RAFAEL MARTINELLI

Jussara faz o que pode na contenção de enchentes — As respostas do Plano de Contingência 2026 e os limites da gestão em Cachoeirinha

Prefeita sobiu na máquina, no início das obras no Arroio Passinhos, em janeiro / Foto: Tiago Cechinel

Insisto na descrição do quadro mental e factual. Em algum momento das noites de tempestade que continuam a fustigar o Rio Grande do Sul, a previsão do tempo deixou de ser um assunto banal. Deixamos de querer saber se vai chover para tentar adivinhar se a cidade ainda existirá inteira no dia seguinte. O leitor de Cachoeirinha sabe exatamente do que estou falando. É a dor visceral da apreensão de quem acorda consultando a cota do rio com o pavor de quem aguarda o resultado de uma biópsia. Aquilo de profundamente errado na engrenagem social quando olhar a régua do rio antes de escovar os dentes passa a ser um método de sobrevivência.

Diante dessa constante ansiedade coletiva, uma constatação precisa ser feita. Sem torcida ou secação: no limite de suas atribuições e do seu orçamento, a gestão da prefeita Jussara Caçapava está fazendo o que pode para enfrentar a crise climática. Goste-se dela e seu governo ou não.

A grande e amarga verdade que o cidadão precisa compreender é que as obras de engenharia pesada — o cinturão definitivo de diques, as casas de bombas de alta capacidade e as barragens de amortecimento — não dependem da execução da Prefeitura. Tratam-se de intervenções de responsabilidade direta dos governos estadual e federal.

Como já detalhei nesta coluna, o macroprojeto para a Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí — que busca destravar R$ 2,9 bilhões do Novo PAC via Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) — vive refém da lentidão burocrática. O edital de R$ 5,78 milhões para atualização dos anteprojetos só abre suas propostas em 5 de outubro de 2026. Somados os 13 meses de estudos a partir da assinatura do contrato em dezembro, as primeiras retroescavadeiras do Estado só pisarão no terreno no primeiro semestre de 2028, com conclusão estimada para 2030.

Na prática, a Bacia do Gravataí ficou para o fim da fila da reconstrução gaúcha — e exceção de Porto Alegre e do Aeroporto Salgado Filho; o que alertei, pela enésima vez, nesta semana em Tão longe de Deus, tão perto do aeroporto: Especialista confirma alerta sobre o risco do ‘muro’ de Porto Alegre para Cachoeirinha.

Fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos: mesmo sem ter a chave do cofre bilionário do PAC, a gestão Jussara não ficou de braços cruzados. Foi a articulação política da Prefeitura que impediu que Cachoeirinha fosse esquecida como uma ilha de omissão: junto aos moradores, a gestão municipal pressionou o Palácio Piratini e garantiu a inclusão do Parque da Matriz no estudo estadual, cobrindo falhas históricas da BR-290 e projetando a elevação do dique para um parque linear, além de resguardar patrimônios como a Casa Alberto Bins.

Paralelamente, o município assumiu a responsabilidade do curto e médio prazo. Destravou a revitalização de R$ 20 milhões do Arroio Passinhos — encarando a licença ambiental do DRH/Sema que o governo anterior ignorou —, ergueu barreiras temporárias com 2,5 mil big bags de areia na orla e no Parque da Matriz, adquiriu bombas anfíbias, instalou armadilhas metálicas para lixo nas bocas de lobo em parceria com o Senai e a UFRGS, deflagrou força-tarefa de hidrojateamento nas redes pluviais, viabilizou moradias populares e garantiu a isenção do IPTU para os atingidos.

Agora, a Prefeitura dá o passo mais estratégico do ponto de vista de organização e salvamento de vidas: a apresentação do novo Plano de Contingência (Plancon) de 2026.

Na noite de quarta-feira (23), a sede da Câmara Municipal de Cachoeirinha foi palco da audiência pública promovida pela Secretaria Municipal de Defesa Civil e Resiliência Climática (SMDCRC) para apresentar a atualização do Plancon 2026. A reunião reuniu representantes do Corpo de Bombeiros, Brigada Militar, UFRGS, Associação dos Geólogos, Engenheiros e Arquitetos de Cachoeirinha (Agea), Samu, além de lideranças da sociedade civil.

A atualização do plano — desenhada a partir do trauma e do aprendizado das cheias de 2024 — visa estruturar os procedimentos operacionais de acionamento, responsabilidades, fluxos de comunicação e mobilização de recursos públicos e privados. Como destacou o secretário de Defesa Civil e Resiliência Climática, Alexandre Braz, o documento deixa de ser uma mera peça burocrática para se transformar em um protocolo vivo de resposta e integração comunitária.

Raio-X detalhado: Como funciona o Plano de Contingência 2026

O Plancon 2026 abandona a gestão improvisada e estabelece um padrão de resposta imediata dividido em eixos operacionais rigorosos.

Com ajuda da IA, detalho o plano, que você pode consultar a apresentação na íntegra clicando aqui.


1. Estrutura de Comando e Desburocratização

  • Sistema de Comando em Operações (SCO): Passa a ser de uso obrigatório. O SCO padroniza a cadeia de comando entre os órgãos municipais, estaduais (Bombeiros e Brigada Militar) e concessionárias de serviços públicos, eliminando o ruído de comunicação e o choque de ordens em momentos de crise.
  • Posto de Comando Único: Centraliza todas as decisões logísticas e chamados de socorro da Defesa Civil Municipal em um único ponto focal.
  • Desburocratização Emergencial: Mecanismo administrativo que autoriza a mobilização e contratação célere de maquinários, combustível e insumos no momento em que os níveis de alerta são disparados.


2. Mapeamento de Risco e Diagnóstico Populacional

  • População Vulnerável: O diagnóstico detalhado do município aponta que aproximadamente 15 mil pessoas residem em zonas classificadas em estado de atenção direta para evacuação (com destaque para Parque da Matriz, Vila Rica, Jardim Conquista, Carlos Wilkens e trechos do Meu Rincão).
  • Monitoramento e Alerta: Formalização de protocolos de leitura em tempo real da régua do Rio Gravataí e dos arroios fluviais, com emissão de alertas graduados (Atenção, Alerta e Evacuação).


3. Redes de Abrigo, Assistência e Cuidado Animal

  • Estrutura de Acolhimento: Mapeamento de ginásios, escolas e centros comunitários capacitados para receber famílias desabrigadas, estabelecendo metragens mínimas de dignidade e triagem médica prévia.
  • Espaço Pet (Animais Domésticos): Diretriz inédita que exige que os abrigos municipais contem com estrutura acoplada e segura para o alojamento de animais de estimação, evitando que moradores recusem deixar áreas de risco por falta de local para seus pets.
  • Segurança e Logística: Atuação integrada com a Brigada Militar e Guarda Municipal para garantir o patrulhamento dos bairros evacuados (combatendo saques) e a segurança interna dos abrigos.


4. Mobilização Comunitária e Voluntariado

  • NUPDECs (Núcleos de Defesa Civil): Criação de núcleos comunitários nos bairros periféricos. Moradores treinados atuarão como ponte direta e rápida entre a Defesa Civil e a população local.
  • Cadastro Coordenado de Voluntários: Fim do voluntariado inorgânico. O plano cria um cadastro prévio de cidadãos para atuar sob a coordenação técnica do município na triagem de doações, distribuição de suprimentos e apoio operacional nos abrigos.

Secretário de Defesa Civil e Resiliência Climática, Alexandre Braz, na audiência pública


2031: o ano em que faremos contato

Reputo que o novo Plancon 2026 é uma peça de organização exemplar. Demonstra maturidade administrativa e respeito ao cidadão que vive sob a sobressalto do clima. Contudo, é preciso manter a honestidade intelectual: um plano de contingência não segura a água de um rio. Ele organiza a fuga, minimiza o caos, salva vidas e estrutura o acolhimento; ele não substitui a rocha e o concreto das obras definitivas.

Enquanto os modelos meteorológicos continuam a alertar para a probabilidade de eventos severos como o Super El Niño 26/27, Cachoeirinha se vê na contingência de fazer o seu dever de casa no microterritório, enquanto assiste ao tempo arrastado dos anteprojetos estaduais.

Ao fim, a prefeita Jussara Caçapava faz o que está ao alcance de uma prefeitura. Mas a pergunta de R$ 2,9 bilhões continua a ecoar nas margens do Gravataí: até quando as cidades a jusante terão de enfrentar a fúria da física munidas apenas de sacos de areia, hidrojatos e planos no papel, enquanto o Estado ajusta suas réguas e carimba seus editais?

Respondo, sem receber um centavo: pelo menos até 2031, prazo estimado para conclusão das obras na nossa bacia; e, infelizmente, torcendo para que a água evitada na capital não transforme Cachoeirinha na ‘bacia das almas’ da região, como já alertei — e trouxe especialistas —em artigos anteriores.

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