RAFAEL MARTINELLI

Prefeita de Cachoeirinha Jussara Caçapava vai apoiar Pimenta ao Senado; os bastidores — e uma análise

A prefeita Jussara Caçapava (Avante), anunciou na noite desta terça-feira (23) apoio a pré-candidatura de Paulo Pimenta (PT) ao Senado. Foi na casa de Cláudio Ávila.

Confirma aquilo que venho definindo há meses como o pragmatismo implacável do grupo político liderado pela Família Caçapava. E está certo. Porque, além de ajudar Cachoeirinha, e vou explicar neste artigo, combina com sua trajetória.

Quem conhece a história política da família sabe que suas raízes populares sempre dialogaram com setores da centro-esquerda. Mas também sabe que Jussara, o secretário municipal de Educação Ildo Júnior e Paulo César Agliardi — o Tete, agora apresentado politicamente como Paulo Caçapava e pré-candidato a deputado federal — jamais permitiram que a ideologia se transformasse em obstáculo para relações institucionais ou alianças políticas.

A própria ascensão de Jussara a prefeita interina ajuda a explicar isso. Foi reeleita presidente da Câmara com apoio de setores da esquerda. Ocupou a prefeitura interinamente após o impeachment de Cristian Wasem. Depois venceu a eleição suplementar. Tudo isso em um ambiente político que incluiu a participação do vereador Gustavo Almansa na mesa diretora do Legislativo — mesmo o petista tendo votado contra a cassação.

Chegamos à Paragem Verdes Campos, em Gravataí, nesta noite.

Jussara veio acompanhada dos filhos, do vereador Paulinho da Farmácia (PDT) e de lideranças da região. Do outro lado da porta estava o anfitrião: Cláudio Ávila (Avante), seu assessor especial em Cachoeirinha e vereador exercendo o segundo mandato em Gravataí, junto a esposa Natália Fonseca, vice-presidente estadual do Avante.

Ávila — que já ganhou capítulo em livro do comunicador Chico Pereira como “encantador de serpentes” — é uma das figuras mais peculiares da política regional.

É homem de pragmatismo tão implacável quanto o de Jussara. Mas também de uma independência política rara.

Costumo lembrar um episódio.

Quando Lula estava preso e defender o petista em determinados ambientes políticos — incluindo parte de uma elite do atraso, na qual circula — equivalia a advogar para o diabo, Ávila (advogado brilhante) foi o único dos 21 vereadores de Gravataí a dizer publicamente que a condenação era injusta e que Sérgio Moro não possuía provas para sustentar a sentença.

Enfim, que era, como virou meme, um ‘juiz ladrão’.

O PT sequer possuía bancada na Câmara. Ávila, que restava no União Brasil, não ganhava absolutamente nada com aquela posição. Pelo contrário. Assumia riscos. Por isso o chamei, na época, de “vereador do Lula”.

O curioso é que anos antes ele havia sido justamente o autor do pedido de impeachment da então prefeita petista Rita Sanco.

Parece contraditório. Mas não é. É apenas alguém que separa relações pessoais, convicções e disputas políticas. Uma característica que ajuda a explicar por que se tornou peça importante da engrenagem política de Jussara.

E foi justamente na casa dele que Paulo Pimenta foi recebido. Não é pouca coisa.

O apoio de Jussara também combina porque Paulo Pimenta opera numa lógica muito semelhante. Como escrevi recentemente ao analisar sua passagem por Gravataí, o petista absorveu uma das principais características de Lula. A política das pontes. Da conversa. De atender prefeitos e vereadores de diferentes partidos. Aquela que pergunta menos quem governa uma cidade e mais o que a cidade precisa.

Foi isso que permitiu que mantivesse boa relação com Eduardo Leite (PSD) para a reconstrução do Rio Grande do Sul no pós-enchente. Que permitiu que recursos federais chegassem a municípios administrados por partidos adversários. Um exemplo é o prefeito bolsonarista de Canoas, Airton Souza, que o chama de “parceiro”.

Em tempos de ferraduras ideológicas cada vez mais apertadas, isso virou diferencial competitivo.

E, reputo, Jussara percebeu. Porque prefeitos precisam de algo muito mais concreto do que debates ideológicos nas redes sociais. Precisam de obras. Recursos. Investimentos. Precisam entregar resultados.

Embora o anúncio do apoio tenha produzido a principal manchete aqui, a pauta do encontro também serviu para Jussara apresentar uma agenda regional que incluiu habitação, saúde, mobilidade urbana, transporte metropolitano, geração de emprego e renda e projetos ligados ao Ministério das Cidades. A saúde apareceu como tema central. Também foram discutidas soluções para transporte coletivo, integração regional, infraestrutura urbana e captação de recursos federais. O ‘pires’ que quem governa município — o ente pobretão do pacto federativo — sempre traz na mão.

É justamente aí que entra o valor estratégico de um eventual senador conectado ao Palácio do Planalto. Mais: Lula pode ser reeleito, já pensaram nisso? Pimenta é conexão certeira com Brasília, seja ou não eleito para o Senado. Jussara governa até 31 de dezembro de 2028.

Como o segredo de aborrecer é dizer tudo, vamos lá: a política municipal não pode pensar em Brasília como palco ideológico. É triste, humilhante até, mas é preciso pensar primariamente como fonte de recursos.

A Realpolitik

O aspecto mais interessante dessa movimentação é que ela não fecha nenhuma porta. Abre mais uma.

Há poucos dias escrevi sobre o apoio de Jussara à candidatura de Gabriel Souza (MDB) ao governo do Estado. Uma articulação construída pelo ex-deputado estadual Dimas Costa (PSD), ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite — o ‘Grande Eleitor’ de Gabriel, seu vice.

Agora surge o apoio a Paulo Pimenta ao Senado.

Ao mesmo tempo, o vice-prefeito Mano do Parque (PL) permanece alinhado ao projeto de seu correligionário Luciano Zucco para o Palácio Piratini.

Vista superficialmente, é uma lógica que comete um daqueles que chamo ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’. Mas responde a uma obrigação involuntária do governante de turno. Hoje não é permitido a qualquer prefeito(a) apostar todas as fichas numa única mesa. Principalmente prefeito(a)s que governam cidades estratégicas. E Cachoeirinha se tornou estratégica.

Resta aqui outro fator que ajuda a explicar o interesse mútuo.

Cachoeirinha deixou de ser apenas mais um município da Região Metropolitana. A instalação da futura fábrica de semicondutores colocou a cidade dentro de um debate nacional. O debate da soberania tecnológica. É uma pauta que interessa diretamente ao governo federal.

Não vi ninguém falar disso com a devida atenção.

Interessa a Lula. Por extensão, a Paulo Pimenta. Interessará a Flávio Bolsonaro, caso eleito. E precisa interessar profundamente a Jussara.

Mas sigamos, em mais um aspecto de análise, antes da conclusão.

Alguns — que não compreenderam o tamanho da coisa — podem perguntar como fica o PT local diante da aproximação.

Traduzo com o factual: os vereadores Gustavo Almansa e Leo da Costa mantêm relação republicana com o governo municipal. Projetos da oposição são mais aprovados do que bloqueados.

Além disso, David Almansa, que foi candidato a prefeito contra Cristian, ocupa posição relevante na comunicação do governo Lula e comunga politicamente com Paulo Pimenta.

Há divergências locais. Mas existe uma compreensão estratégica. O objetivo central do PT nacional continua sendo a reeleição de Lula. E alianças regionais que ampliem a base de sustentação desse projeto dificilmente serão vistas como problema.

O PT usa o ‘centralismo democrático’ de Lenin. Traduzindo: quando o partido no planalto decide, cumpra-se na planície.

Fato é que a reunião realizada em Gravataí produziu uma fotografia que ajuda a explicar a política como ela realmente funciona. Na mesma mesa estavam lideranças do Avante, do PSDB, do PP e lulistas.

O vereador Roger Corrêa (PP), por exemplo, mesmo distante ideologicamente de Pimenta, trabalha pelos R$ 40 milhões em investimentos federais para o Rincão da Madalena, seu bairro, que é dos mais pobres de Gravataí.

Alex Peixe (PSDB), líder do governo Luiz Zaffalon (PSD) na Câmara de Gravataí, estava na mesa. Fernando Pacheco (Avante), também.

Todos olhando para uma pauta comum. Conexão. Recursos. Obras. É menos emocionante do que as guerras culturais da internet. Mas costuma produzir mais resultados. É Realpolitik.

Ao fim, o apoio de Jussara a Paulo Pimenta reafirma um método. O do pragmatismo implacável.

A prefeita apoia Gabriel Souza para governador. Apoia Paulo Pimenta para o Senado. Deixa seu vice confortável para apoiar Zucco. Mantém diálogo institucional com diferentes forças políticas. E tenta posicionar Cachoeirinha no centro das discussões sobre investimentos, reconstrução, desenvolvimento e soberania tecnológica.

Pode-se gostar ou não da estratégia. Mas ela possui coerência.

E, para a ‘Pobre Cachoeirinha’ — como costumo chamar uma cidade que atravessa uma década de crises político-policiais —, convençam-me de que existe outro caminho para quem governa além de se recusar a calçar uma ferradura ideológica que simplesmente não cabe no pé de uma cidade que pede socorro.

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