Enquanto o Rio Gravataí enfrenta mais uma seca, um projeto educativo navega a favor de sua sobrevivência. A Associação de Preservação da Natureza Vale do Gravataí (APN-VG) lançou o Edital Nº 01/2025, oferecendo 50 vagas para viagens técnicas a bordo do Barco Escola Rio Limpo, destinadas a estudantes de escolas públicas dos nove municípios da região banhados pelo manancial.
As inscrições, abertas de 1º a 31 de março de 2025, são financiadas por uma emenda parlamentar e buscam revelar as duas faces do rio: a de santuário ecológico e a de vítima da urbanização desordenada.
Do banhado à metrópole: um rio em conflito
Com 39 km de extensão, o Gravataí é vital para o abastecimento de 600 mil pessoas e banha nove municípios gaúchos, incluindo Porto Alegre e Canoas. Mas sua fama é ambígua: classificado como o quinto mais poluído do Brasil em 2012 pelo IBGE, 30% de seu curso — especialmente no trecho urbano — recebe 50 toneladas diárias de esgoto não tratado. Já os 70% restantes, próximos à Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande, abrigam uma biodiversidade surpreendente: 80 espécies de peixes, 270 de aves (nove ameaçadas) e até o raro cervo-do-pantanal.
“As viagens mostram um rio que muitos nem imaginavam existir. Criamos um choque de gestão e conhecimento”, afirma Sérgio Cardoso, geólogo e presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia. Desde 2014, o projeto Rio Limpo, que foi patrocinado pela Petrobras entre 2014 e 2016 (data em que o barco chegou), já levou mais de mil pessoas ao Gravataí, desmistificando a ideia de que ele é apenas um curso d’água degradado.
Educação contra a escassez
A crise hídrica atual escancarou problemas históricos: canalizações feitas nos anos 1960 para irrigar arrozais reduziram a capacidade de armazenamento do rio. “Temos uma caixa d’água furada”, explica Cardoso. Para o engenheiro ambiental Iporã Brito Possantti (UFRGS), a solução está em “estocar água na época das chuvas”, algo inviável sem recuperar o Banhado Grande, área crucial para regular o fluxo.
Enquanto propostas técnicas avançam a passos lentos, como o projeto das microbarragens, agora incluso em projetos antienchente e estiagem de R$ 2,9 bilhões do PAC do governo federal, o Barco Escola surge como uma trincheira educativa. O catamarã, com capacidade para 60 pessoas por viagem, oferece aulas práticas sobre fauna, flora e os desafios do saneamento. “Essas experiências transformam alunos em multiplicadores da preservação”, atesta Cardoso.
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Um rio que precisa de reconexão
O navegar do Rio Limpo não esconde as feridas: das 500 mil pessoas que despejam esgoto na zona norte de Porto Alegre à pesca artesanal ameaçada pela poluição no delta do Jacuí. Mas também revela esperança: 66% da bacia são protegidos pela APA Banhado Grande, e o projeto já mudou a relação de comunidades com o rio.
“Vivemos de costas para o Gravataí há décadas. Agora, queremos que as novas gerações o enxerguem como aliado, não como inimigo”, resume Cardoso. Enquanto o edital abre as portas para 3 mil estudantes em 2025, o rio segue à espera de mais que visitas técnicas: de políticas públicas que garantam seu renascimento.
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