A aprovação do estado de greve pelos trabalhadores da educação pública municipal de Gravataí, em assembleia geral promovida pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública Municipal (SPMG), ressuscita uma realidade, teimosa como ela só, que, após perpassar gabinetes, tribunas, redes antissociais e ofícios, costuma entrar na sala de aula e demonstrar que a vida real é muito mais complexa do que qualquer narrativa simplista.
Para quem está fora do ambiente escolar, o termo pode soar abstrato. Vamos ao desenho: estado de greve não é greve deflagrada. As aulas continuam, os alunos seguem nas salas. Mas é um alarme aceso no painel. É o aviso formal e legal da categoria ao governo de Luiz Zaffalon de que a máquina de mobilização está pronta e que, se as pontes de negociação ruírem de vez, a paralisação das atividades será o passo seguinte.
E o relógio já começou a correr. A categoria estabeleceu um marco temporal: a próxima assembleia geral está agendada para o dia 15 de setembro. Há exatos trinta dias para que a diplomacia das comissões de negociação substitua os ofícios truncados.
Nos últimos três meses, ao menos da porta para fora das reuniões, o cenário indicava um caminho diferente. Conforme apurado e analisado por esta coluna, a crise vivia um momento em que a realidade parecia ter forçado as partes a baixarem o tom. A intermediação do presidente da Câmara de Vereadores, Dilamar Soares, o Dila, havia funcionado como um fiador político para criar um ambiente mínimo de confiança e reabrir as portas do gabinete do prefeito.
Contudo, a trégua durou pouco. A justificativa do sindicato para decretar o estado de greve fundamenta-se no fato de que a Prefeitura respondeu formalmente aos pleitos informando que as reivindicações não seriam atendidas.
Como relatado pela presidente do SPMG, Silvina Peres, na Câmara de Vereadores, a frustração aumentou porque a comissão de negociação do governo não apresentou contrapropostas reais. Na avaliação da entidade, o processo transformou-se em uma tática protelatória — uma forma de ganhar tempo enquanto a insatisfação nas escolas acumulava pressão.
A pauta de reivindicações da categoria atinge pontos sensíveis do bolso e da rotina pedagógica: (1) a Hora-atividade presencial: a revogação da obrigatoriedade do cumprimento presencial do período de planejamento, hoje apelidado pejorativamente nas salas de professores como “castigo”; (2) o Difícil Acesso: o restabelecimento da gratificação e a recomposição dos valores suprimidos em diversas escolas; (3) as Perdas salariais: a recomposição de perdas inflacionárias acumuladas estimadas em 25%, com incorporação ao vencimento básico e impacto no plano de carreira; e (4) o Vale-alimentação: reajuste e ampliação do benefício.
O paradoxo desta crise reside no momento em que ela atinge o seu ápice. Gravataí vive o que deveria ser um momento virtuoso em sua história educacional.
Os dados do Ideb 2025 trouxeram notícias que há anos a quarta economia do Estado esperava. Nos anos finais do Ensino Fundamental, a rede municipal saltou de um índice de 4,3 (em 2023) para 4,8 — um avanço expressivo de 0,5 ponto. O resultado colocou Gravataí na 4ª colocação entre as dez maiores cidades do Rio Grande do Sul, ficando atrás apenas de Novo Hamburgo (5,1), Caxias do Sul (5,0) e Santa Maria (4,9), e à frente de capitais e polos como Porto Alegre, Pelotas e Canoas. Nos anos iniciais, o índice subiu de 5,6 para 5,9.
O desempenho também se refletiu na proficiência do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), com avanços significativos tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática em ambos os ciclos.
O prefeito Zaffa e a prefeitura creditam a evolução às mudanças internas, capacitações, investimentos em infraestrutura e novas diretrizes de gestão implementadas nos últimos anos.
No entanto, o sindicato contesta essa paternidade pedagógica. A narrativa do SPMG aponta que a melhoria expressiva apurada nos indicadores de 2025 é reflexo do trabalho acumulado antes das alterações promovidas pela atual gestão na hora-atividade e nos cortes do difícil acesso.
A tese do sindicato é de que os efeitos do desgaste emocional, do sentimento de precarização e das perdas financeiras impostas recentemente aos educadores não apareceram na fotografia do Ideb de 2025, mas vão cobrar o seu preço nos resultados futuros.
O ‘Sindicato dos Alunos’ exige maturidade política — e transparência
Em artigos anteriores, abordei a provocação feita pela secretária de Educação, Aurelise Braun, ao mencionar a existência de um “sindicato do aluno”. Reitero a análise: o ‘sindicato dos alunos’ não é a gestão municipal nem o SPMG. É a sociedade. São as famílias que deixam seus filhos na porta da escola todas as manhãs. E esse sindicato invisível não quer saber quem venceu a guerra de notas oficiais, cards ou discursos acalorados. Ele quer aprendizagem, dignidade e estabilidade.
O governo tem o dever fiscal de gerir a máquina, mas reputo se equivoca ao fechar a porta da negociação com um “não” seco, sem apresentar dados detalhados ou estudos de impacto financeiro que sustentem a impossibilidade de recuar ou conceder contrapropostas. Para reverter a percepção de que a mesa de diálogo foi apenas um teatro protelatório, o Executivo precisa desenhar saídas reais. Ou justificar detalhadamente o “não”, até para que, para além da categoria, a comunidade escolar e a sociedade entendam.
Fato é que uma greve na educação é um remédio amargo que costuma ferir mais o paciente do que a doença. A paralisação traz prejuízos pedagógicos incalculáveis para alunos que já carregam o peso de defasagens históricas, além de desgastar a relação da categoria com a própria comunidade escolar.
Uma eventual greve é ruim para o governo Zaffa, que adicionaria combustível a um ambiente político já tensionado pelo ano eleitoral. É ruim para o SPMG, que arrisca desgatar o apoio da opinião pública. E é péssima para os estudantes. Conforme a duração, uma tragédia.
Como já escrevi, greve é direito, mas não maratona até a exaustão. Ou não deveria ser. Quem ensinou isso — na prática, não na teoria — foi um metalúrgico do ABC que virou presidente. Lula nunca romantizou greve longa. Ao contrário. Sempre disse: tem começo, meio e fim. E mais: insistir no “tudo ou nada” costuma terminar no “nada”.
Ao fim, há trinta dias até 15 de setembro. É tempo suficiente para que a boa política — aquela feita com números na mesa, responsabilidade fiscal e respeito à valorização docente — prevaleça. O futuro do Ideb de Gravataí não será construído com muros, mas com a capacidade de governo e professores sentarem na mesma mesa e encontrarem um ponto de equilíbrio. Caso não seja possível um “sim”, que o “não” reste bem explicado.






