Em Cadernos do Cárcere, Gramsci cometeu uma célebre frase: “O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: neste claroscuro surgem os monstros”. A Câmara de Vereadores de Gravataí restava neste claro-escuro. A partir da próxima terça-feira (3), não mais.
No primeiro mês à frente da presidência, Dilamar Soares (Podemos), o Dila, cumpriu uma das promessas centrais da sua campanha interna pela eleição com o voto dos vereadores: devolver visibilidade à ‘Casa do Povo’.
A partir da primeira sessão de 2026, às 17h, a TV Câmara volta a transmitir, ao vivo, os trabalhos do Legislativo — inicialmente pelo YouTube e, na sequência, também pelo Instagram e Facebook.
A retomada ocorre após quase cinco meses de apagão institucional.
De agosto a dezembro de 2025, durante a presidência de Clebes Mendes (PSDB), as sessões deixaram de ser transmitidas.
No período, projetos de alto impacto político — que batizei de ‘pautas-bomba’, como mudanças na Lei Orgânica, ajustes nas regras do funcionalismo e a polêmica envolvendo a Estância Província de São Pedro — foram debatidos longe dos olhos da população.
Para viabilizar a volta imediata das transmissões, Dila optou por uma contratação emergencial por 60 dias, enquanto tramita o processo licitatório definitivo. O custo: cerca de R$ 15 mil mensais — valor inferior aos aproximadamente R$ 20 mil pagos no último contrato licitado.
Num orçamento anual de cerca de R$ 40 milhões, o preço da transparência mostrou-se irrisório diante do prejuízo institucional que representava manter a quarta economia do Rio Grande do Sul com um Legislativo invisível para uma cidade que se aproxima de 200 mil eleitores e pode ter segundo turno já em 2028.
A assinatura do contrato, realizada nesta sexta-feira (30), foi aberta à imprensa e carregada de simbolismo político.
Dila fez questão de dividir o ato com a Mesa Diretora de 2026 — Hiago Pacheco (PP), vice-presidente; Márcia Becker (PSDB), primeira secretária; e Fábio Ávila (Republicanos), segundo secretário — e também convidou a Mesa que iniciou as transmissões em 2015: Juarez Souza, Gerson Rovisco, Tanrac Saldanha e Paulinho da Farmácia, hoje vereador e único ainda no Parlamento, que representou o grupo.
Não descuidou de convidar também o líder do governo Luiz Zaffalon na Câmara, Alex Peixe (PSDB), presidente da Câmara em 2024, quando qualificou as transmissões, cuja presença serviu de gancho para um gesto político calculado: um desagravo público.
– Quando eu cobrava a falta de transmissão, ouvia que havia impedimentos legais e problemas deixados pela gestão anterior. Em menos de um mês estamos licitando e fizemos a contratação emergencial. Tudo dentro da legalidade. Então, a culpa não era do Peixe – afirmou Dila, sem citar Clebes diretamente.
Peixe, por sua vez, lembrou que teve as contas de sua gestão aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS).
– Fui taxado de fazer uma gestão ruim. Era uma inverdade – disse.
Bombeiro Batista (Republicanos), vice-presidente em 2025 na gestão Clebes, acompanhou a reunião, mas preferiu não se manifestar.
O claro da democracia
Nos discursos, Hiago Pacheco, Fábio Ávila e Paulinho da Farmácia destacaram a “volta da transparência” e a “coragem política” de Dila ao assumir o risco de uma contratação emergencial para não manter o Parlamento às escuras até o fim da licitação.
Um risco calculado — inclusive frente a eventuais apontamentos de órgãos de controle —, mas assumido como escolha política.
A decisão dialoga diretamente com o perfil que Dila prometeu ao assumir a presidência: uma gestão institucional, de valorização do Legislativo e do seu papel no debate público.
– Transparência se faz com atitude. Retomar a TV Câmara não é um detalhe técnico, é uma decisão política clara: abrir o Legislativo, mostrar o trabalho e garantir que a população acompanhe, fiscalize e participe – afirmou o presidente.
E completou, na frase que virou marca do gesto: “A TV Câmara está de volta. Porque democracia não funciona no escuro”.
Consultado pelo Seguinte: sobre os motivos da suspensão das transmissões durante sua gestão, o ex-presidente Clebes Mendes não respondeu até o fechamento da reportagem.
Ao fim, ao recolocar as câmeras em funcionamento, Dila não apenas liga equipamentos: recoloca a Câmara no centro do debate público e devolve luz a um espaço que, nos últimos meses, e são os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos, a mostrar, operava de costas para a população.
Sem “claroscuro”, há menos chances de surgirem os monstros.
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