Na prestação de contas em que o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) encarnou o ‘Zaffa Mãos de Tesoura’ e citou o risco da Prometeon pinotear de Gravataí, ao ser instado se tinha alguma pergunta, brinquei sobre “as dificuldades de administrar o capitalismo”. Minutos depois, no saguão da Prefeitura, o vice-presidente da Associação Comercial Industrial e de Serviços (Acigra), Régis Albino Marques Gomes, contestou-me: “Difícil é pagar a conta do socialismo”. Questionei-o onde vigora tal socialismo, já que o neoliberalismo reina de forma global desde antes de Fukuyama decretar o precoce “fim da história” — gerido indistintamente por governos de direita, centro ou esquerda. Reputo, inclusive, que boa parte do ressentimento que consome o debate público mundial tem neste modelo universal sua gênese. Mas esse debate filosófico-econômico rende outro artigo. Tratemos do drama real, palpável e doloroso que bate à porta de Gravataí: o caso Prometeon.
O fantasma que assombra os cerca de 1.360 trabalhadores da fabricante de pneus para veículos pesados — herdeira da histórica operação da Pirelli, que fincou raízes na cidade há mais de meio século — não cabe em slogans simplistas de redes antissociais: do “Faz o L” ao “Faz Arminha”, passando pelo ‘Nem-Nem’. A crise da unidade local da Prometeon, que opera hoje com apenas 70% de sua capacidade, expõe o dilema central da indústria nacional e a contradição escancarada de discursos liberais quando a água bate no pescoço do mercado.
Em entrevista concedida à jornalista Giane Guerra, no programa Acerto de Contas (Rádio Gaúcha/GZH), o presidente da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), Rodrigo Navarro, desenhou o cenário com tintas dramáticas: o mercado nacional de reposição, que em 2019 tinha 70% de sua demanda suprida pela produção doméstica, hoje resta dominado por pneus importados. Trata-se, segundo a Anip, de uma “avalanche” impulsionada por práticas de dumping asiático — produtos vendendo até 500% ou 600% abaixo do preço praticado no Brasil, e frequentemente ignorando contrapartidas de reciclagem e metas ambientais do Ibama, acumulando um passivo de 500 mil toneladas de lixo pneumático não recolhido.
Navarro clama por protecionismo, embora prefira o eufemismo técnico “defesa comercial”. E é aqui que os fatos — aqueles chatos que atrapalham argumentos — escancaram a ironia da história.
Quem apela por barreiras tarifárias hoje são os mesmos setores que aplaudiram entusiasticamente a Lei de Liberdade Econômica, sancionada em setembro de 2019 por Jair Bolsonaro e seu ‘posto ipiranga’ Paulo Guedes — figura sempre invocada por liberais envergonhados do bolsonarismo. A referida lei, com o pretexto de combater o “abuso do poder regulatório”, desmantelou o preço internacional de referência que permitia barrar a entrada de produtos com preços de liquidação artificial. Para coroar, em 2023, o mesmo governo Bolsonaro zerou o imposto de importação sobre pneus de caminhão. O resultado? A porteira escancarada para a invasão de pneus chineses, vietnamitas e indianos a preços inferiores aos do custo da matéria-prima nacional.
Paralelamente, o imperador da extrema-direita global, Donald Trump, impõe seu tarifaço protecionista. A União Europeia reagiu aplicando alíquotas de 45,3% sobre pneus asiáticos. Os EUA fixaram 78%. O México subiu para 35%. E o Brasil? Segue com taxas acanhadas — 25% para passeios, 16% para carga —, transformando o país no depósito residual da sobra de produção global. A proteção estatal, que a vulgata liberal rotulava com desdém como “coisa de comunista”, virou repentinamente a tábua de salvação e a blusinha (contém ironia) mais desejada pela burguesia industrial.
Chegamos, então, ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. É cômodo — como já insinuou o prefeito em vídeo — atribuir a hesitação de Brasília a uma suposta “simpatia ideológica” pelo regime de Pequim. É verdade que Zaffa, em sua faceta mais justa, coloca as medidas de Bolsonaro, Guedes e a omissão do Congresso ao lado de Lula no rol dos vilões, adotando a zona de conforto do pragmatismo ‘nem-nem’. Mas a questão da taxação chinesa envolve números frios, que congelam qualquer ferradura ideológica.
Como retalhar a China se a balança comercial brasileira depende umbilicalmente do gigante asiático? Diferentemente da relação deficitária que mantemos com os Estados Unidos, o comércio com Pequim rendeu ao Brasil, apenas no primeiro semestre de 2026, um superávit estrondoso de US$ 19,8 bilhões.
A equação que sufoca o Ministério da Fazenda e o MDIC é matemática pura, ‘ideologia dos números’:
Há o risco de uma retaliação devastadora: se o Brasil erguer muralhas tarifárias contra manufaturados chineses (sejam pneus, autopeças ou carros elétricos), Pequim pode responder no ato com cotas ou barreiras contra a soja, o minério de ferro e a carne bovina brasileira — a exemplo das tarifas de 55% impostas no início de 2026 sobre a carne excedente às cotas. Quem paga a conta de uma retaliação dessas é o agro, a espinha dorsal do PIB nacional.
Sofremos com a ausência de mercados alternativos: se a China fechar a torneira das commodities brasileiras em uma guerra comercial, não existem outros compradores no planeta capazes de absorver o volume da nossa produção.
Verifica-se uma assimetria estrutural: o Brasil exporta matéria-prima bruta e importa manufaturados e insumos tecnológicos de alto valor agregado. O protecionismo cego pode inflacionar a cadeia produtiva interna sem garantir a modernização da fábrica local.
´Protecionismo bairrista´: o precedente da GM — e a putaria do Vorcaro
Ao fim, para Gravataí, obviamente, a Prometeon é o centro do universo. Mas, para a diplomacia e a macroeconomia em Brasília, o desmantelamento de uma fábrica gaúcha entra na balança contra a estabilidade do agronegócio e as exportações bilionárias da nação.
Este filme, vale lembrar, não é inédito na cidade. Em agosto de 2025, vivenciamos uma cena idêntica com o complexo automotivo da General Motors. Naquela ocasião, diante do avanço da montadora chinesa BYD — que desembarcava no país montando veículos elétricos no regime SKD (quase prontos, importando peças pintadas e montando apenas pneus no Brasil) —, vimos uma aliança improvável.
De um lado, o prefeito liberal Luiz Zaffalon; do outro, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Valcir Ascari, o “Quebra-Molas”, liderança lulista. Ambos deram-se as mãos para exigir do governo federal o aumento das alíquotas de importação e barreiras contra os chineses. O prefeito, que defende o livre mercado nos discursos, passou a exigir taxação; o sindicalista, crítico do capital tradicional, virou guardião das margens da multinacional americana.
Chamei de ‘bairrismo econômico’ legítimo. Afinal, a GM representa metade da arrecadação de Gravataí. A cada parada da fábrica, a cidade resta na UTI.
Agora, na crise da Prometeon, a história se repete. A reação uniu a Prefeitura de Gravataí (que acena com isenção de IPTU), o Sindicato da Borracha (Stiab, liderado por Flávio de Quadros e Moacir Bitencourt, em constante alerta com os 1,3 mil operários no chão de fábrica) e o governo Eduardo Leite (por intermédio do secretário Leandro Evaldt e do ex-deputado Dimas Costa, oferecendo como paliativo alívio de ICMS e alterações na substituição tributária via Decreto nº 58.937).
Qualquer movimento, porém, “só depois da eleição”, como alertou ao prefeito Zaffa o coordenador da bancada federal gaúcha, Afonso Hamm.
‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’, após uma eleição em que a imprensa e formadores de opinião parecem mais interessados nas putarias financeiras e literais vazadas do celular de Don Vorcaro do que nas propostas dos presidenciáveis para o Brasil real enfrentar o ‘sincericídio’ do capitalismo.





