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GRAVATAÍ, 15/05/2021
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Sítio da família de Márcia Becker, no bairro Neópolis, virou o refúgio para os animais | GUILHERME KLAMT

COM VÍDEO | Márcia Becker e seus 115 filhotes

por Eduardo Torres | Edição de imagens: Guilherme Klamt | Publicada em 14/02/2019 às 16h11| Atualizada em 02/03/2019 às 16h57

O som dos latidos neste lugar tem tom de tranqüilidade. Os cães, a perder de vista, estão por todos os lados. Mas não são os únicos “donos” do campinho. Convivem em perfeita harmonia, sem grades, correntes ou cadeados com dois porcos — um deles, o Pongo, que jura que é cachorro também —, 15 cavalos e uma mula. E ainda tem um rato e uma gata. Oficialmente, o sítio, no bairro Neópolis, é a casa de Márcia Rejane Becker, do marido e dos filhos há dez anos, mas é muito mais do que isso. São 115 animais protegidos no ambiente que ela sempre imaginou para si.

— Quando eu era criança, o meu objetivo era morar numa maloquinha, uma casinha bem pequena, mas com um pátio gigante. Que era para ter os meus bichos. Hoje nós temos o sítio, onde eu mantenho estes meus “filhos” com todo o carinho e a liberdade que eles merecem ter — conta ela.

Márcia Becker é coordenadora do novo Canil Municipal, que desde uma interdição há quase uma década, passou por uma verdadeira revolução e hoje é exemplo no Estado no trato com os animais urbanos. Alguém pode achar que é a profissão dela, como qualquer outra. Engana-se: é vocação.

 

 

Proteger os animais, ela descobriu ainda pequena, era a sua missão. Criada em Gravataí e filha do ex-vice-prefeito e empresário Décio Becker, antes dos 10 anos, Márcia iniciou a sua primeira criação, nada convencionou.

— Eu entrei em um bueiro e descobri um ninho de ratos. Saí de lá com duas ratazanas bem filhotinhas. Comecei a cuidar delas, com mamadeira. Uma, eu acho que não gostou muito de mim e fugiu. A outra, eu criei por dois anos e meio, até que não dava mais para esconder — lembra.

 

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É que a mãe nunca gostou da ideia da menina de levar os bichos para casa. E quem gostaria de uma ratazana de esgoto dentro de casa? A Márcia, sim. Pois ela escondia o bicho como dava, Entre os cabelos, no pescoço, mas o rabo ficou grande demais. E a separação foi inevitável.

A segunda adoção despertou nesta admiradora dos animais o atual espírito de proteção que ainda a move.

— Tudo o que eu sempre desejei é respeito pelos animais. Eles são seres vivos e merecem ter o cuidado que qualquer ser vivo precisa. As pessoas se julgam superiores a eles e toleram certos sofrimentos, como se fossem diferentes. Eu não admito isso — diz.

Aos 14 anos, ela flagrou um verdureiro batendo em um cavalo. Lutou, brigou, fez escândalo. E o pai comprou para ela o cavalo. Virou o Estrelo, que conviveu por anos com a família. A essa altura, a menina já havia criado algumas artimanhas para ter os bichinhos.

— Eu saía de casa com os bolsos cheios de salsichas e ia jogando para os cachorros me seguirem. Quando chegava em casa, eu dizia para a mãe que eles tinham me seguido, que não era culpa minha — brinca.

Hoje aos 49 anos, casada e mãe de quatro filhos, Márcia Becker tem a sua dedicação aos animais super reconhecida. E requisitada. O dia dela começa por volta das 6h. É quando ela dá os primeiros cuidados aos bichinhos do sítio antes de partir para o Canil Municipal. Mas no meio disso tudo, sempre surge algo mais.

— Quando eu acordo, geralmente tem mais de 500 mensagens no meu celular. É gente pedindo por castração, consulta, vacina, adoção, pedindo para recolher animais que estão sofrendo maus-tratos. Eu confesso que, por vezes, não consigo atender todas as solicitações por esquecimento mesmo, em meio a tantas mensagens — conta.

 

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No sítio, atualmente são 96 cães, todos chamados pelos nomes. A maior parte deles vive solta no campo, mas dentro do sítio, Márcia criou dois setores especiais. Na área, ficam aqueles que precisam de cuidados iniciais, como alguma medicação ou tratamento logo depois da adoção. E há também o cercado onde fica o “walking dog”, como ela chama.

São cachorros já debilitados, alguns cegos ou com sérias restrições, que poderiam correr algum risco estando soltos com os demais. Entre eles, está a Gorda. Uma pitbull com a pele queimada pela sarna.

— Eu não consigo entender o que passa na cabeça de algumas pessoas, que pagam fortunas por cães de raça e depois se desfazem deles como objetos. Por ser uma pitbull, a Gorda sofreu todo um preconceito das pessoas. Ela foi abandonada há uns oito meses na Estrada do Nazário e, enquanto ficou na rua, foi agredida pelas pessoas. Nós resgatamos e tentamos tratar, mas o pelo já não nasce por causa do estágio da sarna. Ela acabou virando um cão agressivo com crianças, então não podemos deixar ela solta, mas é uma linda cachorra — diz.

 

: Tem jeito de cachorro, brinca como um cachorro, mas Pongo é um porco | GUILHERME KLAMT

 

Pongo, o xodó

 

Um dos xodós do sítio, porém, atende pelo nome de Pongo. Se você chamá-lo assim, ele vai atender e andar até você em busca de carinho. Não, não é um cachorro. Pongo é um porco nada pequenino, e mês que vem vai completar três anos.

Era o filhote de uma porca do sítio vizinho que, quando deu cria, acabou matando a maior parte dos porquinhos. O dono jogou fora os filhotes, julgando que estavam mortos. Mas, como diz Márcia Becker, os animais a atraem. Ela viu algo se mexendo no saco onde estavam os porquinhos. Havia três vivos. Dois não resistiram, mas o Pongo virou o seu bebê.

— Ele dormia do lado da minha cama, foi alimentado com mamadeira. E pelo convívio a vida inteira com os cachorros, ele acredita mesmo que é um deles. Até hoje, com todo esse tamanho, quando eu sento para tomar chimarrão, ele vem para o meu lado pedir colo — explica a “mãe” orgulhosa.

 

Canil Municipal

 

Nos últimos anos, Márcia Becker vive a realização de um dos seus grandes objetivos como protetora de animais. O Canil Municipal de Gravataí, que no começo da década foi denunciado, inclusive por ela, como um “campo de concentração”, é agora considerado modelo de tratamento aos animais.

Lá, cães e outros animais recebem vacinação, tratamento e castração gratuita. O objetivo é que eles sejam adotados após os cuidados recebidos ali.

— Nosso grande desafio é sempre entrar na cabeça das pessoas para fazê-las entender que o canil não é um depósito de animais, é uma passagem para que eles sejam tratados e voltem à liberdade. Não pode ser uma prisão — explica.

 

: Márcia denunciou o "campo de concentração" do antigo canil e trabalha na mudança | GUILHERME KLAMT

 

Atualmente, quem deseja o tratamento do canil para algum cão precisa levar o bichinho até o canil. O próximo passo nesta transformação do serviço municipal é democratizar a saúde animal.

— Nós queremos ter uma van adaptada para buscarmos os cães na periferia da cidade, onde as pessoas não têm condições de levá-los até o canil e prestarmos a assistência a quem realmente mais precisa. É uma questão de saúde pública — destaca.

Saúde esta que é preocupação permanente de Márcia Becker. A conversa com o Seguinte:, por exemplo, estava marcada para a manhã desta quinta. Precisou atrasar alguns minutos. É que ela foi chamada e partiu com o marido, Gustavo, para resgatar uma égua que estaria sofrendo maus tratos em uma carroça.

O animal foi socorrido imediatamente e levado ao Canil Municipal. Enquanto a Márcia contava sua história, a égua já estava sendo alimentada.

Márcia é casada há três anos, e, desde o início deixou claro como seria o bom relacionamento com o marido.

— Ele sabe, se um dia perguntar para mim: os cachorros ou eu, já sabe a resposta — diverte-se a protetora.

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