RAFAEL MARTINELLI

UPA Zona Norte e mais: com R$ 80 milhões de financiamento, Jussara segue fórmula que deu certo em Gravataí — e a ‘ideologia dos números’

A prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava, repete uma fórmula que deu certo, ao menos por um período, em Gravataí ao enviar e ver aprovado pela Câmara de Vereadores, por unanimidade nesta terça-feira (20), o projeto de financiamento de R$ 80 milhões junto à Caixa Econômica Federal. Com votos tanto da base governista quanto da oposição, a operação de crédito autorizada via Lei número 5493/2026 e detalhada pelo Projeto de Lei número 5323/2026 projeta investimentos em infraestrutura, educação, saúde e sustentabilidade ainda em 2026.

Após um primeiro governo (2012-2016) focado num implacável ajuste de contas e no pagamento de mais de R$ 200 milhões em débitos — apelidei Marco Alba de ‘exterminador de dívidas’ —, o ex-prefeito de Gravataí conseguiu contrair um financiamento de cerca de R$ 50 milhões.

Entre as entregas, destacou-se a construção das pontes do Parque dos Anjos: uma obra que hoje pode parecer pequena, pontual, orçada na época em torno de R$ 5 milhões (o equivalente a cerca de R$ 7 milhões corrigidos pela inflação), mas que funcionou como um poderoso símbolo de integração urbana, além de um vasto pacote de melhorias viárias.

Marco também articulou a implantação da primeira UPA de Gravataí, na Parada 74 da Avenida Dorival de Oliveira, e entregou a segunda unidade na ERS-020. O resultado dessa arquitetura de entregas? Encerrou o segundo mandato com índices de aprovação próximos aos 80% e consolidou-se como o ‘Grande Eleitor’ de Luiz Zaffalon — então um outsider da política: já tinha ocupado altos cargos públicos, mas nunca enfrentado o teste das urnas.

Zaffa, por sua vez, abriu espaço fiscal com uma reforma da previdência e alavancou cerca de R$ 250 milhões em financiamentos para transformar a infraestrutura do município. A estratégia garantiu-lhe a reeleição com 51,3% dos votos válidos, um desempenho que liquidaria a fatura logo no primeiro turno (caso o município tivesse tal formato), mesmo enfrentando nomes históricos da política local como o próprio Marco Alba e Daniel Bordignon.

Em Cachoeirinha, embora a prefeita tenha autorização para contrair até R$ 200 milhões, o teto estipulado para esta etapa inicial é de R$ 80 milhões. Caso a administração consiga transitar com competência do papel para a realidade — tirando os projetos dos estudos e entregando as obras concluídas —, Jussara pavimentará o caminho para consolidar-se como favorita na disputa pela reeleição em 2028, repetindo o roteiro de sucesso de seus vizinhos.

O mapa dos investimentos

O montante de R$ 80 milhões aprovado pelos vereadores está fatiado em frentes estratégicas detalhadas no projeto de lei da Prefeitura. Do total da operação de crédito, R$ 59 milhões provêm de recursos livres voltados a programas gerais, enquanto fatias específicas são carimbadas para a educação (R$ 15 milhões) e para a saúde (R$ 6 milhões).

O montante de R$ 80 milhões aprovado pelos vereadores está fatiado em frentes estratégicas detalhadas no projeto de lei da Prefeitura. Do total da operação de crédito, R$ 59 milhões provêm de recursos livres voltados a programas gerais, enquanto fatias específicas são carimbadas para a educação (R$ 15 milhões) e para a saúde (R$ 6 milhões).

Na área de infraestrutura, prevenção de cheias e saneamento, o maior volume de recursos será direcionado à mobilidade e drenagem urbanas. São R$ 15 milhões destinados à melhoria viária de ruas centrais e vias prioritárias que carecem de asfalto de qualidade, respondendo a demandas históricas das secretarias de Mobilidade Urbana (SMMOB) e de Infraestrutura e Serviços Urbanos (Smisu). Paralelamente, R$ 13 milhões serão aplicados pelo Fundo Municipal de Saneamento Básico na ampliação da infraestrutura de esgotos e redes de drenagem, contemplando a substituição célere de canalizações em áreas afetadas pelas enchentes. O pacote de infraestrutura ainda reserva R$ 500 mil para a manutenção do georreferenciamento — ferramenta cadastral voltada a impulsionar a arrecadação de IPTU — e R$ 2 milhões para manter as atividades de elaboração de projetos executivos.

No pilar de sustentabilidade e eficiência energética, o Fundo Municipal de Iluminação Pública aplicará R$ 15 milhões na implantação de sistemas de energia fotovoltaica nos prédios públicos municipais. Com essa medida, a projeção da prefeitura é gerar uma economia de R$ 6 milhões por ano (cerca de R$ 500 mil mensais), configurando um investimento de longo prazo com retorno garantido ao caixa do município.

A educação receberá um aporte expressivo de R$ 15 milhões para obras na rede municipal de ensino, com intervenções divididas estruturalmente entre educação infantil, ensino fundamental, tempo integral e novos complexos escolares no bairro Campo Belo. Na Educação Infantil, haverá ampliações nas EMEIs Ema Borges, Marli Carmen e Granjinha (cada uma com 4 novas salas e 1 banheiro), além da ECEI Semear Rondon (2 salas e 1 banheiro). No Ensino Fundamental, as melhorias contemplam a EMEB Fidel Zanchetta (2 salas, 1 banheiro, refeitório e cozinha), EMEB Alzira (4 salas e 2 banheiros), EMEB José Victor (4 salas e 1 banheiro) e EMEB Dagmar (4 salas em dois pavimentos e 2 banheiros). As EMEBs Ivo Rech e Osmar Stuart serão preparadas para a Educação em Tempo Integral, recebendo 2 salas e 1 banheiro cada. O planejamento encerra-se com a previsão de dois novos polos no bairro Campo Belo: uma nova EMEI para 352 alunos e uma EMEB com capacidade para 1.150 estudantes.

Na saúde, o grande destaque é a tão sonhada UPA da Zona Norte. Com um aporte de R$ 6 milhões na rubrica de construção e reforma de unidades de saúde, o município viabiliza a instalação da segunda Unidade de Pronto Atendimento da cidade, fixada estrategicamente na região norte para desafogar a rede de atendimento regional.

Por fim, no setor de cultura, esporte e lazer, o projeto destina R$ 5 milhões para a estruturação de espaços públicos. O foco principal será a repaginada e revitalização do Parcão Municipal, um ponto de encontro tradicional da comunidade que há anos não recebia investimentos profundos de infraestrutura por parte das gestões anteriores.

A ‘ideologia dos números’ — e o imponderável

Se a engenharia financeira tem o condão de alavancar popularidade, o sinal de alerta, contudo, precisa permanecer ligado. O que exige atenção por parte da administração de Jussara é o controle sobre o endividamento do município. A autorização para operação de crédito é sinal de saúde financeira. Mas Cachoeirinha não é uma ilha.

Em Gravataí, por exemplo, a tempestade perfeita que tirou o fluxo de caixa do município inclui fatores internos de gestão, mas principalmente variações imponderáveis, como pandemia e enchente, que fizeram a GM, motor da economia, ficar mais parada do que funcionando. Hoje o município enfrenta um ajuste fiscal que chamo do ‘Zaffa Mãos de Tesoura’.

Ao fim, “ninguém come planilha ou PIB”, como dizia a economista Maria da Conceição Tavares. Mas Jussara precisa restar atenta à ‘ideologia dos números’. O mundo está em colapso. Não se trata de “se”, mas “quando” o ‘imponderável’ nos visitará novamente.

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