Poucas personalidades ao redor do mundo têm a habilidade de surfar nas ondas de popularidade geradas pelas manchetes dos jornais como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos. A forte presença do presidente americano nas manchetes dá a impressão de que ele ocupa o cargo há muito tempo. Na verdade, ainda não faz um ano. Ele foi eleito em novembro de 2024 e assumiu o governo em 20 de janeiro de 2025. Atualmente, surfa a onda causada pela invasão da Venezuela na madrugada de sábado (3) pelas forças especiais americanas, que prenderam o presidente do país, Nicolás Maduro, 63 anos, e sua mulher, Célia Flores, 69 anos. O casal foi levado para Nova York, onde será julgado por tráfico de drogas e outros crimes. Maduro assumiu o governo em 2013 e consolidou uma ditadura no país. Todos concordam com a crueldade do regime. Mas todos também concordam que a invasão foi uma violência contra a soberania venezuelana e abre uma porta perigosa para o futuro. Como publiquei no post de 6 de janeiro: Prisão de Maduro abre espaço para a luta pelo poder na Venezuela.
Delcy Rodrigues, 56 anos, vice de Maduro, assumiu interinamente a presidência da República. A história da prisão de Maduro e sua esposa tem potencial para ficar um bom tempo nos espaços nobres dos noticiários. Lembro que a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo. Trump disse que os Estados Unidos vão receber mais de 50 milhões de barris venezuelanos. Também existem no país dezenas de milícias armadas e treinadas e uma disputa pelo poder muito grande. Mas como diz o manual das redações: “o leitor sempre busca por novidades”. Trump já começou a investir em um novo assunto que tem potencial de dominar as manchetes. Aliás, ele recauchutou uma história. Lembram-se que nas primeiras semanas após assumir o mandato ele anunciou que pretendia tornar o Canadá no 51º estado americano? E que também pretendia incorporar a Groenlândia? Pois o próximo alvo pode ser grande ilha, rica em minerais e quase toda coberta de gelo, situada entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico, ao largo da costa noroeste da América do Norte, habitada por pouco mais de 30 mil pessoas e atualmente uma região autônoma da Dinamarca. Lá já existe uma base militar americana. Trump disse que vai tentar negociar a anexação do território. Mas se não der certo, não descartou mandar as Forças Armadas resolverem o assunto. Aí as coisas vão se complicar. Vou explicar. A Dinamarca é um dos 32 países que fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar formada após o fim da Segunda Guerra Mundial para fazer frente aos países comunistas liderados pela extinta União Soviética. Há um artigo no tratado que garante que, caso um dos membros seja atacado, ele será socorrido pelos demais. Ocorre que os Estados Unidos são um desses países. Inclusive, foi um dos criadores da organização e são a sua principal força militar. Esse é um dos motivos que transformam a história em manchete ao redor do mundo.
É necessário lembrar que, no início do seu governo, Trump elegeu como alvo os imigrantes ilegais. Por serem mão de obra fundamental para o funcionamento da economia americana, o assunto subiu como um foguete nos noticiários mundiais. O presidente teve o cuidado de espalhar que os ilegais eram criminosos, entre outras coisas. O assunto ficou nas manchetes durante as primeiras semanas do seu governo. Mas perdeu força. E foi substituindo pelo “tarifaço do Trump”, a taxação de produtos exportados para o mercado americano. O Brasil recebeu uma das tarifas mais altas, de 50%, e foi submetido à exigência de Trump de somente negociar uma redução tarifária se o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, e seus seguidores que se envolveram numa tentativa de golpe de estado fossem anistiados. O governo brasileiro não concordou, alegando que não discutia a soberania nacional. No final da história, Trump e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, se acertaram e estão negociando. O assunto do tarifaço continua nos jornais, mas no pé da página. Lembro que Trump prometeu acabar com dois conflitos que estavam em andamento quando assumiu: Israel contra o movimento terrorista Hamas, que se iniciou em 2023, na Faixa de Gaza. E a guerra entre Rússia e a Ucrânia, que começou em fevereiro de 2024, quando os russos invadiram o leste do território ucraniano. Obteve um cessar-fogo na Faixa de Gaza. Mas ainda não resolveu totalmente a situação. Já a guerra entre russos e ucranianos segue a todo vapor. O mais importante: toda vez que Trump fala sobre essas duas guerras, ele consegue as manchetes. O que temos aqui é o seguinte. O presidente americano trabalhou na televisão durante muitos anos. Portanto, é do ramo da comunicação. Quando concorreu e ganhou a presidência dos Estados Unidos em 2016 surpreendeu os jornalistas, que até então eram tratados com distinção pelos candidatos. Trump tratou a imprensa a pontapés. Lembro-me dele dizendo que os jornais “já eram” e fazendo toda a sua comunicação pelas redes sociais. Tenho lido muito sobre o presidente americano e os jornalistas. Uma das conclusões a que cheguei é que ele entendeu muito antes de nós que a dinâmica nas redações havia mudado devido as novas tecnologias. Ao contrário do jornal impresso em papel, que investe em uma única manchete diária, os digitais precisam de uma nova chamada a cada hora.
Trump é um grande produtor de manchetes. Ele entendeu que atualmente o fato foi substituído pela versão. Em 2020, quando concorreu à reeleição e perdeu para o democrata Joe Biden, foi chamado de “mentiroso” pelo seu adversário. Trump é presidente de uma grande potência militar. Mas não é a única potência no mundo. Os americanos disputam espaço com chineses e russos. Esses três países têm armas nucleares suficientes para destruir o mundo várias vezes. Já vivemos uma situação semelhante. Foi na Guerra Fria (1947 – 1989), quando os países capitalistas eram aliados dos Estados Unidos e os comunistas se agrupavam em torno da União Soviética, que era composta por 15 repúblicas socialistas, entre elas a Rússia. Perguntei a um amigo, que é historiador e professor universitário, se Trump estava ressuscitando a Guerra Fria. Ele respondeu: “Não, Wagner. Porque hoje não existe mais ideologia, tudo é negociável”.






