Sei que tenho escrito menos por aqui neste ano. Mas tem sido um período de muitas reflexões e novas descobertas. Entender quem se é pode ser um caminho doloroso, mas também é necessário e confortante. Talvez não seja por acaso que os monstros da literatura estejam me acompanhando nesse processo…
A série Entrevista com o Vampiro tem sido meu hiperfoco há semanas (ou meses já?), não só pelas atuações incríveis do Jacob Anderson, do Sam Reid e do Assad Zaman, ou da produção de encher os olhos, mas por todas as camadas dessa história de vampiros cheios de traumas, com medo da solidão. Comecei também a adentrar nos livros da Anne Rice e quero ler toda a coleção das Crônicas Vampirescas. Mas sei que ela escreveu o primeiro livro para lidar com a dor da perda da filha. Seus personagens podem ser monstros e imortais, mas lidam com conflitos humanos. São espelhos onde podemos nos ver.
Também tenho conhecido melhor a história do Frankenstein de Mary Shelley. A querida Elmira trouxe a proposta de um clube de leitura de clássicos góticos na biblioteca pública, e em setembro fizemos o primeiro encontro, apresentando o livro de Shelley como a primeira obra a ser discutida. A leitura não me capturou de imediato, então procurei o filme de Guillermo del Toro, e aí fui tão cativada pela criatura quanto a jovem Elizabeth. Devorei o livro logo na sequência.
Entendi como uma história sobre preconceito. A criatura quer conviver com as pessoas, ter amigos, trocar afeto. Mas a aparência dela chega antes que possa mostrar sua índole. Ela é recebida como um monstro e lida como um perigo apenas por suas cicatrizes e seu tamanho. É um ser que não queria ser mau… mas a violência nasce como reação ao desprezo que sofre, inclusive de seu criador, e da solidão de quem não é aceito em lugar nenhum.
“Sou mau porque sou miserável. Pois não sou rejeitado e odiado por toda a humanidade?”, a criatura justifica quando reencontra Victor Frankenstein, seu criador. Ela conta como procurou fazer o bem e só recebeu agressão de volta, sem chance de ao menos se explicar. Seu físico fora do comum é visto imediatamente como de um monstro. Então a criatura pede a Victor que faça uma companheira, com características semelhantes, para que tenha pelo menos um ser que não a rejeite, e que assim a solidão não a envenene. “Em toda parte, vejo a bem-aventurança, da qual sou o único irrevogavelmente excluído. Fui caridoso e bondoso; a miséria fez de mim um inimigo. Faz-me feliz, e voltarei a ser virtuoso.”
Não vou dizer se Victor atende ao pedido, a resposta está no livro. Mas a história é narrada pelo cientista-criador, que não economiza em chamar sua criação de monstro, demônio, desgraçado… Ele rejeita a própria criação porque o resultado é feio a seus olhos. E quem define o que é feio ou bonito, ou a aparência ideal? Victor escolhe fazer uma criatura de mais de dois metros de altura, e depois acha seu tamanho monstruoso. Seleciona as melhores partes de cadáveres para construir um corpo ideal, mas o abomina quando percebe que as partes perfeitas, quando unidas, não ficam harmoniosas. Ele descreve a pele amarelada, os cabelos lisos e escuros, os olhos aguados e a pele enrugada. As cicatrizes não são mencionadas, só imaginamos pelo processo de construção da criatura. Nada nessa descrição física explica o horror que ela causa nas pessoas. Se a criatura é vista como um monstro ou ameaça, isso diz mais sobre quem a vê do que sobre ela. O monstro está nos olhos e no coração de quem a encontra.
Lestat de Lioncourt, o personagem principal da série de livros de Anne Rice, diz algumas vezes que os vampiros são monstros, assassinos em série. “O mal é um ponto de vista”, ele explica a Louis, que não gosta de matar pessoas para se alimentar de sangue. Já Lestat aprecia a caça, trata como uma arte. Eles precisam de sangue vivo para continuar imortais, então matar faz parte de ser um vampiro. Na série, que avança a história para o nosso tempo, Louis encontrou formas de se alimentar sem matar. Mas os vampiros não seguem as mesmas regras morais dos humanos, então é inútil analisar sua monstruosidade pelos critérios a que estamos acostumados.
Algo muito interessante nos principais vampiros de Anne Rice (além de Lestat e Louis, temos Armand), é que eles trazem várias camadas de traumas de suas vidas humanas e exemplificam com força a frase “pessoas machucadas, machucam”. Claro que trauma não é justificativa para maldade, mas como alguém que foi tratado como objeto desde a infância, sendo vendido e usado, vai saber se relacionar de uma forma saudável com alguém? Armand era um garoto quebrado e desumanizado que recebeu o dom das trevas de um vampiro experiente. É compreensível que ele use seus poderes da pior forma.
Na série Entrevista com o Vampiro, Louis é um homem negro na Nova Orleans de 1910. Ele não consegue enxergar a transformação como um presente, porque como Louis e Lestat se misturam aos humanos, o racismo continua fazendo parte do seu cotidiano. “Pegue um homem negro na América. Faça dele um vampiro. Dê a ele aquelas capas, aquelas presas, aquele castelo… e você ainda terá um homem negro na América”, ele pontua. Vampiros podem ler mentes, então além de ouvir frases racistas, ele agora sabe o que os poderosos da cidade pensam a seu respeito. E quanto mais raiva ele sente, mais aumenta sua sede de sangue. Junte isso aos poderes vampíricos, à imortalidade… Louis é o vampiro mais sensível e ligado à humanidade no universo de Rice, mas não lhe faltam motivos para deixar o lado monstruoso vir à tona.
Quem é o verdadeiro monstro nessas histórias? E na vida real? Muitas vezes somos nós mesmos que machucamos porque estamos machucados. Ou pessoas que apegam a ideias pré-concebidas (e geralmente frágeis) para não dar a chance de conhecer alguém que é bem diferente delas. Como lidamos com quem não se encaixa no que foi convencionado como “normal”? Mocinhos e vilões só existem nos contos de fada. No mundo real (e nas boas ficções) estamos mais para “O médico e o monstro”, com os impulsos bons e maus disputando espaço dentro de nós. Aliás, essa será minha próxima leitura, porque é o livro de novembro do Clube de Leitura Gótica.
Gosto daquela história do povo cherokee onde um velho ancião conta que temos dois lobos dentro de nós em constante batalha: um mau e um bom. E quando é questionado sobre quem vence a luta, o ancião responde: “Aquele que você alimentar”. Então podemos dizer que todos temos um monstro dentro de si, mas trazê-lo à tona depende muito das nossas escolhas. Às vezes pode ser uma reação a uma dor, como um grito de quem bate numa quina. Mas não precisa tornar-se uma forma de lidar com o mundo.





