RAFAEL MARTINELLI

Dila presidente da Câmara: a votação que uniu base, oposição e até antigos inimigos em Gravataí; o monumento ao ‘herói incômodo’

Dila será o presidente da Câmara de Gravataí em 2026

Candidato do governo Luiz Zaffalon, Dilamar Soares (Podemos) foi eleito na noite desta quinta-feira (18) à presidência da Câmara de Vereadores de Gravataí para a legislatura de 2026. O ‘herói incômodo’ ganha seu monumento — com merecimento, bom para o Parlamento e Gravataí, mas inegavelmente construído a mãos poderosas.

Dila foi eleito com 18 votos entre 21 vereadores, selando o acordo da base que definiu a rotação da presidência da Casa ao longo do mandato de Zaffa e da aliança de 11 partidos que garantiu a vitória nas urnas em 2024: PSDB em 2025, Podemos em 2026, Republicanos em 2027 e PP em 2028.

Compõem a Mesa Diretora ao lado de Dila o vereador Hiago Pacheco (PP) como vice-presidente, Márcia Becker (PSDB) como primeira secretária e Fábio Ávila (Republicanos) como segundo secretário.

A votação foi expressiva não apenas pelo número, mas pelo simbolismo.

Vereadores com os quais Dila mantém relações difíceis — como Cláudio Ávila e Bombeiro Batista — cumpriram o acordo e votaram no candidato do governo. Também o fez Anna Beatriz (PSD), esposa do deputado estadual Dimas Costa, irmão de Dila, com quem mantém uma relação familiar conturbada. Vereadores ligados a Dimas seguiram o mesmo caminho.

Até o PT, que historicamente se posiciona na oposição, tomou decisão partidária de apoiar Dila.

Só não recebeu a ‘bênção’ de Marco Alba. O MDB do ex-prefeito lançou Claudecir Lemes à presidência, mas nem o partido conseguiu unidade: Airton Leal, em dissidência, votou em Dila.

Para garantir a indicação pelo Podemos, e o conseqüente cumprimento do acordo, convenceu os vereadores do partido, Paulinho da Farmácia e Carlos Fonseca, e o presidente municipal e vice-prefeito, Dr. Levi Melo, que no dia 4 enviou ao prefeito documento oficializando a candidatura.

Zaffa, então, confirmou com a base parlamentar o cumprimento do acordo, que nos bastidores vinha sendo construído por Dila junto ao secretário da Fazenda Davi Severgnini — organizador político do governo e principal avalista da sua eleição — e o que parecia improvável: ao deputado Dimas.

Restou o ‘monumento’, construído pelas mãos de Dila, Zaffa, Levi, Davi, Dimas e, o principal, já que a eleição é decidida no voto: a concordância dos vereadores da base do governo.

Com PT & tudo.

O presidente “de todos” — e do tamanho da cidade

No discurso de posse, Dila foi direto.

– A partir de 1º de janeiro, serei o presidente de todos – afirmou, já antecipando que quer “administrar junto aos líderes de bancada” e projetando o futuro com as duas próximas administrações previstas no acordo; ele citou nominalmente Bombeiro Batista (Republicanos) e Roger Correa (PP).

Informou, ainda, que já ligou para o secretário da Fazenda, Davi Severgnini, para avisar que não devolverá parte dos R$ 40 milhões do orçamento da Câmara — prática recorrente em gestões anteriores.

O gesto é simbólico e concreto: Dila quer uma Câmara com musculatura política, administrativa e institucional compatível com o peso econômico do município.

– Teremos uma Câmara do tamanho da quarta economia gaúcha – resumiu.

Entre as primeiras medidas anunciadas estão a reforma física da Câmara, hoje em condições precárias; uma reforma administrativa, com a convocação de concursados e a criação de ao menos mais um cargo de assessoria por gabinete; e a retomada das transmissões das sessões pela TV Câmara.

Garantiu, ainda, que dará protagonismo às mulheres: “será um ano contra o feminicídio”

– Por esta Casa passam as grandes decisões de Gravataí– lembrou, ao citar desde isenções fiscais que viabilizaram a instalação da GM até financiamentos que garantiram cerca de R$ 300 milhões em investimentos em infraestrutura na última década.

Dila com Márcia, Hiago e Fábio: a Mesa Diretora para 2026


A memória viva da convivência política

A eleição de Dila não nasce nesta semana. Ela foi perseguida por ele ao longo de décadas.

Desde a adolescência, ainda nos anos 1980, frequenta a Câmara de Vereadores. Estudioso, o historiador guarda a memória viva da política da aldeia. Conviveu com personagens centrais da política gravataiense moderna — alguns já falecidos — e formou ali sua visão de poder, institucionalidade e sobrevivência política.

Já militou politicamente com Marco Alba, com quem inclusive morou junto na adolescência, com os ex-prefeitos Sérgio Stasinski e Daniel Bordignon, com Anabel Lorenzi e, agora, com Dr. Levi Melo e Zaffa.

Nos quase 40 anos de vida política, já rompeu e reatou — ou reatou e rompeu — com todos. Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, chegou a votar contra a concessão de títulos de cidadão para Bordignon e Levi.

Já brigou comigo também, amigo de décadas, e no período em que não estendia a mão criou o apelido ‘Perseguinte’ — forma que até hoje alguns políticos se referem ao Seguinte:, quando não concordam com críticas jornalísticas.

Mas provas de lealdade política não lhe faltam.

A principal, em 2017. Quando foi cassado o registro da chapa Daniel Bordignon-Cláudio Ávila, vencedora da eleição de 2016, Dila se manteve fiel a Anabel Lorenzi na eleição suplementar do ano seguinte.

Inclusive, negando ofertas de um mundo de facilidades, foi o candidato a vice da então terceira colocada, após Dr. Levi, que tinha sido o quarto lugar, desistir do posto para apoiar a reeleição de Marco Alba.

Foi também líder do governo Marco quando o ex-prefeito experimentava baixa popularidade por, sem caixa para investimentos, encarnar ‘o exterminador de dívidas’, e, ao organizar a campanha de Levi a prefeito, um ano antes, em 2015, entregou todos os cargos que tinha na Prefeitura.

Também foi líder do governo Zaffa 1 no momento de maior tensão na III Guerra Política de Gravataí (Zaffa x Alba, após a I Guerra, Abílio x Oliveiras, e a II, Stasinski x Bordignon), conseguindo, por exemplo, articular a aprovação de R$ 100 milhões em financiamentos mesmo com Zaffa e Alba rompidos.

O vereador também carrega um título incontestável: é um “montador de partidos” de Gravataí; detalhei o histórico na seção #Das Urnas, após a eleição, em Por que Dila é o favorito para ser o presidente da Câmara de Gravataí em 2026; da bênção de Levi ao Herói Incômodo.

Foi assim no PSD, no PDT e agora no Podemos, legenda que estruturou, tornou competitiva e ajudou a ser segunda mais votada da cidade em 2024, elegendo três vereadores e atraindo o vice-prefeito, Dr. Levi.

Foi também o parlamentar mais votado do partido em toda a Região Metropolitana. Após trocas e trocas de siglas, é incontestável que uma finalmente o reconheceu: o Podemos, ao indicá-lo à presidência.

É um político de relações difíceis, sim. Brigou com aliados, adversários e até amigos. Criou desafetos. Ganhou apelidos. Mas também construiu uma reputação que pesa no Parlamento: respeita acordos, entende a institucionalidade e assume o ônus de pautas impopulares — como os cargos que vai criar.

Foi assim na reforma da previdência. Foi assim na aprovação da Lei da Transação — a ‘Lei Dila’ — que já permitiu à Prefeitura recuperar cerca de R$ 20 milhões em dívidas convertidas em obras e serviços.

Não por acaso, mesmo adversários reconhecem: quando chega à presidência, Dila chega preparado.

O herói incômodo vira monumento

No artigo do dia 4, em que antecipei sua eleição, recorri a Millôr Fernandes para definir Dila como o ‘Herói Incômodo’ — aquele que incomoda tanto que a solução seria fuzilá-lo e depois erguer-lhe um monumento.

No caso de Dila, o fuzilamento político veio ao longo dos anos. O monumento, ele próprio constrói agora, junto às mãos poderosas que referi: a presidência do Poder Legislativo.

Sem unanimidade afetiva, mas agora ampla legitimidade política, chega ao cargo como o fiador institucional do governo Zaffa no Legislativo — e como alguém que conhece, talvez melhor do que qualquer outro vereador, o peso, os riscos e as armadilhas do poder.

– Sei da responsabilidade e estou pronto – garante.

Concluo como no artigo anterior: “vai ser um bom presidente”.

OS VOTOS

: A favor de Dila: Airton Leal (MDB), Alex Peixe (PSDB), Anna Beatriz (PSD), Bino Lunardi (PSDB), Bombeiro Batista (Republicanos), Carlos Fonseca (Podemos), Claudio Ávila (União Brasil), Clebes Mendes (PSDB), Dilamar Soares (Podemos), Fabio Ávila (Republicanos), Guarda Moisés (Republicanos), Hiago Pacheco (PP), Marcia Becker (PSDB), Paulinho da Farmácia (Podemos), Mario Peres (PL), Policial Coruja (PP), Roger Correa (PP) e Vitalina Gonçalves (PT).

: A favor de Claudecir: Aureo Tedesco (MDB), Beto Bacamarte (MDB), Claudecir Lemes (MDB).

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