A Câmara de Vereadores de Cachoeirinha divulgou, na tarde deste sábado (20), uma nota oficial para demarcar posição institucional após o depoimento do prefeito Cristian Wasem (MDB) à Comissão Processante do Impeachment 2.0.
O texto — redigido em tom técnico, protocolar e visivelmente cuidadoso — busca separar o discurso político adotado pelo chefe do Executivo durante a oitiva do procedimento formal conduzido pelo Legislativo.
Em síntese, a posição da Câmara resta clara: houve ataque retórico do prefeito, mas não haverá resposta política — apenas cumprimento do rito legal.
Segundo a nota, a oitiva ocorreu “com estrita observância ao rito previsto no Decreto-Lei nº 201/67”, assegurando contraditório, ampla defesa e devido processo legal. A Câmara também faz questão de registrar que o ato transcorreu “em ambiente de absoluto respeito institucional”, tanto por parte da Comissão Processante quanto dos vereadores.
A ressalva aparece no parágrafo seguinte.
Sem citar diretamente Cristian Wasem, o Legislativo afirma que, durante sua manifestação, o chefe do Executivo “adotou discurso de cunho político”, com críticas e ataques verbais ao Parlamento e aos vereadores, inclusive qualificando o processo de forma “incompatível com a natureza legal e institucional do ato”.
Ainda assim, sublinha a nota, a Comissão Processante optou por não reagir.
“A opção institucional foi preservar o rito legal, garantir integralmente o direito de defesa e assegurar que o procedimento transcorresse sem interrupções indevidas ou escaladas retóricas”, diz o texto.
Na prática, a Câmara sinaliza que não escorregou — e não escorregará — na ‘casca de banana’ do embate discursivo proposto pelo prefeito, ainda que o depoimento tenha extrapolado, em vários momentos, o campo técnico e avançado para o político.
Bastidores: prefeito ataca, Câmara silencia — de propósito
Nos bastidores do Legislativo, a leitura é convergente.
Segundo relatos colhidos pelo Seguinte:, e trocas de mensagens a que o colunista teve acesso, o comportamento do prefeito já era esperado — e a reação contida da Comissão foi deliberada.
A avaliação predominante é de que Cristian escolheu transformar o depoimento em um ato político, reforçando a narrativa de perseguição e de “golpe”, enquanto a Câmara fez o movimento oposto: baixou o tom, segurou o rito e deixou o discurso falar sozinho.
Um ponto específico causou desconforto interno.
A declaração do prefeito de que teria “fechado a porta para a corrupção” foi interpretada, nos bastidores, como uma frase politicamente forte, porém institucionalmente problemática.
Para vereadores, a afirmação — feita sem contextualização ou denúncias sobre nomes — sugere, ainda que de forma indireta, “que tal porta teria estado aberta em algum momento”, o que “colide com os princípios da moralidade administrativa exigidos do cargo”.
Mesmo assim, não houve reação pública.
A orientação parece obvia: a Comissão Processante não julga retórica, não rebate narrativa e não responde provocações. Julga atos, documentos, condutas — dentro dos limites do Decreto-Lei nº 201/67.
Essa postura foi descrita por um político como “fria, técnica e estratégica”.
Instrução encerrada, julgamento no horizonte
A nota oficial também confirma o passo seguinte do processo.
Encerradas as oitivas, a Comissão Processante deliberou pela abertura do prazo legal para apresentação das alegações finais da defesa, com início na próxima segunda-feira (22). Trata-se do último ato da fase de instrução.
Cumprido esse prazo, a Comissão elaborará o relatório final — pela procedência ou improcedência das acusações — e o submeterá à presidência da Câmara, que deverá marcar a sessão de julgamento.
É nessa sessão — cuja projeção é acontecer até 15 de janeiro — que o processo deixa definitivamente o campo técnico e entra no político: leitura dos relatórios, manifestações dos vereadores, sustentações orais das defesas e, ao fim, a votação que pode cassar os mandatos do prefeito Cristian Wasem e do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP), tornando ambos inelegíveis por oito anos.
LEIA TAMBÉM






