Na condição de pastor orgânico, denúncia do mercado de apostas e combate à ludopatia. Compartilhamos o artigo de Valdemar Figueiredo (Dema), pastor idealizador e coordenador do Observatório da Cena Política Evangélica pelo Instituto Mosaico, Pós-doutorando em sociologia, Doutor em ciência política e em teologia, publicado pelo ICL Notícias
Os sites e aplicativos das Bets (plataformas virtuais de apostas) saíram oficialmente do ar em 6 de outubro de 2026. Que os pastores se pronunciem contra as tentativas de retorno dessas pragas e contra as maldições que espalham.
Não se trata de uma questão política que nos separa entre os contra e os a favor do governo federal. Deveria ser óbvio que crente não joga por princípio e responsabilidade. Contudo, o silêncio dos púlpitos sobre o tema nos atordoa. Demonstra falta de cuidado pastoral e irresponsabilidade social.
O jogo de azar está disseminado na sociedade brasileira, e as suas maléficas consequências estão evidentes. Importante ressaltar que os prejuízos que atingem as famílias também impactam as igrejas locais. Tratar esse problema de frente nos púlpitos é urgente. Não no tom da advertência moral que promove a culpa, mas na brandura pastoral que promove a cura.
A ludopatia (dependência de jogos) é considerada o terceiro vício mais comum no país, atrás apenas do álcool e do tabaco. O crente que não fuma e não bebe pode jogar? Definitivamente, não lido bem com os estereótipos que simplificam a identidade do ser evangélico. Contudo, a questão aqui não é sugerir uma lista de proibições, mas apenas perguntar pela coerência.
Acho que, dada a dimensão do problema, a sociedade brasileira está esperando mais de nós, pastores evangélicos, no que se refere a um discurso mais firme contra a indústria do jogo de azar. Não é brincadeira. A resistência não virá da Bancada Evangélica na Câmara dos Deputados. Muito menos dos pastores mercadores que pegam carona em jatinhos de banqueiros. A resistência virá de pastores que lidam no dia a dia com gente comum, o tal do pastor que tem cheiro de ovelha e é gente como a gente!
A advertência de Jesus
No final do Sermão do Monte, Jesus tece uma comparação. Contrapõe duas atitudes éticas. Quem lida com a natureza pode enfrentar intempéries. O prudente se antecipa aos fatos, enquanto o insensato se lança à emoção de hoje. O prudente constrói a casa sobre a rocha, o insensato privilegia o deslumbre da beira-mar. Sabemos quais foram os desfechos.
No elogio à prudência, Jesus adverte que temos que ter responsabilidade. Nossas escolhas geram consequências das quais não podemos nos desvencilhar.
Sob o ponto de vista ético, podemos relacionar o elogio de Jesus à prudência com a censura ao vício do jogo. Jamais alguém dirá que envolver-se com apostas é algo típico de pessoas prudentes. Qualquer nível de dependência do jogo revela que, em algum momento, a pessoa foi insensata, por todos os malefícios que causa a si própria e às pessoas do seu entorno íntimo.
Os jogos de azar trazem malefícios e geram compulsões. As pessoas viciadas perdem o controle e se veem no espelho como insensatas. O vício do jogo compromete a saúde mental, financeira e familiar.
Com a insensatez, a casa cai. O jogo de azar vai provocar prejuízos, sempre. O vencedor de hoje vai perder a mão amanhã. Antes de perder a mão, vai perder o juízo. Quem perde o juízo compromete o discernimento e torna-se insensato.
A advertência de Jesus é que, diante das circunstâncias da vida, devemos buscar a sensatez e não agir pelo impulso da emoção.





