RAFAEL MARTINELLI

O encontro que cria a percepção de que Dimas e Levi são os candidatos do governo em Gravataí — e como Zaffa ganha com isso

Imagem retirada do convite para o evento que reúne Dimas e Levi

Alerta de textão. Merece. Reputo um dos movimentos mais simbólicos da política interna corporis do governo Zaffa 2, em Gravataí.

O ex-deputado estadual Dimas Costa (PSD), que buscará uma vaga na Assembleia Legislativa, e o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos), que concorre à Câmara Federal, encontram-se dia 7, em um “conversa com nossos pré-candidatos”, conforme o convite, organizado pela secretária municipal da Educação, Aurelise Braun.

Mas a política raramente se resume àquilo que aparece no convite. A principal notícia talvez nem seja Dimas. Nem Levi. Muito menos Aurelise. A principal notícia atende pelo nome de Luiz Zaffalon.

Porque, no fim das contas, o maior beneficiado por esse movimento talvez seja justamente quem sequer disputa eleição em 2026.

O prefeito governa até 31 de dezembro de 2028. E quem governa precisa administrar uma mercadoria cada vez mais escassa na política contemporânea: tranquilidade.

Não paz. Na política, paz absoluta inexiste. O que existe é uma espécie de armistício permanente. Uma redução de danos. Uma convivência suficientemente estável para que a administração sobreviva às inevitáveis disputas eleitorais.

É exatamente isso que esse encontro comunica.

Desde que Zaffa apresentou Dimas como seu candidato preferencial à Assembleia, durante a festa de aniversário que, como escrevi, funcionou muito mais como um comício do que como aniversário, uma questão permanecia aberta dentro da base governista: como acomodar Levi?

A pergunta nunca foi apenas partidária. Era emocional. Política. Administrativa.

Levi não é apenas o vice-prefeito. É uma das principais lideranças dos dois governos de Zaffa. Voltou recentemente ao trabalho depois da batalha mais difícil da própria vida. Sua recuperação mobilizou Gravataí.

Quando escrevi sobre seu retorno, sustentei que havia algo mais importante do que a candidatura: a própria vida. Hoje essa realidade permanece.

Mas a política voltou a cobrar espaço. Porque a política sempre volta. E voltou trazendo uma necessidade evidente: construir um ambiente onde duas das principais lideranças eleitorais da administração possam caminhar sem produzir ruídos permanentes dentro da própria base.

É isso que o encontro do dia 7 faz. Não resolve todas as divergências. Nem elimina outras dobradinhas já construídas. Mas entrega algo muito mais valioso. Entrega percepção. E política é, antes de qualquer coisa, percepção.

Dimas continuará fazendo campanha ao lado de Lucas Redecker (PSD) para deputado federal. Em diferentes regiões também seguirá caminhando com Juvir Costella (MDB). Em Cachoeirinha, divide espaço político com Paulo Caçapava (Avante).

Levi igualmente preserva suas aproximações. Mantém diálogo com o vereador de Gravataí Bombeiro Batista (Republicanos). Construiu relações estaduais próprias.

Nada disso desaparece. Aliás, nem deveria. Campanhas proporcionais são, por definição, redes. Não linhas retas. O que muda agora não são necessariamente os votos. É a fotografia. E fotografias, em política, frequentemente sobrevivem mais do que discursos.

Quando Dimas e Levi aparecem juntos num ato político organizado por integrantes do governo, acompanhados por secretários, vereadores e, possivelmente, pelo próprio prefeito, estabelece-se uma narrativa silenciosa.

Os dois passam a ser percebidos como as candidaturas locais do governo.

Não importa que existam outras composições eleitorais. Não importa que cada um mantenha alianças distintas fora de Gravataí. Importa aquilo que ficará registrado na memória política. A imagem.

A política moderna comunica menos por resoluções partidárias do que por símbolos. E poucos símbolos são mais fortes do que dividir o mesmo palco.

Esse movimento também encerra um processo que começou meses atrás. Quando Dimas convidou Levi para seu aniversário, muita gente tratou o gesto como mera cordialidade. Oportunismo, até. Não era. Ou, pelo menos, não era apenas isso.

Naquele momento, escrevi que Zaffa elogiava a maturidade política de Dimas. O convite funcionava como um aceno.

Levi não compareceu. Agora comparece. Na política, os tempos também comunicam. Às vezes, um “sim” dito meses depois vale mais do que um “não” dito no momento do convite. Porque demonstra que a construção não dependia do calendário. Dependia da hora.

Existe uma velha máxima atribuída a Deng Xiaoping que ajudou a orientar a ascensão chinesa durante décadas: “esconda a força, espere a hora”. Não significava passividade. Muito menos ausência de estratégia. Significava compreender que projetos sólidos não se impõem. São construídos pacientemente até que o cenário esteja pronto para torná-los quase naturais.

Guardadas todas as proporções entre a geopolítica e a política municipal — analogias servem para iluminar fenômenos, não para equipará-los , é difícil não lembrar dessa lógica ao observar a caminhada de Dimas dentro do grupo de Zaffa.

Em nenhum momento o governo pareceu apressado em transformá-lo, formalmente, no candidato do prefeito. Primeiro vieram as entregas. Depois, a narrativa do “deputado de resultados”. Na sequência, o lançamento da pré-candidatura que reuniu mais de mil pessoas e consolidou aquilo que já era percebido nos bastidores: Dimas havia deixado de ser apenas um deputado — e embaixador do governador Eduardo Leite em Gravataí — para tornar-se um projeto político do grupo.

Vieram, então, os sincericídios de Zaffa. Chamou-o de “Animal Político”. Disse nunca ter visto alguém trabalhar daquela maneira. Apresentou-o como seu candidato.

Nada disso ocorreu de uma vez. Tudo foi acontecendo em doses sucessivas. A política costuma recompensar quem compreende o tempo.

Agora ocorre movimento semelhante em relação à convivência entre Dimas e Levi.

Durante meses, os bastidores alimentaram especulações. Haveria disputa silenciosa entre grupos? Competição interna? Quem ocuparia mais espaço na estrutura do governo? Quem herdaria protagonismo para o futuro?

Perguntas compreensíveis. Mas talvez formuladas a partir de uma premissa equivocada. Porque Zaffa nunca precisou escolher entre Dimas e Levi para 2026. Precisava impedir que o governo fosse obrigado a escolher.

Há enorme diferença. Quando o prefeito consegue construir um ambiente onde apoiadores de ambos convivem, fazem campanha e dividem agendas sem transformar cada eleição proporcional numa guerra civil interna, preserva aquilo que mais interessa ao chefe do Executivo: autoridade.

Nenhum prefeito governa confortavelmente quando seus aliados passam mais tempo disputando território entre si do que administrando a cidade. E talvez esse tenha sido o maior ‘bem-vindo à política’ da gestão Zaffa.

A eleição de 2024 produziu uma coalizão tão ampla quanto heterogênea. Coalizões amplas geram força. Também produzem tensões. Administrá-las passa a ser parte do governo.

Há um aspecto simbólico que ajuda a compreender por que esse encontro comunica tanto.

Os candidatos poderiam simplesmente continuar fazendo suas campanhas separadamente. Ninguém estranharia. Seria o caminho mais fácil. Mas optaram pela fotografia conjunta.

É só mais um ato? Na política, detalhes costumam decidir narrativas. Imagens organizam expectativas. Criam interpretações. Produzem leituras que sobreviverão muito depois de esquecidos os discursos.

Fato é que a fotografia entre Dimas e Levi produz uma consequência imediata. Ela comunica para dentro do governo. Secretários. CCs. Vereadores. Lideranças comunitárias. Militantes. Todos passam a receber uma mensagem simples: não é preciso escolher um lado; pode-se apoiar ambos.

Esse talvez seja o maior ativo político entregue ao prefeito. Se a política vive de reduzir incertezas, o encontro reduz uma delas.

Insisto que o que mais chama atenção é aquilo que o encontro evita. Constrangimentos. Disputas públicas. Que CCs, secretários ou vereadores sintam necessidade de declarar fidelidades incompatíveis.

Em política, evitar crises muitas vezes produz mais resultado do que vencê-las. Já escrevi outras vezes que existem as crises que acontecem. E existem aquelas que deixam de acontecer. As segundas raramente recebem manchetes. Mas costumam ser mais importantes para quem governa.

Talvez estejamos diante justamente de uma delas. Porque, se ninguém precisar escolher entre Dimas e Levi dentro do governo, Zaffa poderá continuar concentrando energia onde realmente precisa: governar. E quem governa bem costuma chegar mais forte ao debate sobre o futuro. Ainda que não seja candidato.

O convite do evento já circula entre apoiadores das duas pré-candidaturas da base do governo Zaffa

A xícara de café

Mas existe uma camada ainda mais profunda nessa construção. Ela não diz respeito apenas a 2026. Diz respeito a 2028.

Toda eleição proporcional carrega uma disputa paralela. Quem amplia capital político? Quem emerge maior ao final da campanha? Quem passa a ocupar posição privilegiada na sucessão municipal?

Essas perguntas não precisam ser respondidas agora.

Aliás, talvez o maior acerto de Zaffa seja justamente impedir que precisem ser respondidas.

Quando apresentou Dimas como candidato a deputado estadual, fez questão de afirmar que seu escolhido disputava a eleição para cumprir quatro anos de mandato. Não para utilizar a Assembleia como trampolim rumo à Prefeitura.

Na época, muita gente interpretou a frase apenas como uma resposta aos adversários. Talvez fosse. Mas também funcionou como uma sinalização interna. Ao retirar, ao menos discursivamente, Dimas da corrida sucessória, Zaffa evitava transformar 2026 num plebiscito sobre 2028. E preservava o futuro. Porque o futuro, em política, costuma valer mais quando permanece aberto.

Agora, ao dividir um ato político entre Dimas e Levi, reforça exatamente essa lógica. Em vez de estimular uma disputa prematura entre duas lideranças importantes do governo, produz uma convivência. Não elimina ambições ou projetos. Mas os coloca em suspensão.

Quem governa até dezembro de 2028 dificilmente teria interesse em antecipar uma guerra sucessória dois anos antes. Ao contrário. Quanto menos ela começar agora, maior tende a ser sua capacidade de conduzi-la depois.

É por isso que continuo entendendo Luiz Zaffalon como o principal beneficiário desse encontro. Não porque ganhará votos. Prefeitos não transferem votos por osmose, mesmo carreguem sempre a responsabilidade de ser ‘Grande Eleitor’. Mas sim porque preserva autoridade.

Autoridade, em política, é um ativo que se desgasta diariamente. Cada conflito interno cobra um pedaço dela. Cada conciliação bem-sucedida ajuda a reconstruí-la. Há uma diferença importante entre liderar um grupo e apenas administrá-lo. Administrar significa impedir rupturas. Liderar significa convencer pessoas com interesses distintos de que permanecer juntas continua sendo mais vantajoso do que se separar.

Esse encontro aponta exatamente nessa direção.

Naturalmente, seria ingenuidade imaginar que todas as divergências desapareceram. Não desapareceram. Nem desaparecerão.

Dimas continuará dialogando com lideranças que não fazem parte da caminhada estadual de Levi. Levi continuará preservando alianças próprias. Bombeiro Batista seguirá existindo politicamente. Lucas Redecker permanecerá ocupando espaço importante na estratégia de Dimas. Juvir Costella continuará sendo parceiro de Zaffa.

Nada disso muda.

Há, porém, uma frase que costumo repetir porque a política insiste em confirmá-la. Política é percepção. Se milhares de eleitores, lideranças e agentes políticos passarem a enxergar Dimas e Levi como as candidaturas locais do governo, essa percepção produzirá efeitos concretos.

CCs se sentirão mais confortáveis para apoiar ambos. Lideranças comunitárias tenderão a dividir agendas. Vereadores encontrarão menos constrangimento para aparecer ao lado dos dois.

Até quem permanecer fiel a outras dobradinhas dificilmente conseguirá ignorar o simbolismo da fotografia.

Ao fim, talvez o aspecto mais interessante desse episódio esteja justamente naquilo que não será dito durante o encontro.

Provavelmente ninguém anunciará um pacto. Ninguém falará em sucessão. Ou declarará encerradas as disputas internas. Nem precisaria. A política fala muito através dos silêncios. Os gestos costumam dizer aquilo que os discursos evitam. E o gesto do dia 7 parece relativamente claro. O governo decidiu apresentar à cidade que suas duas principais candidaturas locais podem caminhar lado a lado.

Se isso permanecerá até outubro, ninguém sabe. Eleições são organismos vivos. Mudam. Recuam. Produzem novas alianças e desfazem antigas. Mas há fotografias que sobrevivem às circunstâncias. Essa tem potencial para ser uma delas. Porque entrega algo raro em tempos de ansiedade eleitoral. Não a paz. Na política, como na vida, ela costuma ser provisória. Entrega algo mais realista: uma trégua suficientemente sólida para permitir que Zaffa continue governando sem que seus aliados tentem decidir hoje uma sucessão que só será disputada daqui a dois anos.

Talvez seja essa a potencial mensagem do encontro: Dimas e Levi aparecem na fotografia, mas quem sorri por trás da câmera, politicamente, é Zaffa. E ele faz isso mantendo a mesma lógica que parece orientar sua condução política desde a reeleição: administrar o presente sem entregar o futuro.

Afinal, em política, há quem tenha pressa de beber o café. E há quem compreenda que, se a xícara ainda está em suas mãos, o melhor é não deixar ninguém tomá-la antes da hora.

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