A Cruz Missioneira de Gravataí mudou de lugar. Saiu da Avenida Centenário e passou a ocupar a Praça Dom Feliciano, o espaço público mais antigo da cidade. Antes de se tornar uma polêmica política, vamos aos fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.
A decisão está longe de representar qualquer apagamento histórico — muito menos da iniciativa original do ex-prefeito Marco Alba, responsável pela instalação do monumento em 2019.
Ao contrário: a realocação reforça o sentido histórico, simbólico e educativo da cruz, aprofundando o diálogo com as origens da Aldeia dos Anjos.
A mudança foi realizada pela Prefeitura com base em estudo técnico elaborado pelo Instituto Ernesto Fonseca, assinado por historiador, e aprovado também pelo Grupo Especial de Trabalho do Patrimônio Histórico, Cultural e Arquitetônico do Município.
O novo local foi escolhido justamente por seu peso histórico: a Praça Dom Feliciano marcou a chegada dos primeiros colonizadores no século XVIII e recebeu milhares de guaranis sobreviventes das Guerras Guaraníticas (1753–1756), que se estabeleceram na fundação da Aldeia.
A ideia de repensar a localização do monumento surgiu a partir de um vídeo do historiador Amon Costa, que viralizou nas redes sociais e passou a circular intensamente em grupos de WhatsApp — inclusive chegando ao prefeito Luiz Zaffalon.
A partir daí, Zaffa solicitou um estudo técnico aprofundado, que fundamentasse qualquer eventual mudança.
A Cruz permanece a mesma — o que muda é o contexto urbano e histórico que agora a envolve.
Para o historiador da Secretaria Municipal de Cultura, Carlos Albani, a nova posição amplia o alcance pedagógico do monumento.
– O circuito histórico-cultural, que já funciona como uma aula de história a céu aberto pelas ruas e prédios do Centro, ganha agora mais um grande monumento, em uma localização privilegiada – explica.
A cruz passa a dialogar diretamente com outros marcos históricos, fortalecendo ações educativas e a leitura integrada da formação de Gravataí.
Um símbolo que vem de longe
Instalada originalmente em abril de 2019, quando Gravataí comemorava 256 anos de seus primeiros registros históricos, a Cruz Missioneira foi concebida como um marco de resgate da presença guarani na formação do município.
À época, a iniciativa do então prefeito Marco Alba foi acompanhada do lançamento da revista e do documentário Gravataí Missioneira – Origens, reunindo historiadores, artistas, cineastas e pesquisadores.
A obra — criada pelo artista Hermes José Vega Costa, o Ferreiro Vega — tem cerca de quatro metros de altura, é confeccionada em ferro e representa a cruz de dois braços trazida ao Rio Grande do Sul pelos padres jesuítas a partir de 1626. O segundo braço simboliza a inscrição INRI, associada à crucificação de Jesus Cristo.
Na ocasião da instalação, Marco Alba destacou o resgate do legado missioneiro como elemento estruturante da identidade local. Nada disso foi revogado, negado ou silenciado agora.
Não é um símbolo de guerra política
Reputo ao optar pela realocação, o governo Zaffa reafirma — e não substitui — o gesto de 2019, por mais que seja notório o traumático rompimento políticos entre o prefeito e o ex-prefeito, que foi de seu ‘Grande Eleitor’ para adversário na última eleição, naquela que batizei III Guerra Política de Gravataí (Zaffa x Alba, pós Stasinski x Bordignon e Abílio x Oliveiras).
A cruz segue como homenagem aos povos guaranis e aos missionários jesuítas. A diferença é que, agora, o monumento está inserido no coração histórico da cidade, onde sua simbologia encontra eco direto no território.
Não há apagamento. Há continuidade.
E, sobretudo, há método.
O mesmo método técnico-histórico usado por Marco Alba para, em 2016, alterar a data na qual era comemorado o aniversário de Gravataí.
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