A vereadora de Cachoeirinha Cláudia Frutuoso (PL) decidiu cruzar a ponte dos problemas municipais para protocolar uma representação no Ministério Público Federal, em Brasília, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A representação mira a entrevista concedida por Lula à TV Record, gravada no Palácio do Alvorada durante o período eleitoral. Na avaliação da parlamentar, a utilização da residência oficial da Presidência da República — contendo elementos visuais associados ao cargo — teria concedido vantagem eleitoral ao petista. Ela argumenta que a sabatina abordou temas tipicamente eleitorais, como a avaliação da atual gestão, propostas para um eventual novo mandato e estocadas em adversários políticos.
Na petição ao MPF, a vereadora solicita a apuração de pontos específicos: onde exatamente a entrevista foi gravada; se houve emprego de equipamentos, servidores ou estruturas públicas; e quem custeou a produção, exigindo acesso ao vídeo integral e às imagens do local.
Cláudia Frutuoso aponta para eventual configuração de uso de bem público em benefício de candidatura, conduta vedada ou abuso de poder político e econômico. Requer, ainda, medida urgente para suspender a divulgação do material enquanto os fatos são esclarecidos ou a notificação de Lula para prestações de contas, com aplicação de sanções eleitorais caso confirmadas as irregularidades.
É ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’.
Reputo que a falta de timing político e a hipocrisia restaram deste lado da ponte. A vereadora enclausura-se na bolha e esquece — além dos problemas reais de Cachoeirinha — o constrangimento de seu próprio entorno.
Cláudia Frutuoso subiu à tribuna para levantar a suspeita de crime eleitoral em Brasília horas depois do Seguinte: ter publicado que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um recurso que pede a reversão da absolvição da prefeita Jussara Caçapava (Avante) e do vice Mano do Parque (PL) — seu colega de partido e cuja base de governo ela integra.
O processo, que pode ainda levar à cassação de seu grupo do governo, trata justamente do uso indevido de estrutura pública em vídeos e redes sociais durante a campanha.
A suplente que herdou o mandato após Mano renunciar ao assumir a vice-prefeitura, parece esquecer, também, que na eleição de 2022 o seu presidente Jair Bolsonaro (PL) transmitia lives das dependências oficiais do Palácio do Planalto e do Alvorada.
Intriga, ainda, o fato de uma defensora da liberdade de expressão, ao menos no discurso público, pedir a suspensão da divulgação do material jornalístico.
Ao fim, lembra-me Millôr Fernandes:
“Pessoas se perguntam – ocasionalmente me perguntam – em quem confiar no momento em que não se confia na própria sombra, nem na luz que faz sombra? Mas convém ser assim pessimista?, pergunto eu. Tem sempre um lado bom. Ontem mesmo eu vi um cara (não via há muito tempo mas é até meu amigo, não digo o nome porque pode ocasionalmente ler este quadrado e achar que estou dedurando ele, embora essa deduragem seja para apontá-lo pelo que é, um raro e extraordinário homem de bem) que serve. Pude examiná-lo durante algum tempo, simpático como sempre, saudável, esse homem culto, claro de ideias, experiente, generoso, olha – pensei – esse é capaz de salvar o Brasil. Mas por que estava correndo desse jeito àquela hora da noite?”
Ao calçar a ferradura ideológica de forma tão exótica, Cláudia Frutuoso arrisca, como na alegoria do humorista, transformar em meme toda a seriedade que procura transmitir em suas manifestações públicas. O que é pior: um meme ruim.
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