JONAS TIAGO SILVEIRA

Emily no fim do arco-íris

Hoje, quando estava almoçando com a minha namorada, eu tentei contar um pouco do que quero contar aqui… e eu chorei. Quando abri o documento e decidi escrever sobre isso, desabei chorando novamente; ainda é uma tarefa árdua de uma história real que parece que nunca conseguirei contar.

No dia 3 de março de 2013, o Brasil chorava a morte de Alexandre Magno Abrão, mais conhecido como Chorão. Na Venezuela, foram decretados sete dias de luto devido à morte de Hugo Chávez no dia anterior. Em Roma, na Itália, a população seguia em choque devido a um homem que matou duas funcionárias públicas e, em seguida, se suicidou. Mas, longe dos meios nacionais de comunicação, uma outra morte também foi divulgada em jornais locais do dia 3 de março. As notícias diziam: “Travesti é morta a facadas em Gravataí” — essa era a manchete, pouca coisa mudava entre um jornal e outro. Alguns mencionaram a quantidade de facadas para se diferenciar, outros só omitiram a arma do crime do título.

O crime, que ocorreu em frente a uma das modernas câmeras de segurança da cidade (e que estava inoperante naquela noite), parecia ter um peso diferente. O que aqueles títulos de notícias queriam dizer? Uma travesti, como erroneamente divulgado, não contabilizava como uma vida? Uma pessoa? Essas eram algumas das dúvidas que martelavam no meu peito naquele dia. Perder uma pessoa próxima e, além disso, ver aquele mar de notícias no site de buscas matando a memória de quem foi aquela pessoa. Levei muitos anos e até hoje eu ainda não tenho a resposta que me justifique por que essa vida foi tirada e por que os jornais noticiaram dessa forma. Não levavam em conta se era uma travesti ou uma mulher trans, muito menos se havia tido um nome; a partir

daquele momento, deixava de ser uma pessoa para pairar apenas como uma estatística para todos que não a conheciam.

Eu não pude me despedir da Emily, assim como alguns outros amigos que não tiveram acesso a nenhum dado sobre as cerimônias conduzidas pela família, e não sei se talvez isso seja parte da dificuldade de falar sobre ela. Toda vez o resultado é o mesmo: eu volto às lágrimas e tenho a sensação de que isso não acabou. E a verdade é essa: esse caso não teve fim, ainda existem por aí muitas Emilys à mercê de um destino cruel.

Quando conheci a Emily, ela ainda tinha um nome masculino, era um amigo muito querido, um dos mais jovens da turma que se reunia na praça próxima à igreja matriz de Gravataí. Nos encontros depois da aula, ele sempre estava um pouco calado, um pouco triste. Foi uns dois ou três anos depois, quando acabou a nossa vida escolar, que nos reencontramos; dessa vez já era a Emily e ela era incrível, feliz, forte, decidida. Desde antes já tinha problemas em casa, principalmente com o pai, mas naquela ocasião morava com uma amiga próxima ao centro da cidade; eu nunca a havia visto tão bem.

A partir dessa data, nos encontrávamos ocasionalmente no centro da cidade e, quando sobrava um tempo, parávamos para conversar fiado. Sempre fui muito curioso e a enchia de perguntas sobre esse novo nome e essa nova fase da vida: como era nas ruas, se tinha muito preconceito, como lidava e coisas assim. Emily sempre foi muito boa com isso, respondia a tudo sem o menor dos problemas, contava que, quando era desrespeitada, cobrava o respeito que merecia. Em uma dessas conversas na galeria Santa

Catarina, em frente a um posto telefônico, decidimos que deveríamos fazer um documentário sobre isso, sobre preconceito, filmar reações de pessoas e argumentar sobre o assunto. Essa foi a penúltima vez que vi Emily.

Emily fazia programas, era a renda dela. Segundo relato de uma amiga em comum, ela estava fazendo um curso de cabelos ou de estética para passar a trabalhar em um salão. Emily não tinha papas na língua para falar sobre isso, sempre era sincera. A última vez que eu a vi com vida foi em um posto de combustíveis em Gravataí, na tal “parada 79”, onde alguns boêmios ficavam tomando umas em frente à loja de conveniência. Estava lá com três amigos do nosso meio do rock ‘n’ roll, quando para um carro e começa uma gritaria. Emily desce do carro juntamente com um homem de certa idade e de porte maior que o nosso, protestava que ele não havia pago um programa e exigia o pagamento. A Brigada Militar ingressou no posto e já foi em direção aos dois, e a primeira coisa que me veio à cabeça naquele 2013 era que Emily pudesse sofrer algum tipo de violência. Não pensei e apenas agi: quando vi, eu já estava lá no meio da confusão, segurando o braço dela e tentando acalmá-la. Os policiais, para a minha surpresa naquela ocasião, foram supercompreensivos, apuraram os fatos, o cidadão admitiu a culpa, retirou dinheiro em um caixa eletrônico e quitou o que devia. Emily, ainda irritada, me agradeceu e foi embora.

Lembro que, assim que virei para a mesa, estavam lá os meus três “amigos”. Rindo que nem uns condenados, todos conheciam Emily desde antes, nenhum foi em auxílio dela, mas tiveram muita iniciativa fazendo piadas homofóbicas sobre o fato de eu a ter ajudado. Imagino se continuaram achando graça ao saber da morte dela algumas semanas depois.

No dia em que soube da morte de Emily, eu estava em Porto Alegre. Lembro que fui direto procurar notícias e encontrei aquele mar de títulos genéricos. Eu queria muito entender o que aconteceu, queria saber por que alguém decidiu encerrar aquela história com sete facadas. No primeiro momento, fiquei tentando descobrir informações sobre velório ou qualquer despedida, mas, segundo relatos, a família decidiu fazer algo mais fechado. Decidido a procurar qualquer explicação sobre o ocorrido, fui para Gravataí. Reservei um quarto no hotel que tinha fundos para a rua onde foi o crime e ali comecei a caminhar e perguntar. Segundo uma amiga, ela desceu para fumar; segundo um porteiro do hotel que ouviu relatos, ela estava fumando na entrada da galeria onde era seu apartamento; o assassino a perseguiu até o outro lado da rua, onde o crime foi consumado.

Foi em frente ao prédio onde seu corpo caiu que obtive o pior dos relatos. A mulher me disse: “Eu só ouvi a gritaria”. Perguntei se ela não foi ver e ela me disse: “Nem fui ver, esse tipo de gente é muito escandalosa, tá sempre gritando”. Foi aí que eu entendi a causa do crime: o ódio, a homofobia e a indiferença. Segundo uma fonte de uma frente LGBT na OAB, o crime havia sido cometido por um morador de rua; não sei se é verdade, se foi por um surto, se foi um crime de ódio, mas sei que a exposição que levou Emily até ali foi por preconceito; se ela morava em uma galeria em vez de ter um lar e apoio, foi preconceito; se ninguém se prestou a olhar por uma janela ao ouvir as súplicas de socorro de um ser humano sendo brutalmente assassinado, foi preconceito. Se os jornais só tinham a dizer que uma travesti morreu, era preconceito.

Esse é um fardo que eu carrego, um adeus que eu não pude dar e para o qual sinceramente não me sinto pronto até hoje. Eu tentei

por mais de uma vez resgatar aquela ideia de fazer o documentário, de falar sobre elas, as Emilys que enfrentam injustiças, preconceitos… que precisam deixar suas casas e se virar, conhecer lados mais pesados da vida só para poderem ser elas mesmas. Um dia, quem sabe, eu consigo falar disso sem desabar e contar um pouco mais dessa história, esperando que lá, do outro lado do arco-íris, Emily possa ver a saudade que ela deixou em nós.

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