JEANE BORDIGNON

Autismo “virou moda”?

Claro que você conhece pelo menos uma pessoa autista… Quem não conhece, hoje em dia? Há quem diga que há excesso de laudos, e que “ser autista” virou modismo. Que “antigamente não existia isso”. Será mesmo? 

Vamos começar pelo fato de que nascer já era um desafio. Até não muitas décadas atrás não existia pré-natal. Muitas gestações “não vingavam” e logo já vinha a próxima. Era natural que toda família tivesse mais de uma dezena de filhos e mais uns tantos “anjinhos”. Porque nascer também não era garantia de crescer. Vacinas ainda eram raras e as taxas de mortalidade infantil, altíssimas. Logo, os bebês de saúde mais frágil não resistiam aos primeiros meses de vida, às vezes nem às primeiras semanas.

Hoje em dia, a gente não deixa mais a natureza decidir quais gestações serão viáveis. A medicina tenta controlar todos os fatores, mas a genética segue indomável. Cria mutações e novas síndromes. Ou seriam novas formas de processamento cerebral? Outras formas de sentir o mundo? Tem uma frase de Krishnamurti que gosto muito de citar: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”. Será mesmo que os “doentes” são aqueles que não conseguem seguir os padrões construídos socialmente?

Outro ponto: pessoas com transtornos mentais sempre existiram. Mas a gente não via andando nas ruas, porque quem tinha possibilidade enviava para uma instituição, um “hospício”, um “manicômio”. Era uma vergonha para a família ter um ente “louco”. Se não pudesse ser internada, a pessoa era segregada, mantida num quarto, não convivia em sociedade. Remédios psiquiátricos praticamente não existiam (o primeiro antipsicótico é da década de 50, e só depois surgiu o primeiro antidepressivo). E quando passaram a existir, era mais fácil manter o familiar dopado do que conviver com o “problema”.

Um terceiro ponto é que todo mundo lembra de algum parente que era cheio de manias, que não gostava de barulhos, meio obcecado em determinados interesses, meio antisocial, que se escondia nos eventos familiares… Lembrou de alguém? Pois é, possivelmente essa pessoa conviveu a vida inteira com autismo, em nível 1 de suporte, sem nunca ser diagnosticado.

Ou lembra daquela pessoa que era “cheia de frescura” para comer, só comia certos alimentos, preparados de certos jeitos? Mas naquela época era só frescura, ninguém sabia o que era seletividade alimentar, e que algumas pessoas realmente tem agonia com texturas de alimentos e se sentem mal com cheiros e sabores. 

Ou lembra daquela coleguinha “esquisita” que não conversava com ninguém direito, sempre com olhar enviesado, encolhida, assustada? Naquela época, ela era chamada de bicho-do-mato… mas será que não era uma criança neurodivergente tentando viver entre crianças típicas?

Níveis maiores de suporte também existiam. Mas eram chamados de “retardados”, “excepcionais”, dentre outros termos pejorativos, rotulados como com “dificuldade de aprendizado” ou chamados de burros mesmo, sem dó nem piedade. Já leram o lindo livro “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon? Tistu é uma criança sensível, que não se adapta na escola, sua atenção se esvai diante do modo engessado do ensino tradicional. E o que o professor faz? Devolve Tistu aos pais com uma carta onde diz: “o seu filho não é como todo mundo. Não é possível conservá-lo na escola”.

Claro que ainda estamos bem longe do ideal de inclusão na educação e na sociedade. Mas quantas e quantas crianças foram excluídas como Tistu porque “não são como todo mundo”? Os diversos ou divergentes sempre estiveram por aí. Os estranhos, os inadequados. Os que destoam. E incomodam. A grande diferença é que agora não podem ser mais trancados num quarto ou hospital, tratados como se não existissem. E também que agora as informações correm muito mais rápido. Sabemos muito mais. A medicina e a farmacologia também evoluíram muito, amenizando diversos sintomas e comorbidades. E existem leis que garantem os direitos das pessoas com deficiência e neurodivergência.

Será mesmo que só há um “jeito certo” de existir? Ou temos que, cada vez mais, perceber a diversidade de formas de sentir e reagir ao mundo? E, mais importante ainda: temos que aprender a respeitar o que pode ser apenas diferente de você.

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