RAFAEL MARTINELLI

Antes da polêmica política, os fatos: por que a Cruz Missioneira mudou de lugar em Gravataí

A Cruz Missioneira de Gravataí mudou de lugar. Saiu da Avenida Centenário e passou a ocupar a Praça Dom Feliciano, o espaço público mais antigo da cidade. Antes de se tornar uma polêmica política, vamos aos fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.

A decisão está longe de representar qualquer apagamento histórico — muito menos da iniciativa original do ex-prefeito Marco Alba, responsável pela instalação do monumento em 2019.

Ao contrário: a realocação reforça o sentido histórico, simbólico e educativo da cruz, aprofundando o diálogo com as origens da Aldeia dos Anjos.

A mudança foi realizada pela Prefeitura com base em estudo técnico elaborado pelo Instituto Ernesto Fonseca, assinado por historiador, e aprovado também pelo Grupo Especial de Trabalho do Patrimônio Histórico, Cultural e Arquitetônico do Município.

O novo local foi escolhido justamente por seu peso histórico: a Praça Dom Feliciano marcou a chegada dos primeiros colonizadores no século XVIII e recebeu milhares de guaranis sobreviventes das Guerras Guaraníticas (1753–1756), que se estabeleceram na fundação da Aldeia.

A ideia de repensar a localização do monumento surgiu a partir de um vídeo do historiador Amon Costa, que viralizou nas redes sociais e passou a circular intensamente em grupos de WhatsApp — inclusive chegando ao prefeito Luiz Zaffalon.

A partir daí, Zaffa solicitou um estudo técnico aprofundado, que fundamentasse qualquer eventual mudança.

A Cruz permanece a mesma — o que muda é o contexto urbano e histórico que agora a envolve.

Para o historiador da Secretaria Municipal de Cultura, Carlos Albani, a nova posição amplia o alcance pedagógico do monumento.

– O circuito histórico-cultural, que já funciona como uma aula de história a céu aberto pelas ruas e prédios do Centro, ganha agora mais um grande monumento, em uma localização privilegiada – explica.

A cruz passa a dialogar diretamente com outros marcos históricos, fortalecendo ações educativas e a leitura integrada da formação de Gravataí.

Um símbolo que vem de longe

Instalada originalmente em abril de 2019, quando Gravataí comemorava 256 anos de seus primeiros registros históricos, a Cruz Missioneira foi concebida como um marco de resgate da presença guarani na formação do município.

À época, a iniciativa do então prefeito Marco Alba foi acompanhada do lançamento da revista e do documentário Gravataí Missioneira – Origens, reunindo historiadores, artistas, cineastas e pesquisadores.

A obra — criada pelo artista Hermes José Vega Costa, o Ferreiro Vega — tem cerca de quatro metros de altura, é confeccionada em ferro e representa a cruz de dois braços trazida ao Rio Grande do Sul pelos padres jesuítas a partir de 1626. O segundo braço simboliza a inscrição INRI, associada à crucificação de Jesus Cristo.

Na ocasião da instalação, Marco Alba destacou o resgate do legado missioneiro como elemento estruturante da identidade local. Nada disso foi revogado, negado ou silenciado agora.

Não é um símbolo de guerra política

Reputo ao optar pela realocação, o governo Zaffa reafirma — e não substitui — o gesto de 2019, por mais que seja notório o traumático rompimento políticos entre o prefeito e o ex-prefeito, que foi de seu ‘Grande Eleitor’ para adversário na última eleição, naquela que batizei III Guerra Política de Gravataí (Zaffa x Alba, pós Stasinski x Bordignon e Abílio x Oliveiras).

A cruz segue como homenagem aos povos guaranis e aos missionários jesuítas. A diferença é que, agora, o monumento está inserido no coração histórico da cidade, onde sua simbologia encontra eco direto no território.

Não há apagamento. Há continuidade.

E, sobretudo, há método.

O mesmo método técnico-histórico usado por Marco Alba para, em 2016, alterar a data na qual era comemorado o aniversário de Gravataí.


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