Troca de acusações entre ministros revela contratos milionários e encontros secretos com Daniel Vorcaro no Supremo Tribunal Federal. Compartilhamos o artigo do jornalista João Filho, publicado no Intercept Brasil
Os dias estão tensos no Supremo Tribunal Federal. A tensão chegou a tal ponto que André Mendonça e Alexandre de Moraes quase saíram na porrada.
A treta, que é antiga, atingiu o auge quando Mendonça derrubou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que complicou Moraes. As mensagens indicam que ele mantinha uma relação promíscua com o ex-banqueiro do Master Daniel Vorcaro.
Muitas coisas vieram à tona a partir do celular de Vorcaro. Dois dias antes de ser preso, ele trocou mensagens com Moraes sobre a possibilidade de uma operação da PF contra ele. A investigação também encontrou registros digitais que apontam que o ministro participou da edição do contrato milionário que o escritório da sua esposa mantinha com Vorcaro.
Aliás, ela não possuía apenas um contrato com o banqueiro, como até então se imaginava, mas dois, totalizando R$ 180 milhões. O ministro e o banqueiro tiveram oito encontros secretos entre 2024 e 2025, de acordo com a investigação da PF.
Mensagens indicam também que Moraes participava das decisões sobre a programação e quais convidados deveriam ou não estar no fórum jurídico organizado pelo Banco Master em Londres.
Sem precedentes
A crise moral que vive o STF é sem precedentes. A quantidade de parentes de ministros que se beneficiaram de alguma maneira da grana do banqueiro corrupto é grande.
Uma consultoria do filho do ministro Kassio Nunes Marques recebeu R$ 6,6 milhões do Master, entre agosto de 2024 e julho de 2025.
O filho de Fux é figurinha carimbada nos eventos sociais promovidos por Vorcaro e esteve presente numa degustação de vinho em Nova York com tudo pago pelo banqueiro.
Dias Toffoli é outro que manteve relações pessoais e financeiras com Vorcaro, que teria feito pagamentos milionários para uma empresa da família do ministro através de um fundo.
Mendonça também participou do trem da alegria
Nesta semana descobrimos que o André Mendonça, vejam só, também participou do trem da alegria do dono do Master.
Um dia após o ministro ter partido para cima de Moraes com a derrubada do sigilo, o jornalista Paulo Motoryn publicou mensagens e áudios que revelaram que o juiz bolsonarista também tem o rabo preso com o criminoso responsável pela maior fraude bancária da história do país.
Eles tiveram pelo menos um encontro secreto no instituto de Mendonça — aquele criado depois que ele virou ministro. A entidade enriqueceu de forma meteórica firmando contratos públicos generosos, inclusive um milionário com o governo Tarcísio, feito sem licitação. Quem intermediou a reunião, aliás, foi o deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo, que é um tarcisista de carteirinha. Outro que intermediou o encontro foi o advogado baiano Ciro Rocha Soares, responsável por fazer a ponte de Vorcaro com autoridades da República.
Em uma das mensagens recuperadas pela PF, Ciro enviou para Vorcaro uma foto ao lado de Mendonça e um áudio: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.
À época, até os ipês amarelos de Brasília já sabiam que o banqueiro não era flor que se cheire. Mas o “terrivelmente evangélico” não viu problema em abrir as portas do seu instituto para o fariseu, nem em ir ao alfaiate com o lobista dele.
Guerra Fria no STF
O STF encontra-se em uma situação bizarra. Ainda que, pelo menos a princípio, não haja nada que esteja configurado como ilegal, é inegável que ambos precisam ser investigados e não podem decidir nada em relação ao caso.
A guerra entre os ministros deixou de ser fria. Depois de quebrar o sigilo que arrastou Moraes para o olho do furacão, Mendonça decidiu colher um depoimento de Vorcaro após ele relatar ter sofrido intimidações por parte da Polícia Federal e pedir para ser ouvido com urgência.
Mendonça agora virou o guardião da lisura processual e protetor do réu contra supostas intimidações da PF, que não foram comprovadas. O nível de desfaçatez é espantoso.
As acusações de Vorcaro contra a PF chegam na esteira de outra guerra: Mendonça versus PF, que há algum tempo brigam nos bastidores do caso Master. Moraes se juntou à PF nesta guerra e sua vingança veio a cavalo. Em relatórios enviados ao STF, a PF afirmou que Mendonça quis saber dos investigadores se havia algo relacionado a Moraes no celular de Vorcaro.
Se Mendonça extrapolou suas funções de um lado, Moraes extrapolou do outro. O ministro resolveu utilizar o inquérito das Fake News para acusar Mendonça de uma série de crimes: usurpação da direção das investigações, condução irregular de tratativas de delação premiada e direcionamento de investigação contra o próprio magistrado.
Essa crise moral que vive o STF não pode escamotear a briga política e eleitoral que rola como pano de fundo. Alexandre de Moraes é o homem que salvou a democracia, colocou os golpistas na cadeia e tornou-se o inimigo número 1 do bolsonarismo, que hoje é representado no STF por André Mendonça.
Não restam dúvidas de que Mendonça iniciou uma operação eleitoral para atacar o maior desafeto dos golpistas e blindar a Flávio Bolsonaro no caso “Dark Horse”, cujo sigilo ele se recusa a derrubar.
É fato que tanto Moraes quanto Mendonça mantiveram relação promíscua com o maior bandido do Brasil e devem ser rigorosamente investigados. É preciso registrar, entretanto, que um deles é o terror dos golpistas e o outro sempre foi o guardião do golpismo.
Isso não absolve nem condena ninguém de possíveis crimes cometidos, mas é preciso que fique claro quais são as forças políticas que movem os ministros. Se dependesse do bolsonarismo, hoje o STF seria formado por um cabo, um soldado e André Mendonça.
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