O que começou como uma medida emergencial após a maior enchente da história recente virou política pública permanente. Canoas decidiu tornar definitivo o Passe Livre no transporte coletivo. O decreto assinado pelo prefeito Airton Souza estabelece a gratuidade universal nos ônibus municipais e coloca a cidade entre os maiores municípios do país a adotar a tarifa zero.
Com cerca de 360 mil habitantes, Canoas passa a ser a maior cidade do Rio Grande do Sul e a segunda maior do Brasil com transporte público gratuito, atrás apenas da cearense Caucaia.
A decisão envolve uma conta que mistura gestão fiscal, mobilidade urbana e impacto social.
Manter o sistema sem cobrança ao usuário custa cerca de R$ 6 milhões por mês ao município. O orçamento anual da cidade gira em torno de R$ 3,57 bilhões em 2026.
Segundo o secretário de Mobilidade Urbana, Marcos Junior Melchior, a política só foi possível após um processo de reorganização financeira da prefeitura.
– Hoje Canoas investe cerca de R$ 6 milhões por mês para garantir a tarifa zero, que é uma escolha do prefeito. Esse investimento foi viabilizado com equilíbrio das contas, controle de gastos e revisão de contratos – disse ao Seguinte: aquele que é um dos assessores mais próximos a Airton.
Entre as medidas citadas estão cortes de despesas administrativas e renegociação do contrato do transporte coletivo.
– Reduzimos pela metade as despesas em aluguéis de veículos e também economizamos cerca de R$ 35 milhões com o recálculo do contrato com a concessionária do transporte coletivo – explicou.
A prefeitura também pretende ampliar fontes indiretas de financiamento do sistema, como concessões de abrigos de ônibus, publicidade em veículos (busdoor) e gestão do parque semafórico.
A gratuidade provocou uma mudança imediata no uso do transporte.
Antes da política, o sistema registrava cerca de 852 mil passageiros por mês. Hoje, o número supera 1,45 milhão de utilizações mensais, chegando em alguns períodos a 1,6 milhão.
Para Melchior, o crescimento mostra que a população voltou a utilizar o transporte coletivo.
– Na enchente eram cerca de 200 mil usuários. Depois passamos para cerca de 600 mil. Hoje chegamos a 1,6 milhão de utilizações mensais. As pessoas estão usando o sistema – disse.
A prefeitura também prepara melhorias operacionais. Entre elas estão telemetria nos ônibus para monitorar direção e consumo, além da implantação de semáforos inteligentes com prioridade para o transporte coletivo.
Pós-uberização: argumento social, impacto econômico
Para o prefeito Airton Souza, a decisão vai além da mobilidade.
– Transporte público não pode ser um privilégio. Ele precisa ser um direito. A tarifa zero significa mais acesso ao trabalho, à educação, à saúde e aos serviços da cidade – afirmou.
Segundo ele, a política também funciona como ferramenta de recuperação econômica.
– Quando as pessoas conseguem circular pela cidade, a economia gira. O trabalhador chega ao emprego, o estudante chega à escola e o comércio recebe mais clientes.
O vice-prefeito Rodrigo Busato destaca que a gratuidade ajuda a reduzir desigualdades urbanas.
– A tarifa muitas vezes é uma barreira para quem mais precisa. Com o passe livre, garantimos mobilidade para toda a população e ampliamos oportunidades – afirmou.
Experiências de tarifa zero em outras cidades indicam efeitos que vão além da mobilidade.
Em Caucaia, por exemplo, a demanda por ônibus cresceu 371% entre 2021 e 2023, enquanto o comércio e os serviços registraram aumento de cerca de 25% no faturamento.
A prefeitura de Canoas aposta em um movimento semelhante.
– Os comerciantes já relatam aumento nas vendas. Quando as pessoas circulam mais, a cidade inteira se beneficia – afirmou Melchior.
Para Melchior, a política também responde a uma transformação estrutural na mobilidade urbana.
– É uma política que o mundo vai ter que aplicar. O transporte coletivo mudou, com a uberização, os aplicativos e o teletrabalho após a pandemia. Cada vez mais ele será a única garantia de mobilidade para a população de baixa renda.
O tema, inclusive, já entrou na agenda nacional. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou que o governo federal realiza estudos sobre formas de financiamento da tarifa zero no país.
O próprio prefeito Airton Souza tem levado o tema a Brasília. O prefeito já esteve três vezes no Ministério das Cidades discutindo apoio federal ao modelo.
O debate sobre financiamento do transporte público cresce em todo o país.
Para o professor Mauro Zilbovicius, da Universidade de São Paulo, tratar a tarifa apenas como pagamento direto do usuário é um erro conceitual.
Segundo ele, o custo do sistema não é gerado pelo passageiro individual, mas pela estrutura necessária para garantir mobilidade urbana.
A lógica é semelhante à de outros serviços públicos financiados coletivamente, como saúde e educação.
A prefeitura pretende acompanhar os impactos da política por meio de indicadores técnicos e estudos de mobilidade. A cidade também prepara para junho um fórum nacional sobre transporte gratuito, com participação do Tribunal de Contas do Estado.
Ao fim, enquanto o debate avança no Brasil, a Canoas já decidiu. E se transforma em um dos maiores laboratórios urbanos do país para testar a tarifa zero em larga escala.
Se em um ônibus em que estavam um gari, um estudante e um juiz aposentado, era o gari a pagar a passagem, agora ao menos o gari não precisa mais tirar o dinheiro diretamente do bolso.







Uma resposta
ENQUANTO ISSO A DONA DA CIDADE A SOGIL TEM A 2ª MAIOR TARIFA DO RS, A PRIMEIRA É CAXIAS QUE POR COINCIDÊNCIA PERTENCE A FAMILIA PEREIRA DONA DA SOGIL E DO TRANSPORTE EM GRAVATAÍ