A pressão sobre o futuro da fábrica da Prometeon em Gravataí provocou uma reação imediata do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Artefatos de Borracha de Gravataí (Stiab), que decidiu ampliar a articulação política para tentar impedir que a crise de competitividade da unidade se transforme em uma crise de empregos.
Em comunicado distribuído aos trabalhadores, o presidente do sindicato, Flávio de Quadros, afirma que a entidade está mobilizada e que a defesa da fábrica precisa envolver Prefeitura, governo do Estado, governo federal, empresa e trabalhadores.
A movimentação ocorre na esteira da reportagem publicada por GZH sobre as preocupações envolvendo o futuro da planta e da reunião realizada na sexta-feira (4) entre representantes do sindicato, Prefeitura de Gravataí e governo gaúcho. O Seguinte: detalhou a reunião na reportagem Prometeon: como Gravataí parte para reação contra ameaça de fechamento da fábrica de 1,3 mil empregos, publicada ontem.
No comunicado, o sindicato da borracha explica aos trabalhadores que a reação não começou após a publicação das notícias sobre a situação da Prometeon. Segundo o sindicato, a entidade já vinha acompanhando o cenário e buscando alternativas para garantir a continuidade da produção e dos empregos.
A mobilização ganhou novo impulso após a divulgação da reportagem na mídia estadual. O sindicato afirma que, imediatamente, procurou o governo estadual e a Prefeitura para discutir medidas concretas capazes de fortalecer a indústria pneumática. A articulação teve participação do ex-deputado estadual Dimas Costa, ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite na região, que auxiliou na aproximação com as autoridades.
O movimento coloca a permanência da Prometeon no centro de uma operação política que ultrapassa os limites da negociação entre empresa e trabalhadores.
No comunicado, o Stiab informa que, durante a reunião, o prefeito reafirmou que havia mantido contato com a direção da empresa. A Prefeitura trabalha com a possibilidade de utilizar incentivos municipais como parte da estratégia para tornar Gravataí mais competitiva e ajudar a manter a operação. Entre as medidas citadas está o IPTU.
A declaração reforça o que Zaffa havia dito ao Seguinte: na reportagem publicada na sexta-feira. Diante da possibilidade de perda de uma das maiores operações industriais da cidade, o prefeito foi direto ao avaliar a necessidade de união entre as diferentes esferas de poder: “Se não agirmos em conjunto, pode fechar”.
A frase sintetiza o tamanho da preocupação em Gravataí.
A fábrica da Prometeon tem mais de 50 anos de história no município e emprega aproximadamente 1.360 trabalhadores. Para além dos empregos diretos, a unidade movimenta fornecedores, transportadores e uma extensa cadeia de serviços.
Estado entra no jogo com incentivo tributário
O governo do Rio Grande do Sul também apresentou ao sindicato e à Prefeitura medidas destinadas a melhorar as condições de competitividade do setor, que foram informadas aos trabalhadores no comunicado do sindicato. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Leandro Evaldt, apresentou medidas de incentivo tributário já adotadas pelo Estado.
Entre elas está o Decreto nº 58.937, que estabelece mudanças relacionadas ao regime de substituição tributária de pneumáticos, câmaras de ar e protetores de borracha, com efeitos a partir de 1º de janeiro de 2027.
A iniciativa é apontada pelo sindicato como parte de um conjunto de ações necessárias para evitar o enfraquecimento da indústria pneumática gaúcha.
O outro front: pneus importados
Mas, para o STIAB, não basta reduzir custos dentro da fábrica. O sindicato quer que o governo federal também entre na discussão e adote medidas para enfrentar o avanço das importações de pneus.
A entidade defende ações contra o que considera concorrência desleal, argumentando que a entrada crescente de produtos estrangeiros vem pressionando a indústria brasileira.
O assunto já havia sido apresentado ao Seguinte: pelo assessor jurídico do sindicato, Moacir Bitencourt. Na avaliação do Stiab, é necessário criar condições para que a indústria nacional volte a ser competitiva, preserve os empregos existentes, retome investimentos e tenha capacidade de ampliar a produção.
A discussão coloca Gravataí dentro de um problema que extrapola os limites do município: a disputa entre fabricantes instalados no Brasil e o crescimento da participação dos pneus importados no mercado nacional.
Fábrica opera abaixo da capacidade
A preocupação não surge do nada. Conforme informações apuradas pelo Seguinte: e publicadas na reportagem anterior, a unidade de Gravataí trabalha atualmente com cerca de 70% da capacidade instalada.
A Prometeon produz na cidade pneus destinados a veículos pesados, incluindo caminhões, ônibus e máquinas agrícolas.
A redução do ritmo produtivo e a perda de competitividade colocaram a fábrica diante de um cenário que preocupa trabalhadores, sindicato e poder público.
O temor também tem um componente emocional para a cidade. A Prometeon é herdeira da antiga operação da Pirelli em Gravataí. O encerramento da antiga fábrica da Pirelli, em 2021, ainda permanece vivo na memória dos trabalhadores e da comunidade.
Sindicato tenta conter tensão entre trabalhadores
Além da mobilização política e econômica, o Stiab enfrenta outra preocupação: o clima dentro da fábrica. Em declaração ao Seguinte: publicada na sexta-feira, Moacir Bitencourt havia afirmado que, naquele momento, não havia risco de fechamento da unidade no curto prazo.
A preocupação do sindicato é evitar que notícias sobre um eventual encerramento provoquem ansiedade entre os trabalhadores. O comunicado distribuído a partir da sexta segue a mesma linha, procurando mostrar que existem negociações e articulações em andamento.
A mensagem de Flávio de Quadros é, ao mesmo tempo, uma prestação de contas e um recado às autoridades: o sindicato pretende participar ativamente da construção de uma saída para a crise.
Gravataí tenta evitar que ameaça vire decisão
Por enquanto, é importante separar ameaça, pressão econômica e decisão empresarial. Não há anúncio oficial de fechamento da fábrica da Prometeon em Gravataí.
O que existe é uma unidade industrial operando sob pressão, com redução da capacidade produtiva, e uma mobilização que agora reúne sindicato, Prefeitura e governo estadual, enquanto se busca também uma resposta em nível federal.
A diferença, neste momento, pode estar justamente na capacidade de articulação.
O sindicato da borracha afirma que continuará pressionando por medidas de proteção à indústria nacional e encerra o comunicado com uma promessa aos trabalhadores: “Não medirá esforços” para defender os empregos da Prometeon e de toda a indústria da borracha de Gravataí.
Para uma cidade que já viu uma grande fábrica de pneus desaparecer, a disputa pela permanência da Prometeon ganhou contornos que vão muito além de uma negociação trabalhista.
São cerca de 1.360 empregos diretos — e uma parte importante da história industrial de Gravataí — em jogo.






