pessoas nervosas”, disse Bitencourt. Ele lembrou que o fechamento da antiga fábrica da Pirelli, em 2021, ainda permanece na memória dos trabalhadores e da comunidade.
O sindicato também afirma que já levou a discussão ao governo federal, inclusive ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na tentativa de buscar medidas de proteção para a cadeia nacional de pneus. Segundo Bitencourt, após a ameaça de greve de caminhoneiros, o governo Bolsonaro zerou alíquotas de importação de pneus, o que, na avaliação do setor, provocou um desequilíbrio no mercado nacional. As articulações posteriores da cadeia pneumática teriam recuperado cerca de 15% dos prejuízos.
A fábrica de Gravataí atualmente trabalha com cerca de 70% da capacidade instalada, segundo informações apuradas pelo Seguinte:. A situação faz parte de um cenário mais amplo enfrentado pela indústria de pneus no país. Fabricantes nacionais fecharam o primeiro trimestre de 2026 com queda nas vendas domésticas, enquanto os pneus importados passaram a ocupar parcela maior do mercado de reposição. A unidade de Gravataí produz pneus destinados a veículos pesados, incluindo caminhões, ônibus e máquinas agrícolas.
O ex-deputado Dimas Costa também destacou a importância da mobilização após ser acionado pelo sindicato. “Notícias assim sempre assustam, mas sabia que o governador Eduardo Leite não faltaria com Gravataí, como nunca faltou. O Estado está fazendo sua parte”, afirmou ao Seguinte:.
Para o prefeito de Gravataí, a defesa da permanência da Prometeon também tem um componente histórico para Gravataí. A empresa surgiu da antiga operação da Pirelli e mantém uma unidade no município há mais de 50 anos. Para Zaffa, a fábrica está ligada à história de várias gerações de trabalhadores. “Faz parte da vida de Gravataí. Gerações, milhares de gravataienses já trabalharam ou trabalham ali”, afirmou o prefeito.
Ao fim, por enquanto não há anúncio oficial de fechamento da fábrica de Gravataí. O que existe é uma operação sob pressão, com redução da capacidade produtiva e uma mobilização envolvendo município, Estado, sindicato, empresa e governo federal para tentar evitar que a ameaça se transforme em decisão definitiva.






