O setor supermercadista do Rio Grande do Sul segue gigante na economia estadual, mas entrou em 2025 com sinais de desaceleração. Dados divulgados nesta terça-feira pela Associação Gaúcha de Supermercados mostram que os supermercados gaúchos movimentaram R$ 75,6 bilhões em vendas no ano passado, com crescimento nominal de 8,3%. Quando descontada a inflação, porém, o avanço real foi de 4,12%, a menor variação do setor em sete anos.
O diagnóstico foi apresentado pelo presidente da entidade, Lindonor Peruzzo Junior, durante coletiva de imprensa sobre o Ranking Agas 2025, levantamento anual que aponta as redes que mais faturaram no Estado.
Segundo o dirigente, a desaceleração reflete um cenário macroeconômico mais complexo. “Temos um ambiente de maior concorrência, crescimento do número de lojas, consumidores mais endividados e dificuldade para contratar mão de obra. Tudo isso acaba pressionando o desempenho do setor”, afirmou.
O ranking das maiores redes do RS confirma a força de grandes grupos regionais no varejo gaúcho.
A liderança permanece com a Companhia Zaffari, de Porto Alegre, que registrou R$ 8,83 bilhões em faturamento em 2025 e opera 45 lojas.
Na sequência aparecem Comercial Zaffari (R$ 6,84 bilhões e 53 lojas), Unidasul (R$ 3,115 bilhões e 45 lojas), Andreazza (R$ 2 bilhões e 48 lojas) e Grupo Imec (R$ 1,799 bilhão e 32 lojas). Completam o Top 10: Asun Supermercados (R$ 1,57 bilhão), Master Sonda (R$ 1,49 bilhão), Peruzzo Supermercados (R$ 1,35 bilhão), Libraga Brandão Supermercados (R$ 1,32 bilhão) e Guanabara Supermercados (R$ 1,07 bilhão).
Ao todo, o levantamento mapeou 7.112 supermercados em operação no Estado, cerca de 280 a mais do que em 2024.
Os destaques do Ranking Agas 2025 serão homenageados em evento no dia 25 de março, no Grêmio Náutico União.
Entre as premiações, o Troféu Supermercador será entregue ao empresário Marcos Oderich, dirigente da centenária Conservas Oderich. Segundo a AGAS, a escolha reconhece a trajetória do empresário e sua contribuição ao setor de alimentos no Estado.
Concorrência cresce inclusive fora do setor — e o endividamento e as bets
Um dos pontos que mais preocupam os supermercadistas é o aumento da concorrência. De acordo com Peruzzo Junior, o setor disputa cada vez mais espaço com outros formatos de varejo.
“Hoje temos farmácias vendendo alimentos e itens básicos, muitas vezes com horários de funcionamento muito mais amplos que os supermercados. Isso cria uma concorrência desequilibrada”, afirmou.
O próprio crescimento do número de lojas também intensifica a disputa por consumidores. O estudo mostra que 153 novas unidades devem ser abertas em 2026, em diferentes cidades do Estado.
Outro fator que preocupa o setor é o impacto do endividamento das famílias no consumo.
Segundo o presidente da AGAS, o avanço de crédito consignado e apostas online (bets) tem afetado tanto clientes quanto trabalhadores do setor.
“Hoje cerca de 26,7% dos funcionários dos supermercados gaúchos têm empréstimos consignados com desconto em folha, com juros que chegam a 12% ao mês”, disse.
Ao falar sobre redução no consumo do arroz, mesmo com preços mais baixos, o presidente admitiu a possibilidade de que seja já efeito da popularização das canetas emagrecedoras.
Mudança no comportamento do consumidor
O levantamento também aponta mudanças importantes nos hábitos de compra. Com mais ofertas e canais de venda, o consumidor passou a frequentar mais supermercados diferentes, o que reduziu o valor médio gasto em cada compra.
O tíquete médio caiu de R$ 80,75 em 2024 para R$ 78,02 em 2025.
Ao mesmo tempo, novos formatos de operação ganham espaço.
Entre as empresas que participaram do estudo 28% já operam lojas no modelo atacarejo e 61,8% oferecem serviço de delivery.
“O consumidor tem cada vez menos tempo para ir ao supermercado e exige mais conveniência. Por isso o delivery se tornou uma realidade no setor”, explicou Peruzzo.
Mesmo com os desafios, o setor supermercadista segue como um dos pilares da economia do Estado. Os supermercados respondem por 9,4% do Produto Interno Bruto gaúcho e empregam 162,2 mil trabalhadores diretos.
Segundo Peruzzo Junior, o segmento também tem papel central na geração de oportunidades.
“Somos um dos setores que mais oferecem primeiro emprego. Muitos dos gerentes que hoje lideram nossas lojas começaram como empacotadores ou operadores de caixa”, afirmou.
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