A treta do momento na rede social do passarinho é entre os fãs de Wicked que estão indo ao musical em cartaz na cidade de São Paulo. De um lado, aqueles que se acham no direito de berrar junto todas as músicas, porque se pagaram o ingresso, podem desfrutar do espetáculo como bem entenderem. Do outro lado, aqueles que defendem o respeito ao trabalho dos artistas e que querem ouvir os cantores/atores, não as taquara-rachada das cadeiras próximas… afinal, é uma peça de teatro, não um show de rock ou pagode.
Claro que estou do lado do bom senso e da educação. Vocês têm ideia do trabalho que é apresentar um musical? Atuar, cantar e dançar, ao mesmo tempo, sem perder o ritmo, sabe? Exige muito ensaio e muita concentração. Os artistas estão ali se doando aos personagens e ao público… é o mínimo respeitar o trabalho deles e ficar de boquinha fechada. A algazarra na plateia atrapalha, desconcentra, pode até causar acidentes no palco, caso o ator erre o tempo da cena. E também incomoda quem foi ao teatro para apreciar o espetáculo. Como mergulhar naquela história com gente berrando ao redor? Não há nenhuma defesa para escarcéu no teatro. Quem quer acompanhar as músicas com os lábios, que o faça sem som.
Mas nesse debate online o que mais me incomodou foi não encontrar nenhuma menção ao fato das cantorias exageradas também serem uma falta de noção total quanto às pessoas com perda auditiva. A gente já tem dificuldade com uma voz de cada vez… Entender vozes misturadas, cada uma num ritmo, é impossível. Chega a ser atordoante quando isso acontece, porque vira um emaranhado de sons. Dá até dor de cabeça.
Eu uso aparelhos auditivos, mas eles não “consertam” minha audição, apenas amplificam os sons. E são todos os sons… o que faz com que os barulhos mais estridentes pareçam esfaquear nossos ouvidos. Já aconteceu de um ruído agudo me provocar vertigens, porque são ossinhos e cristais dentro do ouvido que controlam nosso equilíbrio. Dependendo do barulho, parece que fui chacoalhada, acreditem. O mundo gira, sem ter bebido nenhuma gota de álcool.
Ainda assim, é muito melhor viver com aparelhos do que sem eles. Já perdi boa parte da capacidade de distinguir consoantes sem a ajuda de Tom e Vinícius (sim, botei nome nos aparelhinhos!). Então até uma simples conversa se torna estressante com os ouvidos “nus”. Imagina assistir uma peça de teatro? Não entenderia metade das falas. Usando aparelho eu já preciso pedir para repetir quando meu interlocutor fala muito rápido ou embolado. Como eu já disse, os equipamentos não fazem milagre.
Então, mesmo com Tom e Vinícius nas orelhas, não adianta falar longe de mim, ou de costas. A gente que tem perda auditiva passa a usar a leitura labial como apoio instintivamente, além de ter a audição periférica bem comprometida. Então o ideal é falar conosco a uma distância que nos permita visualizar o movimento dos lábios e as expressões (elas também fazem parte da comunicação). Se estivermos num ambiente barulhento, aí só falando perto do ouvido.
Sei que o mundo está cada vez mais acelerado, mas é um cuidado com o próximo procurar falar mais pausadamente e tentar ficar próximo da pessoa. E isso não vale só para quem vocês sabem que têm perda auditiva, viu? Não é fácil aceitar essa condição, leva tempo. Muita gente fica constrangida em dizer que não entendeu ou pedir para repetir, e acaba ficando deslocada nas conversas ou sem uma informação que precisa. Aparelhos são caros (até tem pelo SUS, mas pode demorar para conseguir), o que não falta é gente que precisa e não consegue comprar (Fiz em muitas parcelas, tá?). Além disso, os aparelhos são bem discretos e podem nem ser notados. Faz quase um ano que eu uso e tem muitos conhecidos que ainda ficam surpresos, porque não tinham percebido.
A perda auditiva é invisível, mas o transtorno que causa na vida é real. Já contei aqui na coluna que eu não conseguia aproveitar as aulas de yoga de tão tensa que eu ficava tentando entender as instruções da professora. Agora as aulas são cada vez mais prazerosas. Eu também tava me isolando mais no trabalho, e ficando dispersa nos eventos, sem conseguir acompanhar direito. Daí me refugiava no celular… não era falta de educação, mas de audição. Até parece que a gente está numa bolha que isola um tanto os sons do mundo.
Mas ainda bem que a tecnologia existe para nos ajudar! E para ficar ainda melhor, basta que os seres humanos também façam sua parte, tenham empatia e não pensem só no próprio umbigo. Seu direito de expressar emoção e alegria não justifica destruir a experiência de outra pessoa numa plateia. E teatro é lugar de silêncio. O momento de demonstrar empolgação é no final da peça. Aí sim, pode gritar e assobiar, porque estarei fazendo o mesmo, e aplaudindo até doer as mãos.