Para quem apostava que o governo interino de Cachoeirinha recorreria ao caminho mais curto — e mais caro — das contratações emergenciais, sobretudo após o decreto de calamidade na zeladoria urbana, a prefeita Jussara Caçapava decidiu seguir outra trilha. Mais longa, mais técnica e politicamente mais arriscada. Mas, ao menos em tese, mais responsável.
No principal contrato da zeladoria do município, o da limpeza urbana, a gestão optou por não romper, não improvisar e não terceirizar a crise.
Em vez disso, decidiu encarar o passivo, expor as falhas e fazer uma composição administrativa com a empresa já licitada, a FG Soluções Ambientais. Tudo documentado, formalizado e comunicado aos órgãos de controle.
O diagnóstico é duro.
A Prefeitura reconhece uma dívida acumulada de cerca de R$ 7 milhões com a empresa, valor que, segundo a contratada, inviabilizou a manutenção de equipes completas, frota adequada e logística compatível com o contrato.
Do outro lado, relatórios do Controle Interno confirmam o efeito prático: redução de trabalhadores, equipamentos inadequados, falhas de fiscalização e uma cidade tomada por sujeira, mato alto e serviços precários — com impactos diretos na saúde pública, na segurança e na mobilidade urbana.
Diante do dilema clássico da gestão pública — ignorar o passivo e fazer nova contratação emergencial ou tentar regularizar o que existe — Jussara escolheu a segunda opção. E deixou isso registrado, em detalhes, no memorando nº 2155/2026, assinado no dia 30 de janeiro, a que o Seguinte: teve acesso.
Créditos retidos, parte da dívida paga, fiscal trocado e serviços sob lupa
A decisão estabelece a retenção cautelar de R$ 4,5 milhões do crédito da empresa, como forma de proteger o erário e permitir a apuração das inconformidades apontadas pelo Controle Interno.
Ao mesmo tempo, autoriza o pagamento de aproximadamente R$ 2,5 milhões para garantir fluxo mínimo de caixa à contratada, condicionado à retomada imediata e integral dos serviços.
O contrato foi prorrogado por 180 dias — prazo menor do que o permitido em lei — exclusivamente para regularização da execução, reforço da fiscalização e avaliação técnica da conveniência de manter ou não a relação contratual.
Também houve substituição do gestor e do fiscal do contrato e a determinação de que, em até cinco dias úteis, todas as equipes e equipamentos previstos estejam efetivamente nas ruas.
Além disso, as equipes da empresa passam a integrar uma força-tarefa emergencial coordenada pela Secretaria de Infraestrutura e Serviços Urbanos, com prioridade para áreas críticas, unidades de saúde, escolas, vias de grande circulação e pontos indicados pela Defesa Civil e Vigilância Sanitária.
Nada disso foi feito no escuro.
O memorando determina comunicação formal à Procuradoria-Geral do Município, ao Controle Interno, à Superintendência de Compras e Licitações e ao Tribunal de Contas do Estado.
A mensagem política resta clara: não haverá atalhos administrativos sob o pretexto da emergência.
A postura dialoga diretamente com o decreto publicado em janeiro, quando Jussara reconheceu a situação crítica da zeladoria, mas vedou expressamente contratações emergenciais como solução automática.
“Sem atalhos”, disse à época ao Seguinte: — e agora começa a colocar a frase em prática.
O movimento também se encaixa no padrão que a prefeita interina vem tentando construir desde o início do governo: confronto com o “governo do anúncio” e aposta no pragmatismo administrativo.
Foi assim no Arroio Passinhos, quando desmontou a ordem de início assinada sem licença ambiental pela gestão cassada e só chamou a imprensa depois que as máquinas estavam no canteiro.
E é assim, agora, na zeladoria: primeiro resolve o passivo, organiza o contrato e só depois apresenta a solução.
Ao fim, ao menos por ora, Jussara evita a farra, expõe a herança e assume o custo de governar com a conta aberta — o que é algo raro em tempos de emergência e troca traumática de governo.
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