O depoimento do prefeito de Cachoeirinha à Comissão Processante do Impeachment 2.0, na manhã deste sábado (20), foi menos um exercício técnico de defesa e mais um ato político explícito. Cristian Wasem (MDB) despiu-se do papel tradicional de ‘bom moço’ e foi para o ataque — mesmo que não tenha citado ninguém nominalmente.
Ao falar por cerca de uma hora, de forma remota, Cristian escolheu um eixo central: atribuiu a existência dos dois processos de cassação ao fato de ter “fechado portas para a corrupção” em Cachoeirinha — e, com isso, ter incomodado a política tradicional.
A pergunta que abriu esse capítulo do depoimento partiu da própria defesa: a que o prefeito atribui a motivação dos impeachments, “já que no curso do processo ficou comprovado que não ocorreu nenhuma irregularidade?”. A resposta veio carregada de discurso, mas também de recados.
Cristian disse que, desde que assumiu, alinhou a administração aos setores técnicos, fortaleceu o Controle Interno, a Superintendência de Compras, a Procuradoria-Geral do Município e estruturou os gabinetes do prefeito e do vice com fiscalização permanente. O objetivo, afirmou, foi “fechar a porta da corrupção na cidade”.
– Fechamos muita porta ruim, e isso incomodou e atingiu muita gente. Nos alinhamos aos técnicos desde o início, e a política não gostou e não está permitindo – disse.
O prefeito afirmou que se cercou deliberadamente de servidores técnicos e que, em Cachoeirinha, “a política não atura” esse tipo de postura. Subiu o tom ao classificar o processo como um “golpe”, um “ataque à democracia” e à vontade popular expressa nas urnas.
– É um ataque aos 71,86% dos votos, aos mais de 47 mil votos desta população. Às entregas que estão sendo feitas, às escolas novas, às unidades de saúde, à valorização do servidor público. Não vejo outro motivo que não seja o ataque à democracia – afirmou.
Em um dos trechos mais fortes do depoimento, Cristian relatou uma frase que atribuiu a um dos articuladores do impeachment:
– Um dia, um dos cabeças deste golpe me falou: “Cristian, tu estás errando, porque tu não está dando um brinquedinho para cada um”. Isso é o mais triste.
O vice-prefeito e o “incômodo” do delegado
A defesa também questionou o prefeito sobre os motivos de o vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP) ter sido incluído nos processos, mesmo tendo exercido o cargo de prefeito por apenas 12 dias. Cristian respondeu que o alinhamento político entre ambos é sólido e que o fato de João Paulo ser delegado de Polícia — ex-chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul — “incomoda muita gente”.
– Ele sabe onde está pisando. Muita gente não gosta da figura do delegado de Polícia – afirmou.
Cristian também disse que a própria composição da chapa majoritária com um delegado gerou resistências políticas desde a campanha.
As perguntas da comissão: o impeachment no papel
Se a defesa buscou construir uma narrativa política, coube ao relator da comissão, vereador Otoniel Gomes (MDB), trazer o depoimento de volta ao terreno concreto das denúncias que estruturam o Impeachment 2.0 — aquele que é o mais robusto, com mais de 60 páginas e oito eixos de acusação; o 1.0, que já excluiu o vice, ainda não tem depoimento marcado.
Otoniel foi o único a formular perguntas. O presidente da comissão, Gilson Stuart (Republicanos), e a integrante Pricila Barra (Podemos) não questionaram o depoente.
A primeira linha de questionamentos tratou das denúncias de coação a vereadores, um dos eixos centrais da peça inicial do impeachment. O relator mencionou a atuação do assessor especial André Lima de Moraes, citado na denúncia como responsável por ligações, mensagens e pressões políticas.
Cristian respondeu que André Lima é assessor especial do gabinete e presidente do MDB, e que não tem como controlar sua vida pessoal ou sua atuação partidária.
– Se ele entrou ou deixou de entrar em contato, não sei informar – disse.
Questionado sobre eventual envolvimento de André Lima em contratações de empresas, Cristian negou qualquer ingerência.
– Desde que entramos, temos Procuradoria, Compras, Administração e Controle Interno. Não é direcionado a este assessor. Usamos os técnicos – afirmou.
Contratações emergenciais sob suspeita — e o “eu não sabia”
Outro bloco de perguntas abordou contratos emergenciais firmados durante situações críticas, especialmente no contexto dos eventos climáticos extremos que atingiram a cidade.
Otoniel perguntou sobre a contratação de uma empresa que, segundo a denúncia, teria vínculo familiar com integrante do governo. Cristian disse que não tinha conhecimento do grau de parentesco.
– Enfrentamos eventos climáticos gravíssimos. Mais de mil árvores caíram, escolas atingidas, unidades de saúde alagadas, falta de energia. É uma situação de emergência. Não tenho como saber de tudo sobre os contratos. Passa pelos setores, e chega para o prefeito para homologação. Se eu soubesse de vínculo, é óbvio que não faria – afirmou.
Sobre eventual apontamento do Controle Interno, Cristian disse que nenhum alerta chegou até ele, mas que, a partir das denúncias, haverá “cuidado especial” com esse contrato.
O relator também questionou contrato emergencial assinado pelo vice-prefeito durante o período em que exerceu interinamente o cargo. Cristian afirmou que cada setor tem sua atribuição e que, se houve aditivo após seu retorno, passou por ele dentro do fluxo administrativo regular.
Pedaladas, IPREC e respostas à Câmara
As chamadas “pedaladas fiscais” no Instituto de Previdência dos Servidores Municipais (IPREC) também foram abordadas. Cristian negou irregularidades e lembrou que a repactuação foi aprovada pelo conselho do instituto, pela Câmara — inclusive com participação dos próprios vereadores da comissão na CCJ — e homologada pelo Ministério da Previdência.
– Não existe problema – resumiu.
Sobre suposta manobra fiscal para não ultrapassar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, o prefeito disse que a folha foi paga corretamente e informada ao Tribunal de Contas do Estado.
– Não cometi nenhum erro. Está tudo correto – afirmou.
Questionado sobre a falta de respostas a pedidos de informação da Câmara, uma das acusações formais do impeachment, Cristian disse que respondeu aqueles que lhe foram dirigidos diretamente e que não pode responder pelos pedidos encaminhados a secretários.
Ao final, Otoniel perguntou se, como ordenador de despesas, o prefeito reconhece a obrigação de fiscalizar seus subordinados. A resposta foi direta:
– Sim.
Instrução encerrada, julgamento no horizonte
Encerrado o depoimento, a Comissão Processante se reuniu e deliberou pela abertura do prazo de cinco dias para apresentação das alegações finais da defesa do prefeito e do vice-prefeito, a contar de segunda-feira (22). Com isso, conclui-se a fase de instrução do processo, conforme o rito do Decreto-Lei nº 201/1967.
Após receber as manifestações finais, a comissão deverá emitir parecer pela procedência ou improcedência das acusações e encaminhá-lo à presidência da Câmara, que então marcará a sessão de julgamento.
Será nessa sessão que os relatórios serão lidos, vereadores poderão se manifestar, as defesas farão sustentações orais e os denunciados poderão falar. Após, os 17 vereadores decidirão, voto a voto, se cassam ou não os mandatos de Cristian Wasem e do vice Delegado João Paulo Martins — decisão que, se pela cassação (que precisa de pelo menos 12 votos pelo “sim”), também os torna inelegíveis por oito anos e provoca eleição suplementar em até 180 dias.
Nos bastidores, a projeção é de que a sessão de julgamento do Impeachment 2.0 deve acontecer até o dia 15 de janeiro.
Ao fim, se Cristian olha para o abismo e o abismo olha de volta, como já escrevi, ao escorregar para o precipício, vai cair atirando. O depoimento de hoje mostra isso.
Assista abaixo à íntegra do depoimento






