coluna do silvestre

No dia do professor, eu, a palmatória e os grãos de milho

Já não cozinho na primeira fervura. Tem que usar panela de pressão e no mínimo uma hora de fervura com fogo alto. Quem me conhece, sabe. Então, sou do tempo em que professora lecionava, principalmente "no interior do interior do interior", para grupos de alunos. Independente da faixa etária, do ano escolar em que estivesse, ensinava todas as disciplinas simultaneamente.

Sou do tempo da palmatória (foto acima). Apanhei uma vez. Não lembro a razão e que tenha doído.

Sou do tempo em que aluno que falava durante a aula ajoelhava no canto da sala, sobre grãos de milho. Era o castigo.

E do tempo em que aluno que não sabia a tabuada – aliás, hoje, alguém sabe o que é tabuada? – , por exemplo, ajoelhava no canto com um cone que tinha orelhas de burro, sobre a cabeça.

Eu ajoelhei só sobre os grãos de milho, não usei o cone com orelhas de asininos.

Eu era um guri mirrado, magrela, com cabelos cortados por um barbeiro que usava aqueles tesourões de tosar ovelhas, que teve dentes de leite arrancados com alicate pelo mesmo homem que cortava os cabelos e que nos intervalos, quando não havia clientes para tosa ou sessões de torturas, catava os carrapatos de cachorros, ordenhava vacas ou plantava milho e arrancava mandiocas…

Eu caminhava uns três quilômetros e meio para ir à escola e outro tanto para voltar para casa, carregando uma pasta de couro com um único caderno, um ou dois livros (Ivo viu a uva…) e estojo com lápis e borracha. Canea, o que era caneta? Com uma lancheira de plástico em que estava um pão com manteiga e um café com leite ralo.

Manteiga de verdade, não essas de hoje. Leite de vaca, não era leite de caixinha com água e formol, entre outras impurezas.

E caminhava por estrada de chão batido. Acho que usava tamancos, ou o que se poderia chamar de tênis, aqueles da marca Sete Vidas. E calças curtas. Não era bermuda e nem calção. Calças curtas, com suspensório. Camisa? Não lembro. Mas tenho certeza que o “tapa-pó” era branco, meio comprido, obrigatório como uniforme, com nome da escola bordado em um bolso sem utilidade alguma e que ficava na altura do coração.

Juro que estou fazendo um esforço danado para lembrar como era o nome da escola, uma brizoleta (as escolas de madeira, modelo padrão, feitas às pencas pelo ex-governador Leonel Brizola pelo estado inteiro), até findar este texto.

Minha primeira professora foi Carmem Lúcia Alves. Não sei se ela havia cursado Magistério. Penso que, à época, não. Era filha de um colega do meu pai no Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem, o Daer, e morávamos todos no mesmo acampamento, que é como chamavam as mini-vilas, com menos de 10 casas, em que habitavam famílias de servidores do órgão do estado.

Certa feita, dia chuvoso, se deu o fato que marcou aquela fase da minha vida.

Como já disse, eu era o "risco e o fedor" de tão magro. Quando eu caminhava, o som que se ouvir era o bater de ossos.

Nos dias chuvosos, a gente usava uma capa plástica por sobre a vestimenta. Com capuz. Invariavelmente a gente chegava à escola, ou voltava para casa, encharcado. A proteção não era tão eficiente e, no inverno, a gente – literalmente – “pagava os pecados”.

Em um destes dias chuvosos, após a aula e na pressa de tomar o caminho de casa, descíamos atabalhoadamente uma meia dúzia de degraus, pequena escada que não tinha mais que meio metro de largura.

Na correria, empurra-empurra, sobrou para o guri franzino que do alto da escada – nem tão alta, mas lembre-se: eu era uma criança! – despencou e se estatelou no chão molhado, embarrado, verdadeiro lamaçal de tão pisoteado por todos e pelos animais que orbitavam o prediozinho escolar.

Ainda no chão, comecei a chorar. Chorei muito. A dor no ombro esquerdo era insuportável.

A professora Carmem Lúcia, obviamente, não tinha conhecimentos médicos. Pegou-me pela mão e me ergueu. O choro deixou de ser choro, passou a ser berro, urros, tamanha a dor que senti.

E assim fui levado para meus pais, sendo puxado pela mão e pelo braço dolorido, praticamente arrastado, pelos cerca de três quilômetros e meio. Sob chuva, chorando, berrando, urrando, sei lá!

Em casa, fiquei de repouso com compressas de pano embebidas em água morna e com fartura de sal grosso que eram colocados sobre o local que me doía.

Só mais tarde, já adulto, homem feito, descobri que eu tinha a clavícula esquerda com o que parecia ser um defeito de fábrica. O médico perguntou se em algum tempo eu havia fraturado aquele osso, e então lembrei do episódio ocorrido na escolinha lá da Linha Alta, nas terras que haviam pertencido a um comerciante-caminhoneiro-plantador da região chamado João Leal, no hoje município de Cerro Branco.

Ou seja, naquela feita eu havia fraturado a clavícula esquerda.

Isso rendeu-me alguns dias de cama situação que, não sei mais, acho que não cheguei a comemorar. Até porque sempre gostei de escola, de estudar, e sempre fui bom aluno, até quando deixei as salas de aula porque era preciso trabalhar, e muito, para conseguir sobreviver.

Interessante é que nunca tive qualquer sentimento negativo em relação à professorinha. Até porque naquela época o educador era autoridade, e a gente tremia “feito vara verde” sempre que a Carmem Lúcia pronunciava nosso nome. Dependendo da entonação, da impostação de voz, era a gravidade da situação.

E rendo a ela, ao professor Aldo Freitas, que a sucedeu, e a todos que passaram pela minha vida, as maiores e mais sinceras homenagens.

Aos professores de hoje, mestres, educadores, todo meu reconhecimento, homenagem e agradecimento por tentarem fazer, da nossa juventude – entre os quais, agora, meus netos – , homens e mulheres que sejam cidadãos corretos, justos, profissionais competentes e pessoas realizadas em suas vidas.

Especialmente por que, nos dias atuais, já não se canta o Hino Nacional antes de entrar em sala de aula. Já não existe mais a palmatória. Nem ficam os alunos bagunceiros sobre grãos de milho no canto da sala. E nem os que não aprendem, mesmo diante de sucessivas explicações, usam cones com orelhas de burro sobre a cabeça.

E especialmente porque, nos dias atuais, os professores são mal pagos, não têm o devido reconhecimento profissional, têm salários atrasados e parcelados, não recebem dos alunos ou dos pais destes o devido respeito, e com frequência são alvo de agressões físicas.

O mundo é o mesmo. Os tempos é que mudaram.

 

Por estas e por outras que eu digo, para o mundo que eu quero descer.

Ah, aproveita e me corta os tubos!

 

 

 

 

 

 

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Receba nossa News

Publicidade