RAFAEL MARTINELLI

Foto aleatória de Dimas com Tarcísio o desloca do extremo centrismo para a direita; O Pequeno Príncipe

Dimas com Tarcísio, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo

Dimas Costa (PSD) batendo foto com o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) inscreve-o na célebre mensagem do Príncipe, o Pequeno, não o de Maquiavel, mas o de Saint-Exupérry: “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”.

Reputo o deputado estadual de Gravataí, que vinha se identificando com o ‘extremo centrismo’ de Eduardo Leite (PSDB), ao posar com o potencial candidato do bolsonarismo à presidência da república, devido à inelegibilidade e inevitável prisão de Jair Bolsonaro, agarra mais forte com a mão direita na ferradura ideológica.

Dimas, para quem não lembra, tem origem na esquerda e votou em Lula em todas as eleições. Tem foto com o presidente e com Dilma, que nunca renegou ou apagou de suas redes sociais. Num reposicionamento que já tem quase uma década, trocou o PT pelo PSD, tornou-se o ‘embaixador’ de Leite em Gravataí, foi decisivo na reeleição do prefeito Luiz Zaffalon (PSDB), de quem tem sido fiel aliado, e tem operado com um pragmatismo inspirado em Gilberto Kassab, presidente nacional de seu partido – analisei isso ontem, em Dimas é recebido pelo todo-poderoso Kassab em São Paulo: o que isso significa para política de Gravataí.

Na simbologia da política, porém, uma foto aleatória com Tarcísio grita. Parece Dimas tentar acenar para seu novo grupo político, de Zaffa e do secretário da Fazenda Davi Severgnini, notórios direitistas, que é capaz de guardar o coração e até ao bolsonarismo se aliar, caso este seja o caminho dos dois, mas principalmente de Leite. A turma do Centro, com letra maiúscula, certamente vai gostar.

Em seu cálculo político e eleitoral, evidencia o deputado estar disposto a perder o eleitorado mais à esquerda que resta. Algo que, para usar o exemplo do chefe maior de Dimas, Leite habilmente ainda cultiva e deve garantir-lhe uma eleição tranqüila ao Senado, já que na eleição de 2028 o eleitor vota em dois nomes, e geralmente na segunda escolha o faz por eliminação, o ‘menor pior’ – e podemos ter concorrendo nomes como Luciano Zucco (PL) e Marcel van Hattem (Novo).

Ah, mas Tarcísio é o ‘extremo centrismo’! Não há mentira maior. Nem o governador de SP se apresenta assim, mesmo tenha sido diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no governo Dilma. À grande mídia, que se esforça para colocá-lo como uma alternativa moderada à falsa polarização (só há um extremo) entre Lula e Bolsonaro, Tarcísio sempre se colocou ao lado de pautas do bolsonarismo-raiz.

Para entrar no detalhe – e antecipar pautas que Dimas pode estar a caminho de abraçar, para pragmaticamente seguir seu novo grupo político, como anistia, condenar a ampliação da isenção do Imposto de Renda para R$ 5 mil e defender a política de Milei de cortes em obras, saúde, educação, salários e aposentadorias, além de Michelle Bolsonaro (PL) como vice de Tarcísio – associo-me ao jornalista Reinaldo Azevedo em O que explica o desdém de Bolsonaro por Tarcísio? ‘Azelites’ e ‘uzmercáduz’, artigo que publiquei nesta semana no Seguinte: tratando sobre o que está por trás de um certo desdém de Bolsonaro pela pré-candidatura do governador a presidente.

Reproduzo o texto, para entender o que Dimas ‘cativa’:

Na entrevista concedida à Folha, o réu inelegível afirmou, depois de repetir que seu plano B é “Bolsonaro”:

“Tarcísio é uma excelente pessoa, fenomenal gestor e um muito bom, bom, não vou falar excepcional, um bom político, assim como tem outros nomes pelo Brasil. O Zema tem uma pessoa que fez uma boa gestão lá, o Caiado, o Jorginho Mello, outras pessoas que não estão no cargo executivo, mas despontam. Bons parlamentares por aí. Agora, dentro do PL, devidamente autorizado pelo Valdemar Costa Neto, o candidato sou eu. Até porque uma injustiça é negar a democracia, eu não poder disputar eleições, dado (sic) essas duas acusações”.

Vamos ao ponto: o que está por trás desse relativo desprezo? Bem, falta de apoio das elites a Tarcísio é que não é, certo?

Claro que não! Aí está justamente o problema.

O ex-presidente não suporta o fato de que sua criatura tem muito mais o apreço das elites brasileiras do que ele próprio. Se o governador de São Paulo depende da sua anuência para não ser abatido antes de alçar voo — e, hoje, depende —, ele sabe que parte considerável do establishment econômico respiraria aliviado porque teria atendidas muitas de suas demandas, sem ter de lidar com os aspectos mais grotescos de uma figura como o dito “Mito”.

O próprio Bolsonaro já percebeu que seu aliado é capaz de dar saltos triplos carpados, em piruetas impressionantes. Rasga elogios às urnas eletrônicas em evento da Justiça Eleitoral e, dois dias depois, na presença do próprio Bolsonaro, diz que se referia à instituição, não ao sistema de votação. Nem o “capitão” engoliu.

Em recente evento com o mercado financeiro, Tarcísio acenou com reforma da Previdência, oposição à isenção do IR para quem recebe até R$ 5.000 e à taxação de dividendos e corte — ainda que tenha sido muito genérico — com gastos de saúde e educação. Cantou as glórias de Javier Milei e chegou a dizer: “Se ele pode fazer, por que a gente não pode?” O governador não precisa de Bolsonaro para adoçar a boca de parte da elite que sabe que o ex-presidente é um problema.

Mais: fingindo referir-se a Lula, afirmou no tal evento que um político precisa saber a hora de sair de cena. Isso não quer dizer que não esteja empenhando em montar o palanque em favor da anistia aos golpistas. Precisa disso. Se o “Mito” abre o flanco, seu aliado, ora incômodo, assume a condição de alternativa anti-Lula, e sua elegibilidade, que sabe impossível — não é besta nem nada — é chancelada.

Encoste a cabeça ao peito de Bolsonaro, para lembrar Ivan Lessa, e se vai ouvir o que diz seu coração: se Tarcísio se torna presidente, vai buscar a “conciliação” à sua maneira. O governador tem dito coisas do arco da velha sobre o Supremo, por exemplo, e deve repeti-las no ato em São Paulo. Se disputar, terá de ser nesse ambiente que chamam “polarização” — essa palavra estúpida —, mas parece que não teria como alimentar o cenário de crispação ideológica que confere identidade a seu “mestre”.

Não parece, por exemplo, que seria capaz de dizer coisas como “eu sempre fui contra uma vacina que até hoje ainda é um experimento, E eu li o contrato da Pfizer, tá? E mais ainda agora: em cima do relator do Congresso americano, foi desnudado o que foi a Covid de verdade e a vacina e seus efeitos colaterais”.

Tarcísio, o “não excepcional”, tem de ficar colado a seu criador porque esse é seu passaporte, mas as circunstâncias imporiam, depois, se eleito, o distanciamento. O fato de o governador transitar por lugares onde ele, Bolsonaro, não transita lhe passa a impressão, que não é destituída de sentido, de que o outro buscaria, se chegasse à Presidência, construir o seu próprio legado.

Bolsonaro não parece disposto a facilitar a sua própria obsolescência no campo da direita e da extrema-direita. E também já percebeu que essa vertigem “pesquisista” que anda por aí busca transformar o seu aliado, ao arrepio de sua, digamos, bênção em fato consumado.

O seu grande esforço hoje consiste em não correr o risco de que a criatura deixe de depender do criador. Não se conforma que “azelites” e “uzmercáduz” tenham adotado o seu rebento sem a sua expressa autorização.

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