Airton Souza (PL) não postou um tbt com Flávio Bolsonaro por nostalgia. Em política, nada é por acaso — muito menos em tempos de rearranjo do bolsonarismo nacional. O prefeito de Canoas escolheu o dia certo: exatamente quando as manchetes nacionais expunham o início de um estremecimento entre Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Tarcísio cancelou visita à Papuda para ver Bolsonaro pai, mesmo tendo na agenda apenas despachos internos. No mesmo dia, Eduardo Bolsonaro confirmou a candidatura do irmão, Flávio, à Presidência da República e mandou o recado: se Tarcísio ousar disputar o Planalto sem o aval do bolsonarismo, pode acabar como João Dória.
Foi nesse contexto que Airton publicou a foto com aquele que chamou de “amigo”. E sinalizou. Mostrou que tem lado.
O prefeito de Canoas é fiel à família Bolsonaro — mas à sua maneira.
Não adota o discurso estridente nem o comportamento errático de setores mais radicalizados do bolsonarismo. Governa com pragmatismo, aposta na conciliação e opera sempre com o respaldo político do vice Rodrigo Busato (União Brasil), cujo pragmatismo é tão discreto quanto implacável.
A semana anterior ajuda a entender o movimento.
Airton recebeu em Canoas o governador Eduardo Leite (PSD), a quem o PL faz oposição formal na Assembleia Legislativa. A agenda foi conduzida com precisão institucional. Sem constrangimentos, sem vaias, sem bravatas.
O governador veio vistoriar as obras antienchente, especialmente o Dique da Mathias Velho, e saiu sinalizando novos repasses de recursos estaduais.
Leite confirmou o aporte de R$ 179,7 milhões via Fundo a Fundo da Reconstrução — 35% já depositados — e deixou aberta a porta para novos recursos, inclusive para cobrir o aumento de custo do Dique da Mathias Velho, reavaliado de R$ 68 milhões para cerca de R$ 90 milhões, além da extensão do Dique da Niterói, estimada em R$ 23 milhões.
Airton saiu da agenda com o que precisava: perspectiva de mais dinheiro para as obras e a imagem de gestor capaz de dialogar com adversários políticos em nome da cidade. Governar, afinal, exige conversa. Sempre foi assim. E quase sempre dá mais resultado do que gritar.
A repercussão do tbt foi positiva para o prefeito. Mais de 2 mil curtidas, outros mais de mil comentários. Porque obedece a uma regra básica da política: o líder não precisa apenas vencer adversários; precisa, sobretudo, manter seus aliados.
Airton não rompeu com ninguém, não atacou Tarcísio, não desafiou Leite. Apenas reafirmou sua fidelidade ao bolsonarismo — no momento em que o bolsonarismo cobra fidelidade.
Ao fim, entre o Planalto de 2026 e os diques de Canoas, Airton faz o que sabe fazer: joga parado. Mantém pontes, escolhe o timing e deixa claro que, quando o jogo apertar, seu lado já está definido.
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